Capítulo 1 Capítulo 1.0 Damian Stark
Do alto do meu império, observo Yarolensk com olhos de dono.
Cada prédio, cada luz, cada centímetro desta cidade me pertence de alguma forma. Gosto de lembrar a mim mesmo disso, porque poder é a única coisa que não posso perder. Ainda mais agora.
Mas mesmo com toda essa grandeza aos meus pés, minha mente insiste em me levar de volta àquela noite. A última vez em que olhei nos olhos do meu pai.
— Você precisa encontrá-la, Damian...
As palavras dele saíam com dificuldade, como se cada uma rasgasse seus pulmões.
— O seu destino já está traçado... Ela tem um sinal... Veja a imagem no cofre e a encontre... Não quebre essa promessa de sangue. Eu confio em você... Só ela poderá dar o herdeiro que continuará nossa linhagem...
Solto um suspiro pesado ao me lembrar dessa cena.
Achei absurdo. Ainda acho.
Uma garota roubada do berço... como eu poderia encontrá-la depois de tantos anos desaparecida? Se nem os pais conseguiram, como eu vou conseguir? Só com a maldita marca na nuca? Que teria poder sobre o meu destino? Que tipo de loucura é essa?
Mas agora, aos trinta e cinco anos, com o tempo me encarando como um inimigo silencioso, a descrença começa a ceder lugar à urgência. Eu preciso encontrá-la. E rápido.
Meus pensamentos são brutalmente interrompidos quando a porta do meu escritório se abre com um rangido suave.
Ela entra.
Pequena, trêmula, invisível aos olhos de quem não sabe observar. Diana. A secretária nova que mal fala e parece fugir de mim como se eu fosse um predador nato.
Traz uma bandeja nas mãos e uma xícara de café do jeito que eu gosto: forte, sem açúcar, direto — como tudo que valorizo na vida. Mas ela treme. E eu noto.
Quando seu olhar cruza com o meu, ela perde o ar. Não é a primeira vez que vejo isso acontecer, mas há algo diferente ali. Um desconforto mútuo, como se minha presença a desarmasse e, ao mesmo tempo... me tirasse do eixo.
Faço um pequeno gesto com os dedos, mandando-a se aproximar. E então acontece.
Ela tropeça. O café quente me atinge como uma maldição. Sinto o líquido queimar minha pele por baixo da camisa.
— Merda! — grunho, tentando afastar o tecido do corpo.
Ela se encolhe, assustada, e tenta consertar seu erro o que só piora a situação.
Vem até mim, trêmula, os dedos tentando desabotoar minha camisa como se tivesse autorização para isso. Mas eu não estou preparado para aquele toque.
Seguro seus pulsos. Forte.
Nossos olhares se encontram. O dela, amedrontado. O meu, furioso.
Mas meu coração... desgraçadamente fora de controle. Bate tão alto que penso que ela pode ouvir. Que diabos está acontecendo comigo?
— Saia. — minha voz sai fria.
Ela se ajoelha para recolher os cacos de porcelana, e essa imagem deveria me agradar. Sempre admirei a submissão. Mas com ela... não.
Aquilo me irrita. Me enoja.
— Saia daqui agora! — ordeno, mais rude do que o necessário.
— Sim, senhor... — ela balbucia baixo, mas o suficiente para que eu ouça, antes de desaparecer pela porta.
Fico sozinho.
Respiro.
Me pergunto o que foi aquilo.
Por que essa reação?
Por que a imagem dela me assombra mais do que deveria?
Verônica entra, como sempre impecável, charmosa e segura de si. Seu perfume forte me invade antes mesmo de sua voz.
— O que aconteceu aqui?
Olho para a bagunça no chão. Os cacos. O café derramado no tapete branco.
Tudo me leva de volta à imagem de Diana ajoelhada.
— A nova secretária deixou cair... por acidente.
— Quer que eu a chame de volta para limpar?
— Não. Peça alguém da copa. Ela já teve o suficiente por hoje.
Verônica me encara como se não me reconhecesse. Ela sabe que eu não costumo perdoar erros. Mas não digo mais nada.
Vou até o banheiro para trocar de camisa. Minha pele está avermelhada; passo um lenço de papel e visto outra. Quando volto, Verônica já não está mais lá e o tapete foi limpo da pequena bagunça.
Gosto de ficar sozinho. Sento-me na cadeira, pego o tablet e deslizo os dedos até que um novo esboço surge. O desenho de um carro toma forma diante de mim a única coisa que me acalma, que me devolve o controle.
Mas mesmo com o som do lápis digital, mesmo com as linhas técnicas surgindo perfeitas na tela, meu pensamento volta para ela. Diana.
Inofensiva. Desajeitada. E, de alguma forma, perigosa.
Como se minha linhagem inteira dependesse dela.
Não posso me deixar levar por alguém como ela.
Uma inofensiva...
