Capítulo 3 O Preço de uma Segunda Vida

"Você demorou, meu amor."

Serena sentiu o sangue gelar.

O homem se levantou lentamente da poltrona, revelando um rosto comum, quase agradável. Era alto, possuía cabelos castanhos cuidadosamente penteados e vestia uma camisa social escura.

Poderia ser qualquer pessoa que ela cruzasse na rua.

Aquela normalidade o tornava ainda mais assustador.

"Quem é você?", perguntou, recuando.

Ele franziu a testa, visivelmente decepcionado.

"Depois de tudo que vivemos, é assim que me recebe?"

"Eu não conheço você!"

"Claro que conhece, Serena. Estive presente em todos os seus concertos. Conheço suas músicas, seus hábitos, seus medos..."

O homem sorriu.

"Conheço você melhor do que qualquer pessoa."

Serena procurou discretamente o celular dentro da bolsa, abandonada sobre o aparador.

"Como entrou aqui?"

"Isso realmente importa? Preparei tudo para nós."

Ele apontou para a mesa.

"Seu vinho favorito. Rosas vermelhas. Até pedi que preparassem aquele jantar que você sempre escolhe quando está triste."

O estômago de Serena se contraiu.

"Você está doente."

O sorriso desapareceu.

"Não fale assim comigo."

Ele avançou um passo.

Serena recuou imediatamente.

"Fique longe!"

"Eu esperei anos por você! Acompanhei sua carreira desde quando ninguém conhecia seu nome. Fui eu quem esteve ao seu lado durante todo esse tempo!"

"Você não esteve ao meu lado! Você me perseguiu!"

A expressão dele se transformou.

"Você deveria ser grata."

Serena finalmente alcançou a bolsa.

Seus dedos encontraram o celular.

Mas, antes que pudesse retirá-lo, o homem avançou.

"EU DISSE PARA NÃO ME IGNORAR!"

Ele agarrou seu pulso.

A dor foi imediata.

"Me solte!"

"Você vai me ouvir!"

Serena tentou se libertar, mas ele apertou ainda mais.

O cheiro de seu perfume provocou uma náusea violenta.

Ela ergueu a mão livre e arranhou o rosto dele com toda a força.

O homem gritou.

O aperto afrouxou.

Serena aproveitou para empurrá-lo e correr.

Seu coração martelava contra as costelas.

A entrada estava bloqueada.

O corredor dos quartos ficava atrás dele.

Restava a varanda.

"SERENA!"

Ela atravessou a sala, abriu a porta de vidro e saiu.

O vento noturno atingiu seu rosto.

Então paralisou.

O vazio se estendia diante dela.

Dezenas de andares separavam seu apartamento das ruas iluminadas.

Desde criança, Serena sofria de um medo incapacitante de altura. Até mesmo observar a cidade através de janelas muito altas fazia suas pernas enfraquecerem.

Agora, porém, não havia para onde correr.

"Meu amor..."

A voz surgiu atrás dela.

"Pare com essa brincadeira."

Serena olhou desesperadamente para a varanda vizinha.

Havia uma divisória entre os apartamentos, com um estreito vão separando suas estruturas.

Se conseguisse alcançar o outro lado, poderia pedir ajuda.

Era arriscado.

Terrivelmente arriscado.

Mas ficar significava voltar para as mãos daquele homem.

"Não se aproxime!", gritou.

Ele surgiu na porta.

O sangue escorria dos arranhões em sua bochecha.

"Veja o que me obrigou a fazer."

Serena segurou o parapeito.

Suas mãos tremiam tanto que mal conseguia manter os dedos firmes.

"Eu vou chamar a polícia!"

"Você não precisa de ninguém além de mim!"

Ele avançou.

Serena subiu na base interna da proteção.

O vento puxou violentamente seus cachos negros.

Não olhe para baixo.

Passou uma perna para o lado externo, procurando apoio na estreita estrutura que contornava a varanda.

Só preciso alcançar o outro lado.

Seus dedos encontraram a extremidade da divisória.

Por um instante, acreditou que conseguiria.

Então uma mão agarrou seu braço.

"PEGUEI VOCÊ!"

O puxão foi brutal.

"ME SOLTE!"

Ela tentou se firmar, mas seu pé escorregou.

O mundo inclinou.

Suas unhas rasparam o parapeito enquanto procurava desesperadamente algum apoio.

O homem tentou segurá-la novamente.

"SERENA!"

Mas seus dedos já não alcançavam os dela.

E então...

O chão desapareceu.


O vento rugiu em seus ouvidos.

Serena caiu de costas, vendo a varanda se afastar rapidamente.

Por um instante, não conseguiu gritar.

Seu cérebro parecia incapaz de compreender o que estava acontecendo.

Eu vou morrer.

A certeza veio acompanhada de um terror tão profundo que seu corpo inteiro enrijeceu.

Não... não pode terminar assim!

As luzes da cidade se misturaram.

E, inesperadamente, lembranças começaram a atravessar sua mente.

Ela se viu aos seis anos, cantando diante de uma pequena plateia escolar.

Depois, adolescente, praticando escalas até ficar rouca, economizando dinheiro para pagar professores e viajando durante horas para participar de audições.

Recordou as rejeições, os trabalhos temporários e as noites em que pensou em desistir.

Mas também se lembrou da primeira grande oportunidade.

Do primeiro contrato internacional.

Da emoção de ouvir uma orquestra acompanhar sua voz.

E, finalmente, dos teatros lotados, dos prêmios e dos aplausos que a transformaram em Serena Valmont, uma cantora admirada mundialmente.

Tudo aquilo havia custado tanto.

Sua juventude.

Seu descanso.

Inúmeras oportunidades de simplesmente aproveitar a vida.

Que injustiça...

Lágrimas escaparam de seus olhos.

Eu trabalhei tanto para chegar até aqui.

E agora morreria sem sequer desfrutar de tudo que conquistara.

Não tivera tempo de viajar por prazer, de passar tardes inteiras sem compromissos ou de experimentar a tranquilidade que sempre prometera a si mesma.

Uma risada amarga escapou de seus lábios.

Se existir uma próxima vida...

Seus pensamentos se tornaram estranhamente claros.

Quero nascer rica.

Rica de verdade!

Quero uma família poderosa, uma mansão enorme e empregados que me tragam café na cama.

Quero vestidos lindos, joias, banquetes e todos os luxos que o dinheiro puder comprar.

A imagem absurda de si mesma descansando sobre almofadas de seda quase a fez rir novamente.

E nada de trabalhar até desmaiar!

Quero dormir até tarde, comer o que quiser e ter todos os meus desejos atendidos!

O chão se aproximava.

Serena fechou os olhos.

Por favor...

Dessa vez, me deixem viver em paz.

Então, em meio ao rugido do vento, ouviu uma nota musical.

Era profunda, delicada e impossivelmente harmoniosa.

Uma frequência que parecia atravessar seu próprio coração.

Serena abriu os olhos.

As luzes desapareceram.

O vento cessou.

Por um instante impossível, tudo ficou suspenso em uma escuridão absoluta.

Uma voz desconhecida ecoou diretamente em sua consciência.

Consciência detectada.

Frequência excepcional identificada.

Compatibilidade com a Matriz de Consorte confirmada.

Serena tentou compreender aquelas palavras.

O quê...?

A nota musical tornou-se mais intensa.

Iniciando vinculação.

Uma luminosidade dourada surgiu na escuridão.

Então, antes que pudesse formular outro pensamento, Serena ouviu uma última declaração.

Bem-vinda a Asterion.

E sua consciência mergulhou no silêncio.

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