Capítulo 1 Surprise Pricks

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Dedico este livro a Sheridan Hartin. Um Espírito maravilhoso, cuja Câmara da Alma iluminou a escuridão dentro da minha. Espero que o mundo se abra para você, minha querida.

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-BEA-

Bea ergueu o ramalhete de rosas contra a luz, concentrando-se nas pétalas vermelhas. Era bem cedo, o que significava que ela teria bastante tempo para trocar as flores murchas antes de ter que se apresentar para o trabalho nas cozinhas.

Ela aproximou o ramalhete do nariz e inspirou fundo. A mistura de folhas e pétalas lhe dava ânimo. Qualquer alegria que conseguisse encontrar tornava aquela vida miserável de escrava um pouco menos sombria. Por isso, ela procurava alegria em tudo.

Mesmo assim, repreendeu a si mesma com um suspiro pesado:

— Ficar parada por muito tempo só vai chamar a atenção do pessoal da casa.

Ela levaria outra surra se a vissem parada, sem fazer nada. Rápido, afastou o ramalhete lindo do rosto e o colocou no vaso vazio em cima do piano. O vermelho e o cristal, sob o sol claro da manhã, pareciam vibrantes e cheios de vida.

Ela amava aquele canto da biblioteca. Era silencioso e normalmente vazio, dando a ela um momento de alívio. Normalmente, era obrigada a estar em movimento o tempo todo. Sempre tinha que lavar alguma coisa, carregar outra. Mal lhe davam tempo para comer e, quando davam, era no cocho dos porcos. Não podia reclamar tanto assim, porém: os porcos recebiam as melhores sobras do cardápio do dia anterior. E ontem a família tinha comido melado e scones no café da manhã, e a família nunca terminava tudo. Isso significava que, naquela noite, ela teria todo o melado e scones que conseguisse comer. Só precisava afastar os javalis enormes antes de pegar o seu prêmio.

Quando pegou as rosas velhas e jogadas na cadeira, um espinho cortou o seu polegar, fazendo-a derrubar o ramalhete. Ao bater no chão de ladrilhos, pétalas e folhas explodiram para fora e se espalharam aos seus pés.

Com o polegar na boca, ela se ajoelhou e começou a juntar os pedaços. Pensando consigo mesma:

Ah, não! Se encontrarem qualquer coisa disso depois, vão tomar meus sapatos de novo!

Enquanto juntava os restos, ouviu a porta da biblioteca se abrir e viu seus Senhores entrarem.

Visca, o velho ex-Beta, e a esposa puxavam a filha para dentro da biblioteca silenciosa. Ele fechou a porta com força antes de se virar para a filha.

— Savonnuh, não vou aceitar discussão sobre esse assunto!

Bea enrijeceu. Se fosse descoberta, apanharia com certeza. Talvez até ficasse sem comer por uma semana.

— Eu não ME IMPORTO! — Savonnuh guinchou. — Era pra eu ser a Luna! Era pra eu ser paparicada e amada por todo mundo. Eu NÃO devia ser ama de leite de um Lobo quebrado!

“Lobo quebrado.” Bea já tinha escutado esse termo muitas vezes ao longo dos anos. Nascida de mãe humana e pai de sangue puro, ela jamais tinha ouvido a voz de sua Loba. No fundo, não acreditava nem que tivesse uma. Era considerada uma “Loba Quebrada” desde o nascimento.

A curiosidade serviu de combustível para os músculos enrijecidos. Ela foi se esgueirando devagar pelos pés do piano, até conseguir espiar por trás do sofá que a mantinha fora do campo de visão deles.

Bea observou enquanto a pele de Visca parecia se mover e o pelo brotava no rosto e nos braços. As ondas de pelagem se espalhavam quando ele lutava visivelmente contra as emoções.

Rude e com um tom controlado, ele deu um passo na direção da filha:

— Você VAI se casar com Dax! Você VAI fazer o que for preciso para tirar nossa família dessa desgraça. Não me importa se isso significa que você vai ser jogada num buraco e esquecida, filha.

A palavra “filha” ficou suspensa no ar. Como veneno no vento.

Mesmo assim, Savonnuh insistiu:

— Pai, por favor! Não! Eu não posso me casar com ele. Dizem que o corpo dele não se mexe, que vai murchando igual brócolis estragado. O senhor quer esse tipo de homem como meu marido?!

De novo, o pelo se espalhou pelos braços do ex-Beta. Dessa vez, Bea viu os olhos dele mudarem para os do Lobo antes que ele se virasse e avançasse em direção à janela. Ela se enfiou de novo sob o piano, escondendo-se atrás do banquinho e rezando à Deusa para continuar invisível.

— Querida. A gente não está dizendo que quer que você seja tirada de nós. A gente quer o melhor pra você e, embora o Dax não seja mais o que era, vocês já se amaram um dia, não é?

— Amamos? Claro que eu amei ele. Ele ia herdar o trono. Ele ia ser o Alfa. Ele era tudo o que eu queria num parceiro. O que ele é agora? E o que eu vou fazer com Billiahs? — Bea tinha ouvido falar do talento de Savonnuh no piano. Ela era famosa no mundo inteiro. — Eu tenho sonhos, mãe. Eu FINALMENTE fui aceita em Billiahs. Já está tudo certo pra eu ir embora na primavera que vem. Até o Dax sabia, antes do acidente, e ele estava de boa com isso. Só porque o cérebro dele virou mingau AGORA não quer dizer que ele não entenderia. Eles não podem me obrigar a casar com ele agora.

Visca se virou da janela, mas Jules falou primeiro:

— Eu sei, meu amor. Eu sei que você tem sonhos, e você tem razão; ele ia ser o próximo Alfa, mas…

O silêncio caiu, e Bea podia ouvir a respiração pesada de Visca.

— Mas o quê? Mas agora ele não consegue nem limpar a própria baba.

Com medo demais pra espiar por trás da poltrona, Bea não viu o que Visca fez, mas ouviu o tapa de pele contra pele e só pôde supor que o ex-Beta tinha estapeado a própria filha.

— Você não vai envergonhar o nosso nome. Você não teria sido aceita em Billiahs se não fosse por mim! — O tom de Visca era baixo e mortal. — Você deseja que todos nós morramos? Depois de tudo o que a gente sacrificou pra te deixar feliz, você VAI fazer isso pela nossa família. Você vai parar de ser uma criança mimada e petulante e vai se preparar pra partir. Pro seu casamento.

Bea ouviu passos se afastando, junto com o abrir e o bater da porta da biblioteca. Logo depois, Savonnuh desabou no chão, num monte, chorando. Entre os soluços, Bea escutava a mãe tentando consolar a filha, mas nada parecia adiantar.

As pernas de Bea começaram a dar cãibra, e ela sentia o suor escorrendo pelas costas. Não tinha certeza de quanto tempo ainda conseguiria ficar escondida debaixo do piano.

Savonnuh já não chorava mais, mas nenhuma das duas tinha saído da sala. Bea não conseguia ver por cima do sofá, então não fazia ideia do que estavam fazendo.

A voz de Jules rompeu o silêncio primeiro, falando com delicadeza com Savonnuh:

— Minha doce, doce filha. Eu sinto muito que isso esteja acontecendo. Se eu pudesse tirar isso de você, eu tiraria, mas não há nada que eu possa fazer pra mudar a cabeça do Alfa. Eu sei que parece que seus sonhos estão acabando, mas a gente não conhece o próprio destino. Conhece? Pense no que você vai assumir.

Jules se levantou, e Bea a viu olhando para a filha por um breve momento antes de se virar para o piano e caminhar até lá.

— Você vai ter uma casa inteira sob o seu comando. Se quiser continuar tocando piano, então continue. Se quiser viajar, use o dinheiro do Príncipe e viaje. — Ela parou ao lado do piano. Bea sentiu o perfume do banho daquela manhã. O coração de Bea disparou no peito, rufando nos próprios ouvidos.

Pareceu uma eternidade até Jules se virar e voltar para a filha.

— Você vai ser uma Princesa, minha querida. Agora parece tudo escuro, mas isso está longe de ser verdade.

Bea ouviu o farfalhar de roupas e passos leves, mas vagarosos, antes de a porta da biblioteca se abrir e se fechar. Então o silêncio tomou conta da sala.

Bea desabou no chão, estirada, abrindo braços e pernas o máximo que conseguia. O coração ainda batia como um tambor indo pra guerra.

Isso foi por um triz! Bea pensou, antes de fechar os olhos e deixar o medo e a tensão se esvaírem do corpo.

Até sentir uma mão, com unhas, cravar no seu antebraço e puxá-la com brutalidade debaixo do piano.

— Sua Criaturazinha nojenta! — Os olhos de Bea se arregalaram, dando de cara com o rosto furioso da mãe, Jules.

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