Capítulo 7 7

Daniel

Olho para o maldito jornal mais uma vez e não acredito no comentário que o cretino fez durante a entrevista. Puto da vida, jogo o papel em cima da mesa no exato instante em que a porta do meu escritório se abre.

Jonas Brito, meu assessor, entra com o olhar cauteloso por trás dos óculos de grau, observando cada movimento meu enquanto permaneço sentado na cadeira de couro negro. Giro-a lentamente de um lado para o outro, o dedo indicador roçando na barba por fazer — o gesto que anuncia o limite da minha paciência.

— Mandou me chamar, senhor Ávila? — pergunta com a voz controlada.

— Sente-se. — O tom seco o faz engolir em seco. Ele obedece, sentando-se diante de mim sem ousar desviar o olhar. Jonas sabe que não tolero erros — e muito menos traições.

— Aconteceu alguma coisa, senhor? — arrisca.

Em resposta, jogo o jornal em sua direção. Ele o segura, confuso.

— Leia. — A ordem sai fria.

Jonas limpa a garganta, ajeita-se na cadeira e abre o jornal.

— Eu não entendo, senhor Ávila — balbucia.

— O que você não entendeu, Jonas?

— Não foi isso que combinei com o senhor Moris. Ele saiu daqui com as palavras decoradas, sabia exatamente o que podia e o que não podia dizer. Eu não entendo por que ele falou isso.

Inclino-me sobre a mesa, apoiando as mãos no tampo, e o encaro de perto.

— Quero uma reunião com esse imbecil ainda hoje. — Minha voz é pura lâmina. — Quero saber por que ele abriu a boca sobre o projeto antes do lançamento oficial. Isso é espionagem, Jonas? Querem derrubar o meu nome, o meu império?

— N-não, senhor Ávila! Jamais! — Ele se encolhe na cadeira.

Levanto-me de súbito, e o ar parece rarefeito.

— Ligue para Adrian agora. Quero aquele idiota aqui em dez minutos. — O rugido ecoa pela sala. Jonas salta da cadeira e some porta afora.

Volto a me sentar. Giro a cadeira em direção às paredes de vidro e observo o Rio de Janeiro lá embaixo: a cidade imensa, o trânsito caótico, o ruído distante da vida. Tudo parece tão pequeno… e tão longe de mim.

Respiro fundo e me deixo levar por memórias que doem.


Memórias…

— Querida, cheguei. — Minha voz ecoa pela sala do apartamento recém-comprado. Cinco meses de casados. Cinco meses de pura felicidade. Amo aquela mulher com uma intensidade que chega a doer.

Largo a maleta sobre o sofá e afrouxo a gravata. Suzy surge na sala com o sorriso que ilumina tudo. O vestido justo em sua cintura e rodado na barra realça o corpo delicado. Caminho até ela, desabotoando os dois primeiros botões da camisa.

— Estava contando os minutos pra você chegar — diz, acariciando meu cabelo.

Beijo-a com leveza, inalando o perfume de flores do campo.

— Passei o dia inteiro pensando em você, meu amor.

Ela sorri, morde o lábio inferior.

— Sentiu saudade?

— Muita — sussurro antes de tomá-la num beijo urgente, cheio de saudade e entrega.

— Tenho uma surpresa pra você…

Presente

O toque insistente do telefone me arranca do passado. Suspiro e atendo.

— Fala, Estela.

— Doutor Ávila, o senhor Brito pediu pra avisar que o senhor Moris já está a caminho.

— Prepare a sala de reuniões. E não quero ser interrompido.

— Sim, senhor. Ah, e o senhor tem reunião na escola do pequeno Christopher...

Fecho os olhos, cansado.

— Não vou poder ir. Ligue pra minha mãe, peça pra resolver isso.

— Mas, senhor Áv... — Desligo antes que continue.

Desde que Suzy morreu naquela maldita sala de parto, deixei Christopher aos cuidados dos meus pais. Eles tentam, insistem, mas eu não consigo. Não tenho forças pra olhar meu filho nos olhos — ele me lembra demais o que perdi.

Pego o outro jornal dobrado sobre a mesinha e saio sem olhar pra Estela. Sigo direto à sala de reuniões.

Abro a porta e lá está o motivo da minha dor de cabeça, sentado, mexendo no celular como se nada tivesse acontecido. Jonas se levanta imediatamente ao me ver entrar.

— Senhor Ávila — ele anuncia, tenso.

Moris se apressa em guardar o celular e abre um sorriso falso, estendendo a mão.

— Daniel Ávila, que prazer! Gostou da nossa entrevista? — pergunta, com aquele ar satisfeito.

— Fala dessa merda aqui? — rosno, jogando o jornal em sua cara.

Ele empalidece, as folhas caem no chão.

— O que você pensou que estava fazendo, divulgando um produto que eu nem autorizei?

— M-mas, senhor Ávila, foi só marketing...

— Marketing? — avanço até ele. — Aqui quem decide o que é marketing sou eu. Se eu mandar você respirar, você respira. Se eu mandar pular de um prédio, você pula. — A voz sai baixa, perigosa. — Não me venha com desculpas.

Moris recua, engole em seco e ajeita o terno, sem saber pra onde olhar.

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