Capítulo 3 Rocco

Rocco

O cheiro de café e pão fresco pairava no ar, junto com algo açucarado, muito provavelmente o que Rosalia havia insistido que o chef fizesse. Eu estava sentado à mesa de jantar enorme, observando enquanto Rafael servia o café de sua esposa como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Ainda me surpreendia.

Meu irmão, o mesmo que atirou na cabeça de um homem sem pestanejar, agora era o tipo de marido que servia o café para a esposa antes de se servir.

Rosalia sorriu e disse algo para ele que eu não consegui captar, e Rafael respondeu deixando um beijo na têmpora dela.

Nojento.

"Você está fazendo aquela cara de novo," Riccardo me disse, sorrindo enquanto pegava um pedaço de pão.

"Que cara?" resmunguei.

"Aquela em que parece que você engoliu vidro."

"Talvez eu tenha."

Riccardo sorriu, balançando a cabeça, mas Rafael estava cego para nós, todo focado em sua esposa.

"Você precisa de mais alguma coisa, mia rosa?" ele perguntou a ela, a voz mais baixa do que eu me lembrava de ter ouvido antes.

Rosalia olhou para ele, sorrindo suavemente de um jeito que embrulhou meu estômago. "Não, estou bem. Mas você deveria comer antes da sua reunião."

"Eu vou." Ele afastou uma mecha de cabelo do rosto dela. "Você deveria voltar para a cama depois do café da manhã. Você ficou acordada até tarde ontem à noite."

Rosalia corou um pouco, olhando para Riccardo e para mim. "Rafael..."

"O quê?" Ele sorriu. "É a verdade."

Riccardo engasgou, enchendo a boca de pão.

Eu apenas bebi meu café.

Essa era uma versão do meu irmão à qual eu ainda não estava acostumado.

O Rafael com quem cresci era frio, calculista, um homem que governava com estratégia e violência. O Rafael à minha frente agora ainda era implacável, ainda mortal, mas ele havia suavizado nas bordas.

Por causa dela.

E a parte mais louca?

Ele não parecia se importar.

"De qualquer forma," Rafael disse, finalmente focando em mim, "temos negócios para discutir."

Coloquei meu café de lado. "Eu imaginei."

"Hoje à noite, você vai se encontrar com a filha de Alessandro D'Angelo."

Isso me deixou curioso.

Balancei na cadeira, levantando a sobrancelha. "Fiorella?"

"Sim."

Eu conhecia o nome. Todo mundo conhecia.

Fiorella D'Angelo não era como as outras garotas da máfia. Ela não era um prêmio, um peão de negociação, ou uma noiva a ser casada por política. Ela era a herdeira de seu pai, sua única filha, de um dos homens mais poderosos do submundo.

Eu nunca a havia conhecido, mas os rumores a descreviam vividamente.

Fria. Implacável. Inteligente.

Uma mulher que não só sentava à mesa, ela comandava.

"O que ela quer?" exigi.

"Uma aliança."

Eu sorri. "Claro que quer."

Rafael não piscou, apenas tomou seu café. "O pai dela vê o que está por vir. Ele sabe que a guerra é inevitável, e não quer estar do lado perdedor quando isso acontecer."

"Sujeito esperto," Riccardo resmungou.

"E o que você quer que eu faça?" perguntei a Rafael.

"Conheça ela. Veja o que ela pode fazer por nós." Ele fixou seu olhar em mim, a voz autoritária. "Aceite a oferta se for benéfica para nós. Se não..."

Ele deu de ombros.

Eu entendi o não dito. Se não valesse a pena, íamos embora.

Ou queimávamos a ponte.

"Ok," eu disse, pegando minha bebida.

Rafael assentiu, mas Rosalia estava me examinando atentamente.

"O quê?" perguntei a ela.

"Nada." Ela sorriu, um pouco. "Só me pergunto se você não está subestimando ela."

"Eu não subestimo ninguém."

"Bom." Ela tomou seu café. "Porque ela não é como as outras mulheres que você conheceu."

Isso eu já sabia.

A questão era se ela corresponderia às expectativas, ou se seria uma decepção.

Porque no meu mundo, as reputações raramente se confirmavam dessa forma.

O clube estava apenas tenuemente iluminado, o ar pesado com o cheiro de álcool e desespero.

Era do tipo onde apertos de mão selavam acordos e eram quebrados por tiros.

Eu estava sentado na cabine silenciosa, uísque à minha frente, de costas para a parede.

Eu esperava.

Por ela.

Fiorella D'Angelo.

A suposta rainha do império de seu pai.

Passei o dia me perguntando se ela seria remotamente a mulher que as pessoas descreviam. A máfia tinha uma reputação de exagerar, fazendo dos homens monstros, das mulheres lendas míticas que ninguém conseguia tocar.

Na maioria das vezes, era exatamente isso, histórias exageradas.

E então ela abriu a porta.

E eu descobri, pela primeira vez, que talvez as lendas fossem insuficientes.

Ela caminhava como se fosse dona do lugar, cada passo calculado, cada centímetro de postura exalando confiança. Roupas pretas, cabelo preso, ela era afiada o suficiente para cortar.

Olhos seguiram sua saída.

Homens encararam.

Ela nem sequer olhou para eles.

Levantei uma sobrancelha. Interessante.

Caminhei até ela para me apresentar.

"De Luca."

Meus dedos se fecharam ao redor do copo de uísque que eu não tinha consumido. "D'Angelo."

"Você é menor do que eu imaginava." Eu disse, ela devia ter cerca de 1,70m e era pequena ao lado do meu corpo de 1,90m.

"Você é tão irritante quanto eu esperava."

Meu sorriso se alargou um pouco mais. "Gosto de uma mulher com garra."

Ela me lançou um olhar de desdém. "E eu gosto de homens que não desperdiçam meu tempo."

De perto, ela era ainda mais bonita. Bonita, mas não de uma forma delicada. Seu rosto era duro, sua expressão indecifrável.

Ela não estava ali para impressionar.

Ela estava ali para negociar.

"Vamos fazer negócios?" Ela perguntou.

Recostei-me, tomando um gole do meu uísque. "Com pressa?"

"De jeito nenhum," respondi, mas havia um brilho nos meus olhos. "Só prefiro pular as conversas fiadas."

Sorri. "Que pena. Eu esperava que sim."

"Seu pai parece pensar que podemos trabalhar juntos," pensei. "O que você acha?"

"Um pacto funciona para nós dois," ela continuou. "A guerra que está por vir não é só entre pequenas famílias, vai se espalhar. Os espertos já estão escolhendo lados."

"E você quer estar do nosso lado?"

"Quero que estejamos no mesmo time."

Eu a observei. Ela não estava enganada. A tensão no nosso mundo estava aumentando. As famílias que não fizessem a escolha certa seriam enterradas.

"E o que você tem para trocar?" Exigi.

"Recursos. Conexões. Poder." Ela se ergueu diante de mim, olho no olho. "A questão é, você sabe como usá-los?"

Eu sorri. "Você tem uma boca afiada, não é?"

"Foi você quem fez a pergunta."

Minha expressão não mudou, mas meus dedos se contraíram, do mesmo jeito que seu maxilar se apertou um pouco.

"Uísque?" Eu disse, oferecendo meu copo.

Ela pegou o uísque intocado e derramou, espalhando o líquido âmbar no chão entre nós.

"Acho que preferiria beber veneno."

Meu sorriso desapareceu. Ela era corajosa, mas era arrogante demais para o próprio bem.

Droga.

Já encontrei mulheres que pensavam ser duronas. Fiorella não pensava, ela era.

Eu podia ver isso em sua postura. Na maneira como ela não se mexia, como nunca desviava o olhar. Ela não tinha medo de mim.

Eu não sabia se gostava disso ou não.

Não tive tempo de responder antes do primeiro tiro quebrar o ar.

O clube ao nosso redor virou caos.

Boom.

O prédio inteiro tremeu.

Uma explosão ensurdecedora veio da porta, uma onda de choque que sacudiu o clube. A força fez garrafas caírem do bar, fez homens cambalearem para trás. Gritos rasgaram o ar enquanto fogo e fumaça consumiam a saída.

Tiros. Gritos. Pânico.

Saquei minha arma, me movendo antes mesmo de processar o ataque.

Balas rasgavam corpos. Homens mascarados invadiram pelas portas quebradas, rifles prontos. Eles eram eficientes, não perdiam tempo, assassinos bem treinados, não bandidos violentos.

Eu já estava em movimento, atirando de volta instintivamente. Eu nasci para isso.

Quem é o idiota que tenta atacar nosso clube especialmente quando eu estou no recinto.

Gritos. Vidro estilhaçando. Corpos se debatendo de medo.

Vi o atirador uma fração de segundo tarde demais

Fiorella também.

Ela havia se virado, mirando, mas o tiro a atingiu antes que pudesse disparar.

Acertou seu ombro.

Ela cambaleou, mas não caiu.

Não gritou.

Não fez nada além de ranger os dentes e levantar sua arma.

E atirar.

O homem que a atingiu caiu antes de tentar novamente.

Sangue começou a manchar sua roupa, mas ela ficou de pé, maxilar travado.

Exalei um suspiro pesado, movendo-me para seu lado, segurando-a pelo braço.

"Você foi baleada."

"Eu percebi."

Sua voz estava tensa de dor, mas seus olhos ainda estavam firmes.

O clube estava em completo caos, mas eu mal percebia.

Porque, pela primeira vez em muito, muito tempo, eu estava impressionado.

Talvez Fiorella D'Angelo não fosse uma lenda.

Talvez ela fosse algo diferente.

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