Capítulo 3 CAPÍTULO 3
Por um único batimento de coração, o gramado do festival ficou imóvel. O único som era o crepitar da fogueira, as faíscas subindo em espiral para o céu noturno silencioso.
Então começaram os sussurros.
— Ela não tem lobo…
— A Deusa deve ter cometido um erro.
— Sebastian, você tá brincando? Ela nem tem lobo com dezenove anos!
As palavras cortavam a multidão, agudas e cada vez mais altas, até que o burburinho virou uma onda de incredulidade. Rostos se viraram para Cindy, olhos se estreitando, bocas se contorcendo em desprezo. Ela sentiu aqueles olhares queimarem sua pele como fogo vivo.
Sara foi a primeira a rir. O som ecoou claro e cruel, rasgando a tensão.
— Ah, isso tá impagável. — Ela agarrou o braço de Sebastian e inclinou a cabeça na direção de Cindy. — De todas as garotas da alcateia, a Deusa te dá… ela? — Riu de novo, se apertando ainda mais contra ele. — Quase parece piada. Talvez a Deusa tenha achado que seria um ato de misericórdia, te dando alguém tão fácil de rejeitar.
Houve um coro de suspiros escandalizados, mas Sara só sorriu, fazendo carinho na mão de Sebastian com posse, como se estivesse selando a própria reivindicação. Ela se ergueu na ponta dos pés e encostou um beijo na bochecha dele, mantendo os olhos fixos em Cindy.
— Não se preocupa, querida — ela cantarolou —, você sempre vai ter a mim.
A crueldade daquilo perfurou mais fundo do que qualquer desprezo. O peito de Cindy doeu como se a mão de Sara tivesse fechado em volta de seu coração e apertado.
A voz da senhora Hale cortou a clareira em seguida.
— Não. — Ela foi se empurrando pelos corpos à frente, o rosto pálido de fúria. — Isso não é possível. A Deusa nunca amaldiçoaria esta alcateia amarrando o nosso futuro Alfa a uma serva inútil! — Ela apontou um dedo trêmulo para Cindy, como se a simples presença da garota fosse um insulto.
Os olhos de Anna transbordavam incredulidade e humilhação. Ela deu um passo trôpego para trás, os lábios tremendo sem som, até a mão da mãe firmar seu ombro. Mas o olhar da senhora Hale continuava cravado em Cindy, ardendo com um ódio mais cortante do que nunca.
O senhor Hale estava rígido na beirada da multidão, o maxilar travado, mas não disse nada. O silêncio dele era um tipo próprio de condenação.
O Alfa Richard se levantou devagar, a presença impondo respeito.
— Chega — trovejou ele, a voz calando a multidão. Seus olhos dourados percorreram a alcateia. — A vontade da Deusa da Lua não é motivo de zombaria.
Mas nem a autoridade dele conseguiu esfriar o desconforto. Anciãos trocaram olhares inquietos, sussurros teimosos ainda escapando por entre os dentes.
E então Cindy a viu.
Lydia Moore, a Luna que sempre lhe sorrira, agora estava sentada como uma estátua de pedra. O rosto, inescrutável; o olhar, frio, passando por Cindy sem um mínimo sinal de reconhecimento. A gentileza tinha sumido, soterrada pelo dever e pelo medo do que aquilo significava para o filho. Para Cindy, aquele olhar distante doeu mais do que todas as zombarias.
A voz do Alfa Richard baixou, pesada de gravidade.
— A Deusa nunca erra. Mas há coisas a se considerar em uma Luna. A origem dessa garota é desconhecida — ela foi encontrada na mata, sem linhagem de que se possa falar. A loba dela ainda não se mostrou, mesmo com a idade que tem. Ela não possui a força para liderar esta alcateia. Ela nem é educada; como é que vai liderar a alcateia?
Ele se virou para os anciãos.
— Cedric — disse, em tom contido —, você a criou debaixo do seu teto. Você também é um ancião desta matilha. O que você diz?
Todos os olhares se voltaram para o senhor Hale. Ele hesitou, o rosto carregado, depois deu um passo à frente. Sua voz saiu firme, espalhando-se pela clareira.
— O Alfa fala a verdade — disse ele. — Uma Luna precisa ser forte o bastante para apoiar o seu Alfa na batalha e na paz. Ela precisa ser sábia, instruída, capaz de aconselhar quando a matilha vacilar. Ela precisa ser um escudo, assim como um guia. — Ele balançou a cabeça lentamente. — Nada disso descreve minha filha. Eu a conheço. Ela é obediente, sim… mas é fraca. Nós não sabemos nada do sangue dela, só que a encontramos abandonada na floresta. Até hoje, as origens dela continuam um mistério. E a loba dela… — Sua boca se contraiu. — Talvez ela nem tenha uma. Não podemos confiar a matilha a uma Luna sem loba.
Murmúrios percorreram a multidão. Cedric ergueu a mão, fazendo silêncio.
— Ainda assim, o vínculo não pode ser negado. Se Sebastian Moore a deseja como sua Luna, então, por decreto da Deusa, assim será. Podemos não gostar, mas não podemos ir contra isso. No entanto… — O olhar dele foi de Sebastian a Cindy, suas palavras afiadas. — Se ele não a quiser, então cabe a ele rejeitá-la. E ela também tem uma escolha: aceitar essa rejeição e romper o vínculo, ou se agarrar a ele. O poder está somente entre os dois. Só posso esperar que ambos sejam sábios em sua decisão.
O peso das palavras dele pairou pesado sobre a clareira. Richard Moore então se virou, pousando os olhos sobre o filho.
— Sebastian?
O maxilar de Sebastian se contraiu; angústia brilhou em seus olhos cor de âmbar antes que ele forçasse as palavras para fora.
— Eu já prometi à Sara que ficaria com ela, mesmo que a Deusa não a escolhesse. Não é porque a Deusa escolheu a Cindy. Eu fiz uma promessa e pretendo cumpri-la, independente de quem a Deusa tenha escolhido como minha parceira. — A voz dele falhou. — Eu rejeito você, Cindy Hale, como minha parceira.
O vínculo se rompeu dentro do peito dela como vidro se estilhaçando. Cindy cambaleou, o ar arrancado dos pulmões, a dor inundando cada veia. Do outro lado, o rosto de Sebastian se contorceu de agonia antes que ele desabasse, com Sara e Lydia correndo para segurá-lo. A rejeição o dilacerava também, mas os braços delas o ampararam, protegendo-o do pior.
Ninguém foi até Cindy.
Ela apertou as costelas com as mãos, o corpo inteiro tremendo como se os ossos estivessem se partindo. A fisgada era insuportável, cada batida do coração um grito. Quando finalmente conseguiu respirar de novo, vergonha e luto se misturaram, empurrando seus pés para a frente. Ela se virou e correu.
Quando alcançou o chalé dos Hale, a dor tinha diminuído para um peso surdo e latejante dentro dela. Mal cruzou a soleira e a porta se abriu de novo com força.
A senhora Hale entrou como uma tempestade, com Anna e o senhor Hale logo atrás. Fúria queimava em seu rosto.
— Que diabos foi aquilo? — ela disparou, a voz afiada o bastante para cortar vidro. — Quem botou na sua cabeça, quem te deu a ousadia de achar que você poderia ser a próxima Luna?
Cindy mal teve tempo de responder antes que um tapa acertasse seu rosto, o estalo ecoando alto no cômodo apertado.
