Capítulo 3 GABRIEL

O selo apenas adormeceu aquilo que existia dentro dela, sua loba, sua energia, sua presença sobrenatural, tudo ficou escondido, para os humanos, Aurora era apenas uma criança, para os lobos que eventualmente cruzassem seu caminho, ela também pareceria humana, que o lobo ainda estava adormecida, ja que as meninas só tinha suas lobas aos 18 anos, era como se tivéssemos colocado uma barreira ao redor de sua verdadeira essência.

E o mais importante, ninguém poderia sentir o que ela realmente era.

— Você se lembra daquele dia? — Helena perguntou.

Eu lembrava.

_ Como poderia esquecer?

Aurora tinha poucos meses, estava dormindo em meus braços enquanto o ritual era realizado, eu queria acreditar que aquilo seria suficiente para protegê-la, queria acreditar que nenhum inimigo encontraria minha filha, mas, quando o selo foi concluído, senti uma coisa que jamais esqueci, o silêncio,a presença dela, que antes parecia irradiar uma energia diferente, desapareceu completamente, era como se o mundo tivesse deixado de perceber que havia algo especial naquela criança.

Helena chorou, eu também quase chorei, não porque tivéssemos feito algo errado, mas porque naquele instante compreendi que estávamos escondendo uma parte da nossa filha dela mesma.

— Quando ela fizer dezoito anos, o selo começa a desaparecer — falei.

Helena fechou os olhos.

— Eu sei.

— E quando desaparecer completamente...

Não terminei, não precisava, ela sabia, Aurora despertaria, a loba surgiria, seus sentidos aumentariam, seus poderes começariam a se manifestar, e o mundo que escondemos dela durante toda a infância deixaria de ser segredo.

— Ainda temos anos — Helena murmurou.

— Temos.

— Então precisamos aproveitar.

Olhei para ela.

— O quê?

Helena sorriu.

— Cada segundo.

Ela segurou minha mão.

— Ela é nossa filha antes de ser qualquer outra coisa.

Aquelas palavras me atingiram, porque era exatamente isso que eu precisava lembrar, Aurora não era uma linhagem, não era um poder, não era uma futura companheira, não era alguém que deveria ser protegida porque um dia teria importância entre os nossos, era minha filha, nossa menina,e nós a amávamos mais do que qualquer coisa.

— Você está certo — falei.

— Eu quase sempre estou.

— Não exagera.

Ela riu, inclinei-me e beijei sua testa.

— Eu amo você.

— Eu também amo você.

Ficamos assim por alguns segundos, até ouvirmos uma voz vindo do jardim.

— PAI!

Eu me virei imediatamente, Aurora estava parada diante da porta, e Alexander vinha logo atrás dela, ela estava com os cabelos bagunçados, as roupas sujas de grama e um sorriso enorme no rosto.

— O que aconteceu? — perguntei.

Ela apontou para Alexander.

— Ele disse que eu não consigo correr rápido.

Alexander levantou as mãos.

— Eu só falei a verdade.

— Você quer testar? — Aurora perguntou.

— Quero.

Ela olhou para mim.

— Pai, você vai contar.

Eu ri.

— Eu?

— Sim.

Alexander pareceu se divertir.

— E quem ganhar escolhe o que vamos fazer depois.

— Fechado — Aurora respondeu.

Olhei para Helena, ela já estava rindo.

— Você criou uma pequena competidora — falei.

— Eu? Foi você.

— Definitivamente foi você.

Aurora colocou as mãos na cintura.

— Pai!

— Está bem. Eu conto.

Fomos para o jardim, os dois ficaram lado a lado, eu marquei o ponto de partida.

— Quando eu disser três.

Aurora respirou fundo, e Alexander também.

— Um...

Eles se prepararam.

— Dois...

Aurora olhou para mim.

— Três!

Os dois dispararam, e Alexander era mais velho e naturalmente mais rápido, mas Aurora corria com uma determinação que fazia qualquer adulto sorrir, ela não aceitava perder, nunca, no meio do caminho, Alexander diminuiu um pouco, foi quase impercetível, mas eu percebi, a Helena também, ele poderia ter vencido facilmente, mais não venceu, deixou Aurora chegar primeiro.

Ela levantou os braços.

— Eu ganhei!

Alexander sorriu.

— Você trapaceou.

— Não trapaceei!

— Correu muito rápido.

— Você que foi lento.

Eu ri, mas, enquanto observava os dois, percebi algo que me fez ficar sério, por um instante, o olhar de Alexander mudou,ele olhou para Aurora como se alguma coisa dentro dele tivesse despertado, foi apenas um segundo, e depois desapareceu, eu conhecia aquele olhar, era o instinto.

Mesmo tão jovem, o lobo dentro dele começava a reconhecer a presença dela, Alexander ainda não entendia, mas eu entendia, e aquilo me assustava, mais tarde, quando Lorenzo veio buscar o filho, encontrei uma oportunidade para conversar com ele.

— Precisamos conversar.

Ele me olhou.

— Sobre o quê?

Olhei para Alexander, que estava se despedindo de Aurora.

— Ele está começando a perceber.

Lorenzo ficou sério.

— Você tem certeza?

— Tenho.

— Então precisamos conversar com ele.

— Ainda não.

— Gabriel...

— Ele é uma criança.

Lorenzo passou a mão pelo rosto.

— Ele vai ser Alfa.

— Eu sei.

— E precisa aprender.

— Ele vai aprender no momento certo.

Lorenzo ficou em silêncio, eu sabia que ele queria dizer mais, mas também sabia que confiava em mim.

— Não quero que Alexander trate Aurora como uma obrigação — falei.

— Nem eu.

— Quero que eles cresçam juntos.

— Como amigos.

— Exatamente.

Lorenzo olhou para os dois, Aurora estava abraçando Alexander.

— Até amanhã — ela dizia.

— Até amanhã.

— Você promete?

Alexander sorriu.

— Prometo.

Ela correu de volta para dentro de casa, Lorenzo respirou fundo.

— Talvez o destino já tenha escolhido.

— O destino pode ter escolhido o caminho.

Olhei para minha filha.

— Mas quem vai decidir como caminhar por ele serão eles.

Lorenzo assentiu,e eu gostei de pensar que estávamos fazendo aquilo da maneira certa, naquela noite, coloquei Aurora na cama, ela já estava quase dormindo quando segurou minha mão.

— Pai?

— Oi, minha pequena.

— O Alexander vai ser meu amigo para sempre?

Meu peito apertou, sentei-me na beirada da cama.

— Espero que sim.

— Eu também.

Ela fechou os olhos.

— Ele prometeu.

Sorri.

— Então ele vai cumprir.

Ela adormeceu pouco depois, fiquei ali por alguns minutos, observando seu rosto tranquilo, passei a mão delicadamente pelos cabelos dela.

— Eu prometi proteger você — sussurrei.

Ela não respondeu, estava dormindo, saí do quarto e encontrei Helena no corredor.

— Dormiu?

— Sim.

Ela se aproximou.

— Às vezes ainda tenho medo.

— Eu também.

Helena segurou minha mão.

— E se o selo não for suficiente?

Olhei para a porta fechada do quarto da nossa filha.

— Então eu farei o que for necessário.

— Mesmo que isso custe tudo?

Eu olhei para minha esposa.

— Tudo.

Naquele momento, eu acreditava que estava preparado para qualquer coisa, acreditava que o selo protegeria Aurora, acreditava que nossos inimigos jamais encontrariam nossa filha, e acreditava que teríamos tempo, anos, talvez décadas, eu estava errado, porque, enquanto eu prometia protegê-la dentro daquela casa, em algum lugar distante, alguém já havia começado a procurar por ela.

E eu ainda não sabia que o perigo estava muito mais perto do que imaginávamos.

O selo escondia a loba, mas não apagava seu sangue,e sangue antigo sempre deixa rastros, mesmo quando ninguém consegue enxergá-los.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo