Capítulo 4 A Herdeira Indesejada
A primeira coisa que Serena sentiu foi dor.
Uma dor profunda, espalhada pelas costelas, como se alguém tivesse decidido usá-la como saco de pancadas.
A segunda foi um cheiro estranho.
Ervas medicinais, madeira úmida e alguma coisa amarga que lembrava remédio vencido.
Que hospital miserável é esse?
Tentou abrir os olhos.
A claridade que atravessava as cortinas provocou uma pontada em sua cabeça.
"Ela ainda está respirando?"
Uma voz feminina soou do outro lado do quarto.
"Sim, senhora. Mas o médico recomendou repouso."
"Repouso? Aquela inútil já passou tempo demais deitada!"
Serena franziu a testa.
Quem está gritando dentro do meu quarto?
"Se não estiver pronta para a seleção imperial, todo o investimento terá sido desperdiçado."
"Mas, senhora, os ferimentos..."
"Não me interessam! Faça-a levantar."
Passos se aproximaram.
Antes que Serena pudesse compreender o que acontecia, alguém puxou violentamente suas cobertas.
"Levante-se, Elowen!"
Ela abriu os olhos.
Uma mulher de cabelos castanhos, vestida com um elegante vestido azul, observava-a com evidente irritação.
Serena piscou.
Uma vez.
Duas.
Quem diabos é Elowen?
"Está surda agora?"
A mulher ergueu a mão.
Serena reagiu instintivamente, segurando seu pulso antes que o tapa a atingisse.
O movimento provocou uma dor terrível em suas costelas.
Ainda assim, não soltou.
"Não encoste em mim."
Sua voz saiu rouca.
A mulher arregalou os olhos.
"Como ousa?"
Serena também estava surpresa.
Aquela não era sua voz.
Era mais suave, ligeiramente aguda, com um timbre que nunca ouvira antes.
Olhou para a própria mão.
Os dedos eram finos.
A pele, delicada.
Havia hematomas arroxeados ao redor do pulso.
O que aconteceu comigo?
A mulher arrancou o braço de seu aperto.
"Você perdeu completamente o juízo!"
Virou-se para uma jovem criada que permanecia próxima à porta.
"Prepare-a. Quero essa ingrata apresentável antes do meio-dia."
"Sim, senhora."
A mulher lançou um último olhar de desprezo para Serena.
"E esconda aquela cicatriz. Já basta termos de suportar sua existência."
A porta se fechou com violência.
Por alguns segundos, Serena permaneceu imóvel.
Depois, virou-se lentamente para a criada.
"Com licença..."
A jovem se aproximou.
"Sim, senhorita?"
"Onde estou?"
A criada empalideceu.
"Na residência Arvendis, senhorita."
Serena engoliu em seco.
"Residência... Arvendis?"
"Sim."
"E quem era aquela mulher?"
A criada levou a mão à boca.
"Senhorita, aquela era a senhora Celestine, sua madrasta!"
Minha o quê?
Serena olhou ao redor.
O quarto era pequeno, apesar dos móveis antigos e das cortinas bordadas. Havia uma cama estreita, um armário desgastado e uma penteadeira diante de um espelho oval.
Nada lembrava seu apartamento.
Muito menos um hospital.
Seu coração começou a acelerar.
"Preciso de um espelho."
A criada apontou para a penteadeira.
Serena levantou-se cuidadosamente.
Cada movimento provocava uma pontada.
Quando finalmente alcançou o espelho, ficou sem respirar.
Uma desconhecida a encarava.
Cabelos longos, loiros com reflexos rosados, caíam desordenadamente sobre seus ombros.
O rosto possuía uma beleza delicada, com traços ligeiramente felinos, maçãs suaves e lábios naturalmente rosados.
Mas os olhos...
Um era castanho-âmbar.
O outro, azul.
Uma cicatriz fina atravessava a região do olho esquerdo e descia pela bochecha.
Serena ergueu a mão.
A desconhecida repetiu o movimento.
Tocou os cabelos.
O reflexo fez o mesmo.
"Não..."
A palavra escapou de seus lábios.
Isso não é possível.
Lembrou-se da varanda.
Do vento.
Da queda.
E da certeza de que morreria.
Suas pernas fraquejaram.
A criada correu para ampará-la.
"Senhorita!"
Serena agarrou a borda da penteadeira.
Eu morri.
O pensamento surgiu com uma clareza aterrorizante.
Eu realmente morri.
E, de alguma maneira absurda, havia acordado dentro do corpo de outra pessoa.
Uma pontada atravessou sua cabeça.
Imagens desconhecidas surgiram repentinamente.
Uma menina de cabelos claros escondida sob uma mesa.
Uma mulher arrancando um livro de suas mãos.
Uma criança chorando enquanto outra recebia presentes.
O som de porcelana se quebrando.
Sangue.
Um espelho estilhaçado.
Serena apertou as têmporas.
"Ah!"
A criada segurou seus ombros.
"Senhorita Elowen, está sentindo dor?"
Elowen...
O nome provocou outra sequência de lembranças.
Elowen Arvendis.
Filha do primeiro casamento do senhor daquela residência.
Sua mãe havia morrido quando ainda era pequena.
Depois disso, a casa deixara de ser um lar.
Celestine, sua madrasta, nunca suportara a atenção que Elowen recebia por sua beleza incomum e pela herança materna.
Com o passar dos anos, aquela inveja se transformara em humilhações, castigos e agressões.
A cicatriz era uma lembrança permanente de uma dessas agressões.
Serena afastou lentamente a mão do rosto.
Então foi isso que aconteceu com você...
Sentiu um aperto no peito.
A antiga Elowen havia suportado tudo aquilo durante anos.
E agora suas lembranças estavam ali, fragmentadas, misturadas às dela.
"Senhorita?"
Serena ergueu o rosto.
"Qual é o seu nome?"
A criada pareceu surpresa.
"Lina, senhorita."
"Lina... quanto tempo fiquei desacordada?"
"Quase dois dias."
"E o que aconteceu?"
A jovem hesitou.
"Disseram que a senhorita caiu da escadaria."
Serena observou os hematomas em seus braços.
A lembrança de mãos empurrando aquele corpo surgiu rapidamente.
Não havia sido uma simples queda.
Mas Lina parecia assustada demais para dizer qualquer coisa.
Serena decidiu não insistir.
Ainda.
Enquanto Lina preparava água para lavar seus ferimentos, Serena examinou novamente o quarto.
Muito bem. Vamos analisar a situação.
Estava viva.
De alguma forma.
Em outro corpo.
Em uma residência que parecia saída de um romance histórico.
E possuía uma madrasta que provavelmente merecia uma visita da polícia.
Será que existe polícia neste lugar?
Suspirou.
Antes de morrer, havia desejado nascer em uma família rica, cercada de luxo, conforto e pessoas dispostas a satisfazer seus caprichos.
Tecnicamente, parecia ter conseguido a parte da família rica.
Mas o restante...
Olhou para os hematomas.
Que tipo de promoção enganosa foi essa?
Quase riu.
Quase.
Porque a dor nas costelas a lembrou de que sua situação não tinha graça alguma.
"Lina, onde exatamente fica esta residência?"
"No território central do Império de Asterion, senhorita."
Serena congelou.
"Asterion?"
"Sim."
O nome despertou uma lembrança distante.
Uma voz.
Uma nota musical.
Bem-vinda a Asterion.
Ela apertou a borda da cama.
Aquilo não havia sido um sonho.
"A seleção imperial começa amanhã."
"Seleção para quê?"
"Para a apresentação das candidatas diante da corte."
"E o que acontece com as escolhidas?"
A criada baixou os olhos.
"Algumas recebem propostas de vínculo. Outras são destinadas a funções de estabilização."
"Estabilização?"
"Para aliviar o miasma dos machos, senhorita. Através do toque."
Machos? Miasma? Vínculo?
Cada resposta produzia novas perguntas.
"Todas as mulheres conseguem fazer isso?"
"Todas as fêmeas possuem essa capacidade, senhorita. Embora a intensidade varie."
Serena observou as próprias mãos.
Maravilhoso.
Morri fugindo de um homem obcecado e renasci para participar de um evento que nem compreendo.
Lina aproximou-se com um recipiente de pó facial.
"A senhora Celestine ordenou que escondêssemos sua cicatriz."
Serena encarou o reflexo.
A marca atravessava delicadamente o olho azul.
Não diminuía sua beleza.
"Não."
"Senhorita?"
"Não vou escondê-la."
"Mas sua madrasta..."
"Ela pode aprender a conviver com isso."
Lina ficou tão surpresa que quase derrubou o recipiente.
Serena respirou fundo.
Ainda não sabia como havia chegado àquele mundo, nem por que a antiga Elowen desaparecera.
Mas uma coisa estava decidida.
Havia passado a primeira vida trabalhando até a exaustão.
Não pretendia passar a segunda permitindo que outras pessoas decidissem tudo por ela.
