Capítulo 3
Ava
Instintivamente, levantei daquela cama e saí do quarto daquele homem desconhecido, sem nem mesmo dizer um obrigado, já que acredito que ele fez algum tipo de feitiço ou até me drogou durante o jantar.
Quando cheguei em casa, recebi uma ligação do meu advogado perguntando se estava tudo bem e dizendo que a assinatura do contrato seria adiada para amanhã e que Caleb iria à empresa para que pudéssemos conversar.
Eu não sabia o que fazer e, por isso, concordei, para ganhar um pouco de tempo até encontrar aquele homem novamente.
Eu já estava me sentindo melhor. Parecia que a proximidade com o cheiro daquele homem me hipnotizava e estar um pouco distante me fazia bem. No entanto, embora mais tranquila, ainda havia muitas dúvidas na minha cabeça. Eu não entendia por que estava tão abalada por aquele homem e, mais importante: de quem era a voz que gritava na minha mente aquelas palavras? Sei que não foi apenas um pensamento vívido. Minha mente estava sendo controlada por alguém? Por mais que eu não gostasse muito, sabia da existência do mundo sobrenatural, afinal, meu pai era um lobisomem e eu vivia em uma cidade onde, embora discretamente, havia algumas bruxas.
Adormeci, como se fosse um alívio para o meu corpo, mas logo os sonhos começaram a abalar meu descanso. Sonhei que estava correndo por um grande vale, o vento balançava meu cabelo e os cheiros do campo eram fortes, como se eu tivesse a habilidade de farejar como um... lobo? Droga! Agora percebi, eu era um lobo e todos que me olhavam estavam maravilhados, de repente comecei a sentir uma dor excruciante e quando não pude mais suportar, caí no chão e continuei a ser machucada por pessoas que eu não conhecia. De repente, acordei. Fiquei aliviada ao saber que era um sonho, mas meu corpo doía como se fosse real.
Levantei e fui tomar um banho de piscina. Eu precisava mergulhar naquelas águas quentes e relaxantes e assim fiz até o dia amanhecer e um sol tímido invadir meus olhos.
Eu não tinha forças para trabalhar, mas sabia que precisava. De qualquer forma, se eu não aparecesse na empresa, Emily ficaria preocupada, e tudo o que eu não queria era causar qualquer tipo de alvoroço. Eu precisava saber o que estava acontecendo e não havia outra maneira senão enfrentar isso.
Me vesti e acabei fazendo uma maquiagem, já que precisava esconder as olheiras da falta de uma noite de sono decente.
Quando cheguei à empresa, logo me tranquei no meu escritório e pedi à minha secretária para cancelar a maioria dos meus compromissos e adiar a reunião com Caleb para o final do dia. Eu precisava ganhar tempo para descobrir o máximo de informações possível.
Depois de uma busca exaustiva, não encontrei nada que incriminasse meu futuro parceiro de negócios, o que me deixou um pouco decepcionada, já que imaginava que ele estava trapaceando para se aproximar de mim e da minha empresa. No entanto, tudo parecia limpo e correto.
Nem percebi que o tempo havia passado e já era hora da minha reunião com Caleb. Aparentemente, eu teria que enfrentá-lo para realmente saber o que estava acontecendo.
Imaginei que ficaria doente ou desmaiaria novamente na frente de Caleb, mas para minha surpresa, quando aquele homem que exalava mel ficou na minha frente, não me senti tão perturbada a ponto de não conseguir me manter de pé. Finalmente, aquela voz e inquietação interior se calaram e eu pude retomar o controle da situação, pelo menos por enquanto.
"O que você está fazendo aqui?" perguntei ao homem à minha frente.
"Pelo que me lembro, temos uma reunião sobre um contrato."
Ele me olhou com olhos intensos e eu sabia que havia algo mais por trás daquela conversa.
"Tanto faz. Meus advogados já aprovaram o contrato, então, se você concordar, começaremos o trabalho o mais rápido possível."
O homem então pigarreou e acenou para seus advogados entregarem o roteiro do contrato já assinado.
"Se é só isso, foi um prazer fazer negócios com você. Em breve entraremos em contato para entregar o projeto."
O homem então olhou para seus advogados e disse duramente, mas em tom baixo:
"Saíam daqui!"
Os homens obedeceram imediatamente e, depois que ele ficou sem ninguém de sua equipe, ele me disse:
"Faça o mesmo. Deixe-os ir. Precisamos conversar."
Senti meu corpo tremer, mas por algum motivo, a curiosidade de saber o que ele realmente queria me corroía e, assim, obedeci sua ordem e em pouco tempo estávamos a sós.
"Agora que estou ligada a você e à sua empresa, diga-me o que você realmente quer."
"Eu quero você."
Sem cerimônia e sem olhar diretamente nos meus olhos, ele disse isso com uma voz rouca, como se não fosse sua vontade dizer.
"Que tipo de louco é você? Como ousa vir aqui e me fazer esse tipo de proposta?"
Sei que me exaltei, mas quando vi um sorriso irônico acompanhado de um olhar que me julgava como um ser patético, entendi que ele não estava interessado em mim, mas que havia algo mais por trás dessa história.
"Não me entenda mal, priminha, mas tenho ordens para levá-la para casa. Nossa família está em guerra e você tem que cumprir seu papel, seja qual for."
"Eu não tenho mais família. Ela está morta."
"Eu sei que você não queria estar tendo essa conversa comigo e confesso que também não estou satisfeito em me humilhar para uma humana fraca, que de forma alguma pode contribuir para nossa alcateia, mas não podemos escapar do nosso destino e o seu é voltar para os braços de Valgerd."
Eu estava ficando irritada com essa história. Mesmo que eu estivesse louca, eu não seguiria aquele homem. A família do meu pai nos rejeitou e ele fez questão de me manter longe deles. A única coisa que quero deles é distância. Então, decidida sobre o que fazer, levantei da minha cadeira de CEO e disse:
"Se essa é a única razão pela qual você está aqui, pode ir embora. Eu não vou com você. Como eu disse, minha família está morta."
"Humana atrevida! Não me faça te arrastar daqui. O chefe da nossa família me enviou para buscá-la e eu farei isso, mesmo que tenha que usar minha força."
Ele então se levantou da cadeira, afrouxou o nó impecável da gravata, como se estivesse se sentindo sufocado e, com um olhar impaciente, se aproximou de mim e, em um movimento repentino, segurou meu braço, enquanto dizia:
"Escute aqui, garota mimada, eu disse que você terá que me obedecer..."
Eu estava pronta para começar uma discussão. Aquele homem que afirmava ser meu primo achava que tinha algum controle sobre minha vida, mas ele estava muito enganado, porque eu aprendi a ser forte e não me intimidaria tão facilmente.
No entanto, a atmosfera de confronto deu lugar a outra tensão, agora silenciosa, mas tão intensa quanto os sentimentos de alguns segundos atrás. Caleb, que segurava meu braço, parou de falar e direcionou seus olhos aos meus. Senti novamente outra presença dentro de mim, porém, ao contrário das outras vezes, que me deixavam inquieta e agitada, agora ela estava completamente silenciosa e tranquila, mas ainda presente, já que era impossível não sentir aquela existência.
Depois de me olhar por um longo tempo, Caleb soltou meu braço e deu alguns passos para trás, como se estivesse diante de um fantasma.
"Por que você não disse que não era humana, mas uma lobisomem?"
"Simples, porque eu não sou. Achei que isso estava claro." - disse com alguma impaciência.
"Está tudo muito claro e evidente, mas suponho que não estou enxergando claramente. Preciso que você fale com nosso avô. Ele precisa vê-la."
"Eu disse que não tenho nada a ver com essas pessoas, não insista."
"Arrume suas coisas e avise seus funcionários que você ficará fora por dez dias. Amanhã partiremos para casa."
"Droga, Caleb! Parece que você não está ouvindo o que estou dizendo. Eu não vou sair daqui para encontrar seu povo."
Ele então se aproximou novamente e desta vez eu já não estava imune ao seu cheiro de menta e mel. Meu coração começou a disparar e minhas pernas perderam a força, mas ainda assim me mantive de pé. Ele segurou meu queixo e aproximou seus lábios dos meus, com uma distância mínima, que parecia me matar, pois eu não queria estar em nenhum outro lugar senão ali. No entanto, ele avançou um pouco mais, chegando perto do meu ouvido e disse:
"Você não é apenas uma humana. Meu lobo clama pelo seu lobo, que por sinal, nem você sabe da existência. Se seu pai te contou como as coisas funcionam, você sabe que se eu te deixar, você vai enfraquecer e enlouquecer. Você é minha companheira predestinada, mas tenho certeza de que o vovô vai cuidar disso, porque eu prefiro morrer a me envolver com uma humana."
Eu estava em choque com aquelas palavras. Eu era 100% humana, pelo menos era o que eu pensava, e quando estava prestes a mandar meu primo para o inferno, um grito ensurdecedor tomou conta da minha mente:
"COMPANHEIRO, SALVE-ME!"
Eu estava em total silêncio, tentando entender o que era aquela voz na minha mente. Uma voz totalmente desesperada, implorando por ajuda e a menor possibilidade de quem quer que fosse estar sofrendo, me deixou aniquilada. Então, olhando para Caleb, que estava tão perplexo quanto eu, disse:
"Tudo bem. Me dê algumas horas. Vou resolver algumas pendências aqui na empresa e depois vou para casa arrumar minhas coisas."
Caleb ainda me olhou desconfiado e disse:
"Me dê suas chaves e endereço. Vou esperar você na sua casa."
Ava queria dizer que não era necessário e que era inapropriado, mas estava tão angustiada que não questionou e fez o que seu primo pediu.
Caleb pegou as chaves e se dirigiu à casa de Ava. Mas uma vez sozinho, toda sua postura imponente se desfez, e ele aliviou a tensão dos ombros. Ele não entendia como aquela mulher poderia ser sua companheira, se ela mal conseguia sentir o cheiro do seu lobo. Sua mente estava confusa, mas de qualquer forma, ele tinha uma única certeza, que não queria se envolver com uma meio-humana, mas sabia que teria que lutar muito para se livrar do vínculo de companheiro, porque só de lembrar do cheiro dela, seu corpo estremecia.
"Droga! O que a deusa da Lua quer de mim? Eu já não tenho problemas demais?"
Depois de algumas horas, Ava finalmente chegou em casa, e eles ficaram frente a frente novamente. Estavam sozinhos dentro da casa, então Ava, que parecia claramente abalada, disse a Caleb:
"Eu vou com você, mas você tem que me prometer que vai fazer isso parar."
"O que você quer que pare, Ava?"
Ava então se aproximou de Caleb, ficando a poucos centímetros de distância, e respondeu com um pouco de embaraço:
"Eu quero que você pare com essa vontade incontrolável de me fazer sua."
Caleb teve que se controlar para não tomá-la ali mesmo, então com um aceno de cabeça disse:
"Eu farei o meu melhor para que isso aconteça."
