Capítulo 8 8

Daniel

— Senhor Ávila, eu faço o meu trabalho de modo impecável. Nunca tive reclamações e jamais causei prejuízo a nenhuma empresa que representei. Então…

— Foda-se as empresas que você representou, Moris! — corto, a voz como uma navalha. — A minha eu administro do meu jeito. E você está demitido! — Viro as costas, pronto para sair da sala.

— O senhor não pode me demitir, Daniel Ávila! — ele rosna, e eu me volto devagar, encarando aquela cara de insolente. Um sorriso torto surge nos meus lábios.

— Não só posso, como já o demiti, senhor Moris. — Minha voz é fria, letal. — Passe no RH e receba suas contas. E saia da minha empresa agora.

Volto-me para Jonas, que parece petrificado.

— E você tem vinte e quatro horas pra encontrar outro administrador pra essa conta. — Aponto o dedo, firme. — Vinte e quatro, Jonas. Se errar de novo, será o próximo a ir pra rua.

Saio batendo a porta.

— Senhor Ávila, me desculpe importuná-lo, mas...

— O que foi agora, Estela?! — interrompo, entrando no escritório sem sequer olhá-la.

— É sua mãe, senhor. Ela não poderá ir à reunião da escola e…

— Peça para o Alfred resolver isso pra mim. Não tenho tempo pra essas bobagens.

— Mas, senhor Ávila, Alfred é só o motorista e ele... — Dou-lhe um olhar gélido e ela se cala instantaneamente. — E-eu vou avisá-lo agora mesmo, senhor Ávila.

— Ótimo. Faça isso — respondo, já abrindo o notebook.

Ela sai apressada, e a sala mergulha no silêncio. Solto um longo suspiro, tentando controlar a tensão no corpo. Quando o peso nas costas parece diminuir, volto ao trabalho — até que o telefone toca.

— Mãe? — atendo, sem esconder o cansaço. — Fala logo, estou no meio de algo importante.

— Querido, seu pai não está bem.

Endireito-me na cadeira, preocupado.

— O que ele tem?

— Não sei. Estou levando-o para a clínica fazer alguns exames e…

Ela hesita.

— E?

— Christopher vai para sua casa.

— O quê? Mãe, eu não posso...

— Pode, sim, Dani. É só por alguns dias. Até seu pai se recuperar.

Bufo audivelmente. 

Quantos dias?

— Não sei, Daniel. Assim que ele estiver melhor, eu o busco. Ah, e a reunião da escola do Cris?

— Não posso ir.

— Como assim, não pode? Daniel, o Cris está com problemas na escola. Ele precisa de você

— Alfred resolve isso pra mim.

— Daniel Ávila, até quando vai fugir das suas responsabilidades? — a voz dela falha, mas é firme. — Já se passaram seis anos, meu filho.

Fecho os olhos.

— Mãe, não. Eu não posso. Não ainda.

— Quando, então? O tempo está passando, Daniel. Seu filho está crescendo. Ele precisa do pai.

— Mãe, eu… tenho que desligar. Tenho uma reunião em alguns minutos — minto.

— Daniel, não se atreva a...

— Tchau, mãe. Eu te amo. — Desligo antes que ela continue.

Largo o celular em cima dos papéis e levo as mãos ao rosto. Respiro fundo. Ter Cris em casa não estava nos meus planos.

O garoto... ele é a cópia viva da mãe. Os olhos, o sorriso, o cabelo. Tudo nele grita Suzy. E é por isso que não consigo. Ele me lembra que ela se foi — que foi por causa dele que ela se foi.

Suzy morreu me dando o nosso filho. E eu… eu nunca consegui perdoar a vida por isso. Não suporto olhar pra ele. Não suporto lembrar. Em seis anos, essa será a primeira vez que terei o garoto perto de mim por mais de alguns minutos. Engulo em seco e olho o relógio. Alfred já deve estar a caminho com ele.

Suspiro pesado e pego o telefone.

— Sim, senhor Ávila? — a voz de Estela soa atenta do outro lado.

— Preciso de uma babá. Que fique em tempo integral na minha casa.

— O senhor quer dizer... agora?

— Não, Estela. Pra ontem. — o sarcasmo corta o ar.

— Ah... claro, senhor. Providenciarei imediatamente.

Desligo e volto ao trabalho. Mergulho em números, contratos, relatórios — qualquer coisa que me distraia do que realmente me atormenta. E quando percebo, já são quase onze da noite. Saio do escritório, as luzes se apagando atrás de mim. No saguão, aceno para o segurança e entro no carro.

Peço para ir ao Club Bar, na orla. Um refúgio provisório. Entro e me sento perto do balcão. Peço uma bebida. Depois outra e mais outra. Em algum momento, uma ruiva se aproxima, provocante. Suas mãos percorrem meu peito, e eu cedo ao toque. Ela é bonita, sensual, e tem aquele tipo de olhar que promete esquecer o mundo por uma noite.

Desde que Suzy morreu, aprendi a não me apegar. O amor... o amor mata. O amor me destruiu. Suzy é, e sempre será a única. As outras são apenas distrações. Brinquedos de uma noite.

Depois de mais alguns copos de uísque, saio do bar com a ruiva — não sei seu nome e nem quero saber. Quero o que ela tem pra me dar. Ela terá o que quiser de mim. Depois, cada um segue seu próprio caminho.

Chego em casa pouco depois da uma e meia da madrugada. Tudo está em silêncio. Subo cambaleante até o terceiro andar, tropeçando nas próprias pernas. Entro no quarto, tiro as roupas e as deixo em qualquer lugar. Caio na cama e, como todas as noites, deixo a escuridão me engolir. É a única que ainda me traz paz.

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