Capítulo 5.
Ponto de vista de Ro.
— Você está pronta pra isso, Ro? — Dawson perguntou com cuidado quando fomos subindo devagar a rua até a minha casa.
Já dava para ver que o bairro inteiro estava tomado por luzes vermelhas e azuis. Muitos vizinhos tinham saído para a rua para ver o que estava acontecendo. Também dava para ver que a minha casa estava completamente em chamas. Tenho quase certeza de que vai queimar até virar cinzas.
— Sim, vamos fazer isso. — eu disse, com os olhos cheios de lágrimas. E não, elas não eram falsas. Mesmo que meus pais tenham abusado de mim de um jeito que eu não desejaria a ninguém, eles ainda eram meus pais. Foi nessa casa que eu cresci.
Fora a minha gangue e o nosso QG, esse era o meu lar, a minha família. Ver aquilo queimando assim é difícil; sinceramente, parte meu coração.
Saí do carro e fiquei ali, devastada, olhando para a casa. Dawson também saiu e veio até mim.
Dava para ouvir vários vizinhos dizendo, aliviados: “Graças a Deus a Ro não estava lá dentro”.
Certo, hora de vender o teatro. — Mãe… Pai… — eu disse primeiro, triste e em choque. Depois gritei, tentando avançar em direção à casa. — Ro, volta! — Dawson gritou, e então dois policiais me seguraram.
— Senhorita, você não pode entrar lá — disse um deles.
— Mas… minha mãe e meu pai. Eu preciso saber se eles estão aí dentro. Eles deviam estar em casa agora. Vocês sabem se eles estão bem? — eu disse, chorando, tentando me soltar das mãos deles.
— Senhorita, por favor, você precisa se acalmar — disse o outro policial, com gentileza.
— Ro… eu sinto muito — Dawson disse, pondo a mão no meu ombro. Isso me fez virar e desabar, chorando nos braços dele, contra o peito dele.
— Com licença, senhor, quem é o senhor? — perguntou um dos policiais a Dawson.
Então Dawson explicou como nós “nos conhecemos” hoje. E que ele me levou ao hospital para um check-up.
— Bem, senhor Turner, realmente parece que o seu acidente acabou salvando a vida da senhorita Perry — disse o outro policial.
— Senhorita Perry, precisamos levá-la para a delegacia. Precisamos decidir onde você vai ficar — disse o policial, num tom mais suave.
Eu me afastei com cuidado de Dawson e olhei para ele com o rosto marcado de lágrimas.
— Meus pais? — perguntei, com a voz quebrada.
— Vamos conversar melhor sobre isso na delegacia — disse o outro policial, com cautela.
Aí ergui os olhos para Dawson.
— Você vai comigo? Eu não quero ficar sozinha — eu disse, com a voz falhando.
— Sim, Ro. Eu vou com você — Dawson disse, apertando de leve o meu ombro, e então olhou para os policiais. — Eu vou representar Ro Perry, já que ela ainda é menor de idade — completou, sério.
— Entendemos. E a senhorita Perry tem sorte de ter um advogado tão conhecido representando-a — disse um dos policiais, e o outro assentiu.
— Por favor, venham conosco e nós os levaremos à nossa delegacia — disse o outro policial, e Dawson concordou com a cabeça.
Dawson me guiou de volta com cuidado até o carro dele e abriu a porta do passageiro. Eu entrei, e seguimos atrás da viatura.
— Desculpa, Ro — Dawson disse, triste.
— Não se preocupa. Eu estou bem. Eu sei que vocês só agiram pensando no meu melhor — eu disse, baixo.
— Droga, não é fácil ver você chorar desse jeito. Eu sei que você também está atuando, mas também sei que uma parte disso é sentimento de verdade. — Dawson disse com cuidado, pegando uma das minhas mãos.
— É… bem, fora a gangue e o QG, eles eram minha família. Meus pais e eu existimos por causa deles. É a minha casa, e ver aquilo queimando daquele jeito… bom, é difícil até de pensar. Mesmo sendo um lugar onde aconteceu um monte de merda e onde eles me tratavam horrivelmente. — falei, olhando pela janela.
— Eu entendo por que vocês fizeram isso. E eu não odeio nem guardo ressentimento de vocês. De verdade, eu sou grata… porque eu nunca teria conseguido fazer isso sozinha. Nem que fosse pra salvar a minha própria vida. — falei, segurando a mão dele, que estava por cima da minha.
Pouco depois, chegamos à delegacia e saímos do carro. Lá, seguimos os dois policiais até uma sala de reuniões e nos sentamos.
Um dos oficiais me entregou uma lata de refrigerante e, para Dawson, um copo de café.
— Primeiro, vamos nos apresentar. — disse um deles, e eu assenti, ainda com a expressão triste.
— Meu nome é Carson Stark. — disse o policial Stark. Ele parecia ter trinta e sete anos e cerca de um metro e oitenta e dois. Tinha cabelo curto, loiro-mel, olhos verde-avelã e um nariz arrebitado.
— E o meu nome é Austin Quinn. — disse o policial Quinn. Ele parecia ter trinta e cinco anos e cerca de um metro e oitenta e seis. Tinha cabelo curto avermelhado, olhos azul-claros e nariz aquilino.
— Lamentamos informar que, quando os bombeiros chegaram ao local, o fogo já tinha se espalhado pela casa inteira. Mas eles conseguiram ver dois corpos lá dentro, pela janela. E antes que conseguissem entrar, algo explodiu lá dentro e o incêndio ficou ainda mais intenso, impedindo que eles entrassem. — disse o oficial Stark, triste, em voz baixa.
— Então… sentimos muito, Ro, mas acreditamos que seus pais estejam mortos. Vamos saber mais quando o corpo de bombeiros puder analisar com mais cuidado. — disse o oficial Quinn, e eu apenas deixei mais lágrimas escorrerem pelo rosto.
— Desculpe perguntar, mas você sabe o que aquela explosão poderia ter sido? — perguntou o oficial Stark, com cautela, e eu fiz um pequeno gesto de sim com a cabeça.
— Pode nos contar? Isso vai nos ajudar a entender melhor o que aconteceu na sua casa. — insistiu o oficial Stark, e eu olhei para Dawson.
— Ro, se você sabe de alguma coisa… o que havia na casa que possa explicar a intensidade do fogo, você precisa contar a eles. Você não vai se encrencar por isso. — disse Dawson, me olhando com tristeza, e eu assenti de novo.
— Bem… eu sei que meus pais são… eram viciados em drogas e alcoólatras. Tinha todo tipo de coisa espalhada por lá, então talvez alguma dessas coisas possa ter sido a causa. — falei baixo, com cuidado.
— Entendo. Isso, de fato, pode ter sido a causa. — disse o oficial Stark, baixo, e o oficial Quinn assentiu.
— Ro, seja sincera comigo ao responder. Você já usou drogas ou bebeu álcool alguma vez? — perguntou o oficial Quinn, com cuidado.
— Ela não deveria precisar responder a isso. — disse Dawson, naquele tom de advogado.
— Nós só precisamos saber se devemos providenciar algum suporte extra. Ela não vai se encrencar se tiver usado; você tem a nossa palavra. — disse o oficial Stark, olhando para Dawson.
— Eu vou responder. — eu disse, e olhei para Dawson com a expressão triste; ele fez que sim com a cabeça.
