Capítulo 3.

Ponto de vista de Isabella

Na manhã seguinte, quando meu despertador tocou às seis em ponto, eu ainda conseguia sentir o quanto meu corpo estava cansado.

Mas saí da cama e fui ao banheiro. Usei o vaso, lavei as mãos, escovei os dentes, e só então me despi e entrei no chuveiro.

Quando terminei, saí e me sequei antes de fazer minha rotina de skincare. Fui até o closet e vesti uma calça de cintura alta cinza-escura. Coloquei uma blusa de cetim branco-creme e um scarpin preto. Hoje não tenho audiência nem reuniões marcadas com clientes. Se eu for arrastada para uma reunião de última hora, ainda vou estar apresentável.

Só coloquei meus brincos simples de pérola branca, um presente de parabéns do Walter e da Cora quando tirei minha carteira da OAB, quatro anos atrás. Uso eles todos os dias; penso neles como meu amuleto da sorte.

Fiz uma maquiagem simples e natural, depois prendi meu cabelo ruivo-acobreado, que vai até a cintura, num coque alto e elegante. Saí do banheiro de novo e fui para a cozinha preparar rapidinho uma tigela de iogurte. Também fiz um latte com açúcar mascavo.

Terminei o café da manhã e peguei minha bolsa tote de couro preta que uso para o trabalho. Depois, minhas chaves do carro. Você não acreditaria, mas eu tenho um Audi A8. Tenho me saído muito bem nesses quatro anos como advogada. Tenho alguns clientes que até me pagam todo mês mesmo quando não precisam que eu faça nada por eles. Recebo por volta de 20.000 dólares por mês de salário, então não posso reclamar.

E isso antes de somar os casos que eu pego; também faço alguns casos pro bono, dependendo do caso e da situação em que as pessoas estão.

Desci até a garagem que fica embaixo do condomínio e fui para o trabalho. São vinte minutos de carro, então só liguei o rádio.

Quando cheguei, estacionei na minha vaga designada e entrei no elevador. Eu sempre passo na recepção para ver se chegou alguma mensagem para mim.

— Oi, bom dia, Judith. Como você está hoje? — perguntei à nossa recepcionista. O nome dela é Judith Palmer. Ela é uma mulher de 45 anos, com cabelo loiro-arenoso até a cintura, preso num coque bem arrumado. Tem olhos cinza-claros, nariz arrebitado e 1,73 m de altura.

Ela sorriu para mim, radiante. — Bom dia, Isabella. Estou bem. Aqui, trouxe sua xícara de café de sempre. E aqui estão suas mensagens. — Ela me entregou uma xícara de café e depois um punhado de recados.

— Você parece tão feliz hoje… Tem alguma novidade na sua vida? — ela perguntou com um sorriso, me olhando de cima a baixo.

— Não, nada de novo, a mesma coisa de sempre. O sr. Hughes vai direto para o fórum ou vem aqui antes? — perguntei, sorrindo de volta.

O sr. Hughes é o Walter. Mas, quando falamos com os outros, normalmente usamos os sobrenomes. Eu e a Judith, porém, usamos só os primeiros nomes. Ela também é uma mulher muito doce e cuidadosa. E trabalha aqui há quinze anos.

— Ele disse que vai direto para o fórum. Precisa entregar uma papelada antes da audiência, então queria resolver isso o mais rápido possível — disse ela, olhando para a tela do computador.

E eu não consegui evitar abrir um sorriso. Eu sei exatamente de quais papéis ela está falando. Não acredito que eles estejam tão ansiosos quanto eu para colocar tudo em ordem logo.

— Ok, então eu vou subir. Tenha um ótimo dia, Judith, e obrigada pelo café — eu disse, sorrindo para ela, e ela assentiu com um sorriso antes de atender o telefone.

Entrei no elevador e apertei o botão do 100º andar, tomando o café aos poucos.

Saí do elevador e caminhei até a mesa da minha assistente pessoal.

— Bom dia, Bella — disse Molly Martinez, toda animada. Ela é minha assistente pessoal e uma das minhas amigas mais próximas.

— Bom dia, Molly. Toma, essas são as anotações que peguei. Você pode dar uma olhada e numerá-las por ordem de prioridade? — perguntei, e ela assentiu, contente.

— Ah, e a Priscilla Morningstar ligou. Ela pediu para eu te dizer para ligar assim que você chegasse — Molly disse, me lançando um olharzinho triste.

— Ok, eu vou cuidar disso — respondi, devolvendo um sorriso pequeno.

É que, veja bem, o jeito como Tobias me trata não é exatamente um segredo no meu trabalho. Não depois de ele ter acabado transando com algumas garçonetes num evento da empresa que a gente teve.

E Priscilla Morningstar é a mãe do Tobias. Ela é uma mulher maravilhosa: doce, amorosa, cuidadosa. Do jeito que Tobias costumava ser. Mas ele começou a mudar cinco anos atrás. Os pais dele são muito gentis, assim como a tia, o tio e os avós. A irmã dele, Rose, é minha melhor amiga — mais como minha irmã, para falar a verdade. E ela também me diz que eu mereço coisa melhor do que o Tobias.

Rose é a única na família dele que realmente sabe como ele vem me tratando. E eu sinceramente não quero ouvir o comentário “eu te avisei” da Rose, mas sei que ele vai acabar vindo.

Não dá mais para varrer isso para debaixo do tapete. O Tobias por quem eu me apaixonei se foi; alguma coisa aconteceu e eu não percebi. Mas eu não posso continuar fazendo parte desse relacionamento de mão única. Ele não me ama; ele só quer me comer e, depois, tenho certeza de que vai me jogar de lado como lixo de ontem. E eu não quero me entregar a ninguém se for assim que vai ser.

Sentei na minha cadeira e peguei o telefone da mesa. Disquei o número da Priscilla, e não demorou para ela atender.

— Oi, querida, desculpa te fazer ligar tão cedo de manhã. Mas eu só queria ter certeza de que você vem ao jantar de família hoje. Você sabe que é sexta-feira e a gente sempre come junto. Você ainda vem, né? — ela perguntou, com doçura.

— Bom dia, Priscilla. Sim, eu vou. Estarei aí às sete da noite — eu disse, com um sorriso pequeno.

Acho que vou ter que terminar com Tobias depois do jantar de hoje.

— Ótimo, estou ansiosa. Acho que tanto a Rose quanto o Alexander vão estar aqui hoje também — ela disse, feliz.

— O Alexander voltou do exterior? — perguntei, chocada.

— Ué, o Tobias não te contou? Ele já está em casa faz dois meses, mas anda tão ocupado que não conseguiu vir nos nossos jantares de família de sexta — ela disse, um pouco surpresa por Tobias não ter me contado.

— Vai ser bom ver ele de novo. Faz alguns anos já — eu disse, sorrindo.

— Com certeza. Até mais tarde, querida — ela disse, empolgada.

— Até, Priscilla — eu disse, sorrindo, e desligamos.

Então eu continuei trabalhando ao longo do dia.

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