Capítulo 2 CONT GABRIEL

Mas, conforme os anos passaram, ele começou a entender, o princípio, apenas sabia que Aurora era importante, depois percebeu que precisava ficar perto dela, e então veio aquele instinto, aquela necessidade de protegê-la, eu assistia aos dois brincando e, muitas vezes, precisava esconder um sorriso.

Aurora corria atrás dele pelo jardim, Alexander fingia estar irritado, ela puxava sua roupa, ele reclamava, ela ria, e no fim, ele sempre acabava fazendo o que ela queria.

— Você é muito mandona — ele dizia.

— E você sempre faz o que eu mando.

— Porque você não para de falar.

Ela colocava as mãos na cintura.

— Então não me escuta.

E ele ficava em silêncio, porque sabia que não conseguiria, Helena costumava observar os dois da varanda.

— Eles são inseparáveis.

Eu olhava para ela.

— Talvez seja melhor assim.

Ela sabia o que eu queria dizer, quanto mais próximos fossem, mais natural seria quando o verdadeiro vínculo despertasse, mas também havia medo, porque eu conhecia o mundo em que vivíamos, e sabia que nem todos os lobos respeitavam pactos, nem todas as famílias eram nossas aliadas.

E havia histórias antigas que ainda me tiravam o sono, histórias sobre clãs que desejavam poder, clãs que procuravam linhagens especiais.

Clãs que seriam capazes de matar para conseguir aquilo que queriam, por isso, cada vez que eu olhava para Aurora, sentia orgulho e medo na mesma intensidade, ela era minha filha, minha pequena menina, mas carregava dentro de si algo que poderia torná-la importante demais.

E quanto mais ela crescia, mais difícil ficava esconder, aos seis anos, Aurora já tinha uma personalidade impossível de ignorar, aos oito, começou a demonstrar sentidos um pouco mais aguçados do que o normal, aos dez, começou a fazer perguntas.

Perguntas que eu não queria responder.

— Pai, por que o Alexander sempre sabe quando eu estou triste?

Eu desconversava.

— Porque ele é seu melhor amigo.

— Mas ele sabe antes de eu falar.

Eu sorria.

— Talvez ele te conheça muito bem.

Ela aceitava, por enquanto, eu sabia que aquele “por enquanto” tinha prazo, o aniversário de dezoito anos se aproximaria um dia, e naquele dia, tudo mudaria, Aurora descobriria quem era, Alexander descobriria que o vínculo que sentia desde criança era muito mais profundo do que imaginava, e nossas famílias precisariam lidar com as consequências.Mas naquela época, eu ainda tinha esperança de que conseguiríamos protegê-la, até que uma noite percebi que algo havia mudado, estávamos reunidos na casa dos Montenegro.

Lorenzo conversava comigo enquanto nossas esposas estavam na cozinha, Alexander e Aurora brincavam no quintal, eu conseguia ouvir as risadas dos dois, até que meu lobo ficou inquieto, parei de falar, Lorenzo percebeu.

— O que foi?

Olhei para a janela.

— Você sentiu?

Ele ficou sério.

— Sim.

Um cheiro, fraco, distante, estranho, não pertencia a nenhum dos nossos, meu coração acelerou.

— Tem alguém nos observando.

Lorenzo se levantou imediatamente, naquele instante, as risadas das crianças pareceram ainda mais distantes, corri até a janela, Aurora estava sentada na grama, Alexander estava ao lado dela, ele segurava alguma coisa que ela havia deixado cair.

Os dois riam, completamente alheios ao perigo, meu peito apertou, porque, pela primeira vez, compreendi uma verdade que passei anos tentando ignorar, o segredo sobre Aurora talvez não pudesse permanecer escondido para sempre,e se alguém tivesse descoberto quem ela era...

Minha promessa feita no dia em que ela nasceu estava prestes a ser colocada à prova, eu havia prometido protegê-la, só não sabia que, para cumprir aquela promessa, talvez precisasse enfrentar o mundo inteiro.

Depois daquela noite, passei a observar Aurora ainda mais, talvez Helena dissesse que eu já era protetor demais antes mesmo de nossa filha nascer, talvez ela tivesse razão, mas existia uma diferença entre ser um pai cuidadoso e ser um homem que conhecia os perigos que poderiam um dia encontrar sua filha.

Eu conhecia aqueles perigos, sabia que o mundo dos lobos não era feito apenas de famílias unidas, amizades e pactos antigos. Existiam ambições. Existiam disputas por território. Existiam lobos que desejavam poder acima de qualquer coisa, e infelizmente, Aurora carregava em seu sangue algo que poderia despertar a cobiça de muitos, por isso, eu precisava mantê-la segura.

Mesmo que ela não soubesse do que estava sendo protegida.

— Você está fazendo de novo.

A voz de Helena me tirou dos pensamentos, olhei para ela, estávamos na cozinha, e Aurora brincava no jardim com Alexander. Pela janela, eu conseguia vê-los correndo de um lado para o outro.

— Fazendo o quê?

Helena cruzou os braços.

— Observando nossa filha pela janela como se alguém fosse aparecer a qualquer momento para levá-la.

Soltei o ar devagar.

— Não estou fazendo isso.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Gabriel.

Suspirei.

— Talvez um pouco.

Helena se aproximou e ficou ao meu lado, por alguns segundos, ficamos em silêncio, Aurora estava tentando alcançar Alexander, que segurava uma pequena bola acima da cabeça.

— Me dá! — ela gritava.

— Vem pegar.

— Alexander!

— Você é baixinha demais.

— Eu vou contar para o meu pai!

Comecei a rir, Helena também.

— Eles são inseparáveis — ela comentou.

— Eu sei.

— Às vezes acho que Alexander passa mais tempo aqui do que na própria casa.

— Lorenzo não reclama.

— Isabella também não.

Olhei novamente para os dois, Alexander finalmente entregou a bola para Aurora, ela comemorou como se tivesse acabado de vencer uma guerra, era apenas uma criança, minha menina, e talvez fosse justamente isso que tornava tudo tão difícil.

Eu sabia o que existia dentro dela, sabia que aquela infância tinha prazo, sabia que, aos dezoito anos, tudo mudaria, mas Aurora não sabia de nada, para ela, a vida era simples, era brincar com Alexander, era esperar o pai chegar em casa, era dormir abraçada ao seu bichinho favorito.

Era pedir para a mãe fazer seu doce preferido, era correr pelo jardim sem se preocupar com o amanhã, eu queria preservar aquilo, queria que ela tivesse uma infância normal pelo máximo de tempo possível.

— Você está pensando no selo, não está? — Helena perguntou.

Meu sorriso desapareceu.

— Estou.

Ela desviou os olhos para o jardim.

— Às vezes me pergunto se fizemos a coisa certa.

Aquela pergunta sempre doía, porque eu já havia feito a mim mesmo centenas de vezes.

— Não tínhamos escolha.

— Sempre temos escolha, Gabriel.

— Não quando existe alguém procurando por uma criança que nem sabe o motivo de estar sendo procurada.

Helena ficou em silêncio, eu sabia que ela entendia, quando Aurora nasceu, nós não tivemos apenas a alegria de conhecer nossa filha, também recebemos o peso de uma responsabilidade que jamais desejamos, o sangue dela era diferente.

A linhagem que carregava era antiga,e os poderes que um dia despertariam poderiam torná-la uma das lobas mais importantes de nossa geração, por isso, quando ela ainda era um bebê, tomamos uma decisão, selamos seus poderes, não para tirá-los dela, jamais faríamos isso.

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