Capítulo 5 A Seleção Imperial
"Senhorita, sua irmã está chegando!"
Lina entrou apressadamente, carregando um vestido bege tão desbotado que Elowen chegou a confundi-lo com um pano de limpeza.
"Isso é para mim?"
A criada assentiu, constrangida.
"Lady Eveline escolheu pessoalmente."
Elowen ergueu o tecido entre dois dedos.
"Ela me odeia tanto assim?"
Antes que Lina respondesse, a porta se abriu.
Uma jovem de cabelos castanhos sedosos entrou no quarto, acompanhada por duas criadas. Seu vestido cor-de-rosa possuía bordados delicados e pequenas pérolas costuradas ao decote.
"Elowen, querida!"
A voz era doce.
Doce demais.
"Fiquei tão preocupada quando soube que você estava doente!"
Então essa é minha adorável irmãzinha.
Eveline aproximou-se sorrindo.
"Trouxe suas roupas favoritas!"
Elowen olhou novamente para o vestido esfarrapado.
"Favoritas?"
"Claro! Você sempre diz que prefere roupas simples. Afinal, vestidos elaborados chamariam atenção desnecessária para sua aparência."
Uma lembrança atravessou sua mente.
Uma menina chorando diante do espelho.
Eveline, ainda criança, colocando enormes óculos sobre seu rosto.
Assim ninguém vai reparar nos seus olhos esquisitos.
Outra lembrança surgiu.
A mesma garota escondendo os produtos de banho de Elowen.
Não lave o cabelo hoje. Papai disse que você gasta água demais.
Elowen sentiu o estômago revirar.
Não eram simples provocações.
Eveline havia passado anos convencendo a irmã de que sua beleza era algo vergonhoso.
"Também trouxe seus óculos!"
A jovem retirou de uma caixa uma armação gigantesca, com lentes grossas que escondiam quase todo o rosto.
Elowen encarou o objeto.
"Não vou usar."
O sorriso de Eveline vacilou.
"Como?"
"Eu disse que não vou usar."
"Mas, querida, você sabe como as pessoas ficam desconfortáveis com seus olhos diferentes..."
"Então elas podem olhar para outro lugar."
Lina abaixou a cabeça para esconder um sorriso.
Eveline apertou os lábios.
"Elowen, estou tentando ajudá-la."
"Que generosidade."
Elowen devolveu o vestido.
"Agora, se não se importa, preciso me preparar."
A porta se abriu novamente.
"QUE COMPORTAMENTO É ESSE?"
A voz de Celestine atravessou o quarto.
Antes mesmo que Elowen pudesse responder, seu corpo enrijeceu.
Os ombros se contraíram.
Seus dedos começaram a tremer.
Uma onda de pavor percorreu sua coluna.
O que está acontecendo comigo?
Sua mente sabia que aquela mulher não possuía qualquer autoridade sobre ela.
Mas seu corpo parecia discordar.
O coração disparou.
A respiração tornou-se curta.
Elowen tentou erguer o queixo.
Não conseguiu.
Por que estou com tanto medo?
Uma lembrança surgiu involuntariamente.
Elowen ajoelhada no chão.
Celestine segurando uma vara fina.
Olhe para baixo quando eu estiver falando!
Elowen apertou os punhos.
Essas lembranças não são minhas. Eu não vivi nada disso!
Mas os tremores continuaram.
Aquele corpo havia aprendido, durante anos, que a voz de Celestine anunciava sofrimento.
E não bastava uma nova consciência para apagar essas marcas.
"Estou falando com você!", Celestine gritou.
Elowen estremeceu.
Eveline observava tudo com satisfação.
"Mamãe, eu apenas tentei ajudá-la a ficar apresentável..."
"Naturalmente, querida."
Celestine voltou-se para Elowen.
"Vista o que sua irmã escolheu. Não permitirei que envergonhe nossa família diante da corte."
Elowen mordeu a parte interna da bochecha.
A dor ajudou a recuperar um pouco do controle.
"Não vou usar aqueles óculos."
O silêncio foi imediato.
Celestine ergueu a mão.
Elowen recuou antes mesmo de perceber.
A reação provocou um sorriso cruel na mulher.
"Vejo que ainda se lembra do seu lugar."
A porta se abriu uma terceira vez.
"Chega."
Um homem alto, de cabelos grisalhos, entrou no quarto.
Lorde Arvendis.
O pai de Elowen.
Suas pernas fraquejaram novamente.
Outra voz que aquele corpo aprendera a temer.
"Estamos atrasados", declarou ele. "Não desperdicem mais tempo."
Seu olhar passou rapidamente pelos hematomas da filha.
Não demonstrou preocupação.
"Faça o que sua madrasta ordenou, Elowen."
Uma tristeza inesperada apertou seu peito.
Não era exatamente sua.
Era o resíduo de anos esperando que aquele homem finalmente a defendesse.
E de incontáveis decepções.
"Sim, pai", respondeu quase automaticamente.
As palavras escaparam antes que conseguisse impedi-las.
Droga.
Uma hora depois, Elowen observava o próprio reflexo.
Lina havia conseguido convencê-la a usar um vestido simples, porém limpo, guardado entre os poucos pertences deixados por sua mãe.
Os cabelos loiros rosados estavam lavados e penteados.
Os enormes óculos permaneciam sobre a penteadeira.
"Está linda, senhorita", Lina murmurou.
Elowen tocou delicadamente a cicatriz.
"Obrigada."
A criada hesitou.
"Lady Eveline ficará furiosa."
"Ela pode entrar na fila."
Lina soltou uma risadinha.
Pela primeira vez, Elowen percebeu que aquela jovem talvez fosse sua única aliada naquela casa.
A carruagem atravessou os portões do palácio imperial pouco antes do meio-dia.
Elowen observava tudo pela janela.
Torres de mármore, jardins imensos e soldados de armaduras ornamentadas compunham uma paisagem que parecia saída de um conto fantástico.
Alguns guardas possuíam orelhas animais.
Outros exibiam caudas.
Definitivamente não estou mais na Terra.
No salão principal, dezenas de jovens aguardavam a seleção.
Eveline caminhava orgulhosamente ao lado da mãe.
Elowen permaneceu alguns passos atrás.
Então ouviu um murmúrio.
"O príncipe Vael estará presente?"
"Dizem que seu miasma está piorando."
"Ouvi dizer que nenhuma estabilizadora consegue permanecer perto dele."
Elowen virou discretamente a cabeça.
No alto da escadaria, um homem vestido de negro observava o salão.
Seus olhos dourados pareciam brilhar sob a iluminação.
E, ao redor dele, Elowen percebeu algo impossível.
Uma vibração irregular.
Como instrumentos desafinados tocando dentro de sua cabeça.
Ela levou a mão ao ouvido.
Que som horrível...
O homem ergueu o rosto.
Seus olhos encontraram os dela.
E a vibração pareceu responder.
