Capítulo 1 O Último Ato de uma Diva

O último acorde ecoou pelo teatro como um suspiro prolongado.

Por alguns segundos, o silêncio foi absoluto.

Então, o mundo explodiu em aplausos.

Sob a luz dourada dos refletores, Serena Valmont permaneceu imóvel no centro do palco. Seu peito subia e descia rapidamente, enquanto pequenas gotas de suor deslizavam pela pele branca como a neve.

Os cabelos negros e cacheados, cuidadosamente presos no início da apresentação, agora exibiam alguns fios rebeldes ao redor de seu rosto.

Ela estava exausta.

A última peça exigira mais de sua voz do que qualquer outra naquela noite. Os agudos prolongados, as mudanças repentinas de tonalidade e a necessidade de acompanhar uma orquestra inteira haviam levado seu corpo ao limite.

Mas, ao ouvir a plateia gritar seu nome, ela sorriu.

Era por aquilo que vivia.

Inclinou-se em uma reverência elegante.

Uma chuva de pétalas vermelhas começou a cair sobre o palco, enquanto os músicos se levantavam para acompanhá-la nos agradecimentos.

Na primeira fila, algumas pessoas choravam. Outras erguiam os celulares, tentando registrar os últimos instantes daquela apresentação.

Serena levou uma das mãos ao coração.

"Obrigada", murmurou, embora soubesse que ninguém conseguiria ouvi-la.

Aquela era a última noite de sua turnê internacional.

Depois de oito meses atravessando países, enfrentando diferenças de fuso horário e se apresentando em teatros lotados, finalmente teria algumas semanas de descanso.

Pelo menos, era o que esperava.


"Você foi absolutamente magnífica!"

A porta do camarim se abriu antes mesmo que Serena conseguisse retirar os brincos.

Sua empresária entrou carregando um tablet, dois celulares e uma expressão de triunfo.

"Você tem ideia de quantas pessoas acompanharam a transmissão? Estamos entre os assuntos mais comentados do mundo!"

Serena soltou uma risada cansada.

"Marina, por favor. Cinco minutos sem números, contratos ou entrevistas."

"Cinco minutos? Você está me pedindo um milagre."

"Estou pedindo água."

Marina suspirou dramaticamente, mas pegou uma garrafa sobre a mesa.

"Aqui, majestade."

"Finalmente alguém reconhece minha posição."

As duas riram.

Serena bebeu quase metade da garrafa antes de se acomodar diante do espelho.

Seu reflexo revelava os sinais de uma apresentação intensa. A maquiagem ainda estava impecável, embora a pele brilhasse pelo suor. Alguns cachos negros haviam escapado dos grampos e caíam sobre seus ombros.

Retirou cuidadosamente os acessórios.

"Você precisa comer alguma coisa", Marina comentou.

"Preciso de uma banheira, uma pizza inteira e doze horas de sono."

"Nessa ordem?"

"Se a pizza chegar antes, podemos negociar."

Marina balançou a cabeça, sorrindo.

Serena era uma das vozes mais reconhecidas do mundo, capaz de emocionar multidões e lotar teatros históricos em questão de minutos.

Mas, longe das câmeras, continuava sendo a mesma garota que Marina conhecera anos antes, quando ainda cantava em pequenos eventos e contava moedas para pagar as aulas de técnica vocal.

"Você merece descansar", Marina admitiu.

Serena ergueu uma sobrancelha.

"Isso foi uma autorização oficial?"

"Não se acostume."

"Vou registrar essa conversa."

O silêncio que se seguiu foi confortável.

Até alguém bater à porta.

"Entrega para a senhorita Valmont."

Um funcionário entrou carregando um enorme buquê de rosas vermelhas.

O sorriso de Serena desapareceu.

Marina percebeu imediatamente.

"De novo?"

O homem assentiu, desconfortável.

"Deixaram na recepção com a identificação de entrega prioritária."

"Quem autorizou a entrada disso?", Marina perguntou.

"Eu não sei, senhora. O entregador já tinha ido embora quando..."

"Coloque sobre a mesa e saia, por favor."

O funcionário obedeceu.

Assim que a porta se fechou, Serena encarou as flores.

Rosas vermelhas.

Sempre rosas vermelhas.

No início, havia achado romântico.

Um admirador misterioso que enviava flores depois de suas apresentações, acompanhadas de mensagens elogiando sua voz.

Mas os bilhetes começaram a mudar.

Primeiro, comentários sobre seus vestidos.

Depois, sobre os restaurantes que frequentava.

Até que, algumas semanas antes, recebera uma mensagem descrevendo a camisola que havia usado para dormir.

Uma camisola que nunca aparecera em nenhuma fotografia pública.

Desde então, a sensação de estar sendo observada a acompanhava em todos os lugares.

Nos corredores dos hotéis.

Dentro dos carros.

Durante os ensaios.

E, pior, dentro de sua própria casa.

"Não toque nisso", Marina ordenou.

Mas Serena já havia encontrado o pequeno envelope escondido entre as rosas.

O papel era branco.

Sem assinatura.

Abriu-o.

Minha doce rouxinol,

Você estava maravilhosa esta noite. Especialmente quando fechou os olhos durante o último agudo. Gosto quando faz isso. Por alguns segundos, parece que está cantando apenas para mim.

Sei que anda assustada. Não precisa ficar. Eu jamais permitiria que alguém a machucasse.

Também percebi que você tem dormido com a luz do corredor acesa. Não precisa mais fazer isso.

Em breve, estaremos juntos.

E, quando esse momento chegar, você nunca mais precisará fechar as cortinas para se esconder de mim.

Seu lugar é ao meu lado.

Para sempre.

O papel tremeu entre seus dedos.

"Marina..."

A empresária pegou o bilhete.

Seu rosto perdeu a cor.

"Filho da..."

Ela interrompeu o palavrão e imediatamente pegou o celular.

"Vou ligar para a segurança."

"Você já fez isso."

"E vou fazer de novo."

"Marina..."

"Não. Escute bem. Isso passou de qualquer limite aceitável."

Serena abraçou o próprio corpo.

"Ele sabe que durmo com a luz acesa."

Marina ficou imóvel.

"Como?"

"Eu nunca contei isso para ninguém."

A empresária olhou para as flores como se fossem algo contaminado.

"Vou mandar verificar seu apartamento inteiro. Câmeras, fechaduras, janelas, tudo."

"Você acha que ele entrou lá?"

Marina demorou a responder.

"Acho que não podemos descartar essa possibilidade."

Serena voltou os olhos para o espelho.

Durante anos, enfrentara plateias exigentes, críticas cruéis e a pressão de uma carreira internacional. Aprendera a controlar o nervosismo antes das apresentações e a transformar emoções em música.

Mas não sabia como lidar com aquilo.

Um desconhecido parecia conhecer detalhes de sua intimidade que nem mesmo as pessoas mais próximas conheciam.

E, por mais que tentasse racionalizar, havia algo especialmente perturbador naquelas mensagens.

Elas não soavam como fantasias de um admirador distante.

Soavam como observações.

Como se alguém estivesse acompanhando sua vida de perto.

Muito perto.

Marina se afastou para falar com o chefe da segurança.

Serena permaneceu diante do espelho, encarando as próprias mãos.

Então seu celular vibrou sobre a penteadeira.

Uma notificação de número desconhecido iluminou a tela.

Não fique triste, meu amor.

Eu não gosto quando ela faz você chorar.

Seu coração falhou uma batida.

Ergueu lentamente os olhos.

Marina ainda estava perto da porta, discutindo com a equipe de segurança.

Serena não havia chorado.

Pelo menos, era o que pensava.

Tocou a própria bochecha.

Seus dedos encontraram uma lágrima.

Outra mensagem apareceu.

Limpe o rosto.

Você fica muito mais bonita quando sorri.

Serena se levantou tão depressa que a cadeira tombou para trás.

"MARINA!"

A empresária correu em sua direção.

"O que aconteceu?"

Serena mostrou a tela, incapaz de pronunciar uma palavra.

Marina leu as mensagens.

Então olhou ao redor do camarim.

Para as paredes.

Para o espelho.

Para a pequena abertura entre as cortinas.

E, pela primeira vez naquela noite, Serena percebeu que sua empresária também estava com medo.

Próximo Capítulo