Capítulo 4 Lorenzo

Meu nome é Lorenzo Montenegro.

Sou o Alfa da minha família e, para muitos dos que vivem dentro do nosso território, o homem responsável por manter a paz entre as matilhas.

Mas, antes de ser Alfa, sou marido.

Pai.

E amigo.

Talvez seja justamente por isso que algumas decisões sejam muito mais difíceis para mim do que qualquer batalha.

Porque um Alfa pode aprender a enfrentar inimigos.

Pode aprender a comandar.

Pode aprender a esconder medo.

Mas ninguém ensina um pai a assistir o próprio filho crescer carregando um destino que ele ainda não compreende.

Alexander nasceu há dezesseis anos.

E desde o primeiro momento em que o segurei nos braços, soube que ele seria diferente.

Não porque eu quisesse que fosse.

Não porque sua mãe, Isabella, tivesse criado expectativas sobre ele.

Mas porque o sangue Montenegro era antigo.

E o primeiro filho de um Alfa carregava consigo uma responsabilidade que não poderia ser simplesmente ignorada.

Eu me lembro de quando Isabella colocou nosso filho nos meus braços.

Ele era pequeno.

Tão pequeno que parecia impossível imaginar que aquele bebê um dia comandaria lobos adultos, tomaria decisões difíceis e teria dezenas de vidas dependendo de suas escolhas.

Olhei para ele e fiz uma promessa.

Eu o ensinaria a ser forte.

Mas também prometi que nunca permitiria que o poder transformasse meu filho em um homem sem coração.

Isabella sempre dizia que eu me preocupava demais.

Ela tinha razão.

— Ele precisa apenas ser criança, Lorenzo.

Era o que dizia sempre que me encontrava observando Alexander dormir.

E eu tentava concordar.

Tentava.

Mas sabia que não seria simples.

Alexander não teria uma infância completamente normal.

Ele seria preparado desde cedo.

Não para lutar.

Não apenas para comandar.

Mas para entender o peso de ser Alfa.

Ainda assim, havia uma coisa que eu queria preservar acima de todas as outras.

A amizade.

E foi aí que Aurora entrou na vida do meu filho.

Gabriel e eu já éramos amigos muito antes de nossos filhos nascerem.

Nossa amizade não começou por causa dos nossos cargos.

Ele não era meu Beta porque nossas famílias tinham decidido.

Eu o escolhi.

E ele me escolheu.

Confiávamos um no outro.

Em nosso mundo, confiança era mais valiosa do que qualquer título.

Por isso, quando Gabriel me contou que seria pai, fui um dos primeiros a comemorar.

Quando descobrimos que seria uma menina, Isabella ficou emocionada.

E quando Aurora nasceu, eu fui conhecê-la.

Ainda me lembro daquele dia.

Gabriel parecia completamente diferente.

O homem que eu conhecia como Beta, sempre controlado, sempre atento, estava sentado ao lado da esposa com os olhos presos naquela pequena criança.

— Ela é perfeita — ele disse.

Eu sorri.

— Você está perdido.

Ele me olhou.

— Completamente.

Isabella se aproximou da bebê.

Aurora dormia tranquila.

Foi quando senti.

Uma presença.

Muito fraca.

Quase imperceptível.

Mas estava ali.

Olhei para Gabriel.

Ele percebeu imediatamente que eu havia sentido alguma coisa.

Não falamos nada naquele momento.

Não precisávamos.

Nós dois sabíamos.

Aurora não era uma criança comum.

Sua linhagem era diferente.

Muito diferente.

E aquilo significava que precisávamos ter cuidado.

Muito cuidado.

Os anos seguintes foram de silêncio.

Aurora cresceu cercada de amor.

E Alexander cresceu ao lado dela.

Eles eram inseparáveis.

Quando Alexander tinha seis anos, já aparecia na casa dos Valença quase todos os dias.

Quando Aurora aprendeu a andar de bicicleta, foi ele quem correu ao lado dela.

Quando ela caiu pela primeira vez, Alexander chorou mais do que ela.

Quando ela se machucou no joelho, ele apareceu correndo até mim.

— Pai, a Aurora está machucada!

— Foi só um arranhão.

— Mas está sangrando!

— Alexander...

— Você precisa ir lá!

Acabei indo.

Não porque fosse necessário.

Mas porque naquele momento entendi uma coisa.

Meu filho não estava apenas brincando com Aurora.

Ele se importava profundamente com ela.

E, conforme os anos passavam, aquilo aumentava.

Havia uma razão para isso.

Uma razão que ele ainda não compreendia completamente.

O vínculo.

Alexander era jovem demais para entender o que aquilo significava, mas seu lobo já reconhecia algo em Aurora.

E eu sabia que, algum dia, ele entenderia.

O problema era que Aurora não poderia saber.

Não ainda.

Ela precisava crescer sem o peso daquele destino.

Gabriel e eu conversamos muitas vezes sobre isso.

Em uma dessas conversas, estávamos sentados no escritório da minha casa.

Ele parecia preocupado.

— Você acha que devemos contar ao Alexander?

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— Ele precisa saber o suficiente para protegê-la.

— Mas não quero que ele pense que ela pertence a ele.

Olhei para Gabriel.

— Nem eu.

Aquilo era importante.

Companheiros não eram donos um do outro.

O vínculo não dava direito de controlar.

Não dava direito de decidir pelo outro.

E eu queria que Alexander aprendesse isso.

Ele seria Alfa.

Precisaria entender que liderança não era posse.

— Então vamos ensinar primeiro sobre responsabilidade — falei.

Gabriel assentiu.

— E Aurora?

— Aurora só saberá quando chegar o momento.

Era a única escolha que tínhamos.

Porque existia outro problema.

O poder dela.

O sangue Valença carregava uma linhagem que poucos conheciam completamente.

Não era apenas a capacidade de despertar como loba.

Havia algo mais.

Algo antigo.

Algo que poderia fazer com que ela fosse procurada.

E, se alguém descobrisse sua verdadeira natureza antes da hora, ela poderia se tornar um alvo.

Por isso, quando Gabriel e Helena decidiram selar os poderes de Aurora, eu apoiei.

Não foi fácil.

Eu estava presente.

Vi o medo nos olhos deles.

Vi Helena segurando a filha enquanto o ritual era preparado.

E vi Gabriel tentando manter a calma.

Ele era um Beta.

Um homem acostumado a situações difíceis.

Mas naquele dia não era um Beta.

Era apenas um pai.

Quando o selo foi concluído, senti a energia de Aurora diminuir.

Não desaparecer.

Apenas se esconder.

Foi como se uma porta tivesse sido fechada.

Uma porta que só seria aberta quando ela completasse dezoito anos.

— Isso vai protegê-la — falei.

Gabriel olhou para mim.

— E se não proteger?

Não tive resposta.

Porque ninguém poderia garantir aquilo.

Podíamos esconder sua presença.

Podíamos manter os inimigos afastados.

Podíamos vigiar o território.

Mas não podíamos controlar o futuro.

E eu sabia disso.

Por isso aumentei a segurança.

Sem que Aurora percebesse.

Lobos de confiança passaram a vigiar os limites do território.

Informações sobre a família Valença foram protegidas.

Nomes foram retirados de determinados registros.

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