Capítulo 5 Cont Lorenzo
E qualquer sinal de movimentação suspeita era levado diretamente até mim.
Eu não queria transformar a vida daquela menina em uma prisão.
Queria apenas garantir que ela pudesse crescer.
E ela cresceu.
Rápido demais.
Quando percebi, Aurora já tinha dez anos.
Alexander tinha treze.
E meu filho começava a mudar.
Seu corpo ficava mais forte.
Seus sentidos se desenvolviam.
Sua personalidade se tornava mais séria.
Ele ainda brincava com Aurora.
Ainda ria com ela.
Mas já começava a compreender que um dia seria Alfa.
Comecei a treiná-lo.
Nada pesado.
Nada que pudesse colocá-lo em risco.
Primeiro, disciplina.
Depois, controle.
Aprender a ouvir.
Aprender a observar.
Aprender que força sem inteligência era apenas imprudência.
E havia uma regra que eu repetia constantemente.
— Um Alfa não protege porque considera alguém sua propriedade.
Alexander me olhava.
— Então por que ele protege?
— Porque escolhe fazer isso.
Ele ficou em silêncio.
— E se a pessoa não quiser ser protegida?
— Você respeita.
Ele pareceu pensar.
— Mesmo se ela estiver em perigo?
— Mesmo assim.
— E se for alguém importante?
Eu sorri.
— Principalmente se for alguém importante.
Ele assentiu.
Eu não sabia se ele havia entendido completamente.
Mas um dia entenderia.
Porque, quando falávamos sobre proteção, seus olhos sempre procuravam Aurora.
Era impossível não perceber.
Isabella também percebeu.
Certa noite, ela entrou no meu escritório enquanto eu analisava alguns documentos.
— Você está preocupado com eles.
Olhei para minha esposa.
— Estou.
Ela se sentou à minha frente.
— Alexander ama aquela menina.
Sorri.
— Ele ainda é muito jovem.
— Não estou falando de amor de homem e mulher.
Ela fez uma pausa.
— Estou falando de amor de família. De amizade. Daquele tipo de vínculo que faz alguém atravessar uma tempestade por outra pessoa.
Fiquei em silêncio.
Ela tinha razão.
— E isso pode ser perigoso?
— Tudo pode ser perigoso.
Isabella suspirou.
— Às vezes você parece esquecer que eles são apenas crianças.
Olhei para ela.
— Eu nunca esqueço.
— Então pare de tentar prepará-los para uma guerra que talvez nunca aconteça.
Aquilo ficou na minha cabeça.
Porque talvez ela estivesse certa.
Talvez eu estivesse permitindo que o medo roubasse deles uma infância que nunca mais voltaria.
No dia seguinte, fiz algo diferente.
Fui até a casa dos Valença sem avisar.
Encontrei Aurora e Alexander sentados no chão da sala.
Eles estavam tentando montar um quebra-cabeça.
— Isso está errado — Alexander dizia.
— Não está.
— Está.
— Não está!
— Aurora, aquela peça é azul.
— E daí?
— Ela precisa ficar perto das outras azuis.
Ela olhou para ele como se ele tivesse acabado de dizer a maior bobagem do mundo.
— Você é chato.
— E você não sabe montar quebra-cabeça.
— Sei sim.
— Então termina.
Aurora cruzou os braços.
— Não quero mais.
Alexander começou a rir.
Eu fiquei parado na porta observando.
Eles não perceberam minha presença.
E, naquele momento, eu finalmente compreendi o que Isabella tentava me ensinar.
Eles não precisavam de adultos controlando cada passo.
Precisavam de espaço para serem crianças.
Precisavam de risadas.
Precisavam de pequenas brigas.
Precisavam de amizade.
Precisavam criar memórias.
Porque um dia tudo mudaria.
E quando esse dia chegasse, aquelas lembranças seriam importantes.
Muito mais importantes do que qualquer treinamento.
Foi também naquela época que comecei a perceber algo estranho.
O selo de Aurora estava funcionando.
Mas algumas vezes eu sentia pequenas alterações.
Nada suficiente para romper a proteção.
Apenas pequenos sinais.
Como se alguma coisa dentro dela estivesse tentando acordar.
Contei a Gabriel.
Ele ficou pálido.
— Ela ainda é muito nova.
— Eu sei.
— Não deveria acontecer.
— Não está acontecendo de verdade.
— Mas você sentiu.
— Senti.
Helena ficou preocupada quando soube.
— Talvez seja apenas o crescimento dela.
Era o que queríamos acreditar.
E acreditamos.
Porque acreditar era mais fácil do que imaginar o pior.
Os anos passaram.
Aurora continuou crescendo.
Alexander continuou ao lado dela.
E eu continuei observando.
Protegendo.
Esperando.
Até que uma noite, enquanto caminhava pelos limites do território, senti novamente aquele cheiro.
Fraco.
Quase impossível de detectar.
Parei imediatamente.
Meu lobo ficou alerta.
Não era um dos nossos.
Olhei para a escuridão da floresta.
Nada.
Nenhum movimento.
Nenhum som.
Apenas árvores balançando com o vento.
Mas eu conhecia aquela sensação.
Alguém estava ali.
Talvez não perto.
Talvez não naquele momento.
Mas alguém havia encontrado o rastro.
Voltei para casa e imediatamente procurei Gabriel.
Quando contei, ele ficou em silêncio.
— Você acha que encontraram Aurora?
— Não sei.
— O selo ainda está intacto.
— Eu sei.
Ele respirou fundo.
— Então precisamos reforçar a proteção.
Assenti.
Mas antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, ouvi um uivo distante.
Um único uivo.
Baixo.
Profundo.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Gabriel me encarou.
Nós dois sabíamos que aquele não era um chamado comum.
Era um aviso.
E, naquele instante, percebi que talvez o tempo que acreditávamos ter não fosse tão grande quanto imaginávamos.
Aurora ainda era uma criança.
Ainda corria pelo jardim.
Ainda discutia com Alexander por causa de brinquedos.
Ainda dormia acreditando que o mundo era seguro.
Mas alguém estava começando a procurar por ela.
E eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para impedir que aquele alguém a encontrasse.
Mesmo que, para isso, precisasse quebrar antigos pactos.
Mesmo que precisasse enfrentar outros Alfas.
Mesmo que precisasse colocar meu próprio território em risco.
Porque Aurora não era apenas filha do meu melhor amigo.
Era parte da nossa família.
E Alexander jamais me perdoaria se algo acontecesse com ela.
Eu também jamais me perdoaria.
Naquela noite, tomei uma decisão.
A partir daquele momento, a proteção ao redor das duas famílias seria reforçada.
Mas havia algo que eu ainda não sabia.
O inimigo não estava apenas procurando Aurora.
Estava esperando o momento certo.
E o tempo estava correndo.
