Capítulo 6 6

Isabelly

— Terra chamando Belly! Isabelly, pelo amor de Deus!

— O quê?

— Faz tempo que estou falando com você e você não me escuta! Onde está com a cabeça?

— Onde acha que ela está? — Rio, e minha amiga revira os olhos.

— Estou indo, você vem?

— Vou, mas estou passando na casa dos meus pais. Prometi que jantaria com eles hoje à noite.

Jantar na casa dos meus pais sempre me deixa dividida. Entendam: eu os amo de paixão, mas se reunir com a família Albuquerque tem se tornado um verdadeiro martírio para minha vida pessoal.

— Mãe, por favor, não vamos falar sobre isso de novo, tá bem?

— Isabelly, não é fugindo do assunto que você vai resolver as coisas! — insiste.

— Mãe, o Greg e eu nos damos muito bem do jeito que as coisas estão.

— Até quando? Filha, eu só quero o seu bem.

— Tudo bem, eu vou falar com ele e marcar um jantar aqui em casa. Assim você pode conversar com ele, tirar todas as suas dúvidas. Mas, por ora, podemos encerrar o assunto?

— Podemos. Por enquanto, dona Isabelly Sampaio de Albuquerque... ou até ele inventar outra desculpa esfarrapada pra não aparecer.

Entenderam o que eu quis dizer?

— Pai!? — peço socorro, já que ele continua calado.

Marcos Albuquerque é um homem tranquilo, observador e sereno. Foram essas qualidades que o levaram ao sucesso no mercado de hotéis de luxo. Sim, ele é dono da rede Caravelas & Cia, presente em vários países.

Já Mônica Sampaio de Albuquerque é o oposto. Um furacão. Mulher ativa, possessiva e sagaz, está sempre atenta aos perigos que cercam os seus. Mãe-leoa em tempo integral. Quando algum “predador” se aproxima de suas crias — e, no caso, Greg é o alvo do momento —, Deus nos acuda.

— Desculpe, filha, mas dessa vez sua mãe tem razão — diz meu pai com calma. Reviro os olhos, impaciente.

— Desde que vocês estão juntos, Greg só veio aqui uma única vez, e com hora marcada pra sair. Além disso, não sabemos nada sobre ele. Quem é? Onde trabalha? Quem são os familiares, os amigos? — ele me encara com seriedade. — Nós não sabemos nada, filha.

— Entendi… isso é um complô, certo? — retruco, revoltada. — Eu vou falar com o Greg, ele virá pra esse bendito jantar e vocês vão poder matar toda e qualquer curiosidade sobre ele. Será que agora podemos jantar em paz? — inquiro, deixando claro o meu desagrado.

— Com certeza, filha — responde meu pai.

Para a minha felicidade, ninguém mais toca no assunto Greg durante o jantar — e eu agradeço de coração. Mas não entendo. Será que só eu vejo o homem maravilhoso que ele é? Meus pais, minhas amigas… todos vivem me pressionando, sempre com o mesmo interrogatório. Não era pra eu ser a única preocupada com esses detalhes? Será que eles não percebem que somos felizes do jeito que as coisas estão?

Meu celular toca em algum lugar da casa, interrompendo meus pensamentos. Peço licença e saio da mesa. Sorrio quando vejo o nome na tela: Jonas Brito, um colega de longa data.

— Fala, Brito! Você anda bem sumido, hein.

— Belly, você precisa me salvar! — arqueio as sobrancelhas.

— Hum, boa noite pra você também!

— É sério, porra!

— Tá bom, quem está morrendo?

— Preciso que administre uma conta das empresas Drink’s Drive pra mim.

— Como assim, Brito? Você sabe que eu não posso...

— Belly, quantas vezes te pedi alguma coisa? — interrompe, impaciente.

Suspiro.

— Hum, deixe-me ver — provoco.

— Nunca, porra! Eu sempre resolvi as suas merdas na faculdade! — ralha.

— Ok, Brito. Mas eu acabei de fechar um contrato enorme com uma empresa francesa que está abrindo filial aqui no Brasil. É muita responsabilidade e eu...

— Ok, quanto você está recebendo por essa conta? — questiona.

— Acredite, mais do que eu gostaria.

— Eu pago o dobro — rosna. Franzo a testa.

— Você nem sabe quanto é!

— Não importa, caralho! Eu pago o que for, mas tem que ser você. Se eu colocar outro imbecil nessa conta, estou no olho da rua, entende? E além disso, você quer levar o seu nome pro topo, certo?

Puxo o ar e solto devagar. — Certo.

— Então essa é a sua chance de ouro, garota. Não vai aparecer outra igual tão cedo na sua vida, Isabelly Sampaio.

— Nossa... ok. Quando você pode levá-la até o meu escritório?

— Não posso. E nem vou.

— O quê? Como assim?

— Você vai ter que ir até o Drink’s Drive. O senhor Ávila quer falar com você pessoalmente.

— Tudo bem, mas eu quero o triplo do valor do francês.

— O quê? Você enlouqueceu, mulher?!

— Você disse que pagaria o que fosse. Então, o triplo.

— Puta que pariu, Belly! Já pensou em vender ações? Iria arrancar dinheiro de muito trouxa.

— O triplo ou nada, Brito.

— Tá bem, porra, você venceu! O triplo. Mas não me decepcione, Isabelly Sampaio. O meu emprego depende de você.

Um sorriso presunçoso se espalha pelo meu rosto. — Até parece que não me conhece, Brito.

— Até amanhã, Belly. Mandarei o endereço pro seu e-mail. Bom jantar! — Franzo o cenho.

— Como sabe do... — Ele desliga antes que eu termine.

Suspiro, guardo o celular no bolso do jeans e volto à mesa.

— Já vai, filha? — minha mãe indaga. — Nem terminou o jantar direito.

— Desculpe, mãe, mas tenho um compromisso cedo amanhã e não quero chegar muito tarde em casa. Amo vocês! — digo, soltando beijinhos no ar.

Pego minha bolsa e sigo direto pro carro, sentindo aquele misto familiar de culpa e alívio que sempre me invade quando deixo a casa dos meus pais.

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