Rompendo o Pacto Sagrado

Quando me pregaram ao altar no coração da fortaleza do Rei Demônio, até respirar virou um luxo.

Um pilar de luz despencou do teto abobadado — branco, ardente — como uma estaca em brasa fincando meu corpo nos sigilos sagrados sob mim.

Meu sangue não jorrou. Foi extraído ao longo das linhas gravadas do círculo, lento e constante, como um imposto calculado.

Eu não conseguia mexer um dedo. Não conseguia levantar as pálpebras. Tudo o que eu podia fazer era ouvir.

A porta da câmara lateral não tinha sido fechada por completo. Cada palavra escapava pela fresta e perfurava meu crânio.

Foi quando eu entendi: eu não era um herói.

Eu era descartável.

Minha esposa — Santa Lia — estava chorando, chorando como se tivesse sido forçada ao mal contra a própria vontade.

“Syne… eu nunca quis me casar com ele”, ela engasgou, entre soluços. “Mas se eu me casasse com você…”

“Mas se você se casasse comigo, o Pacto Sagrado me vincularia”, Syne respondeu, calmo como se estivesse discutindo ração de tropa.

“Então eu não posso deixar o Pacto cair sobre você!”, a respiração de Lia falhou. “Mas ele vai morrer.”

“Heróis foram feitos para morrer”, Syne disse, seco. “O Templo precisa de um ‘mártir’ para manter o povo obediente. A gente dá um. Escolher um ninguém do interior foi a opção mais limpa — sem sobrenome de família, sem facção, sem ninguém para criar problema. Assim que ele morrer no altar, eu entro como o amigo enlutado e assumo mais autoridade de comando. O Templo vai confiar ainda mais em mim.”

Lia se calou por alguns instantes, como se procurasse um último fiapo de consolo. “Mas isso… é cruel.”

Syne soltou uma risadinha, uma vez. “É o melhor desfecho. A gente fica junto e nunca paga o preço do Pacto.”

Meu peito pareceu entupido de limalha de ferro em brasa — queimando, rasgando, me sufocando por dentro.

Então era isso que “escolhido pelos deuses” significava.

Eles tinham escolhido o substituto mais útil.

A luz apertou de novo. Minha consciência afundou. No último segundo, eu não implorei. Eu não chorei.

Eu gravei cada palavra que eles disseram nos meus ossos.

E então eu morri.

Arregalei os olhos e puxei uma lufada de ar que tinha um gosto levemente doce.

Não o fedor de sangue e cinza do castelo do Rei Demônio.

Incenso.

Incenso sagrado — dentro da Grande Catedral da Capital Real.

Acima de mim, vitrais estilhaçavam a luz do sol em lascas de cor sobre o mármore branco, como uma celebração encenada com antecedência.

Eu estava de pé no centro do altar. Sob minhas botas, havia o círculo divino bordado com fios de ouro.

Três meses antes.

Eu tinha voltado.

E, no instante em que voltei a respirar, soube de outra coisa — meu corpo não tinha sido reiniciado para “antes da guerra”. Cada grama de força pela qual eu sangrara na minha última vida ainda estava aqui. O campo de batalha do Rei Demônio a tinha forjado em mim, e seja lá o que me trouxe de volta não a tirou.

O Alto Arcebispo se aproximou com o suntuoso Livro do Pacto Sagrado acomodado entre as duas mãos. Sua voz ecoou, solene como uma sentença.

“Ellen, Herói escolhido. Ajoelhe-se. Jure-se a Santa Lia. Assine o Pacto Sagrado. Você a tomará por esposa, a servirá todos os seus dias e oferecerá sua vida ao reino.”

Os bancos estavam lotados de nobres. Os olhares eram todos iguais — desprezo, curiosidade, o prazer de ver um camponês ser colocado no seu lugar.

O filho de um ferreiro do interior se casando com uma santa? Então era melhor ajoelhar depressa.

Lia estava à minha direita. Vestes brancas se acumulavam aos pés dela, e uma radiância sagrada orbitava seu corpo como uma coroa. Seus olhos eram gentis, seu sorriso, perfeito — a exata face que uma santa era treinada para exibir.

Nas sombras do corredor lateral, eu nem precisava olhar para saber que Syne estava lá.

Ele estava sorrindo.

Porque sabia o que o Pacto realmente era.

Uma coleira na alma. Um contrato que transformava um herói plebeu em propriedade.

O Arcebispo abriu o livro. Linhas de cláusulas rúnicas serpenteavam pela página como correntes vivas.

Aquilo não era um voto.

Era servidão por contrato disfarçada de santidade.

Ele me ofereceu a pena, baixando a voz com o peso de uma ordem. “Assine. Não deixe o povo esperando.”

Estendi a mão —

E não peguei.

Em vez disso, recuei um passo.

Foi como se eu tivesse dado um tapa na catedral inteira.

O silêncio se esticou, tenso. Então sussurros se ergueram como uma maré.

“O que ele está fazendo?”

“Um camponês ousa envergonhar o Templo?”

“Ele realmente acha que é alguém agora?”

Os cílios de Lia tremeram. O rosto permaneceu santo, mas o lampejo de pânico por trás dele era impossível de esconder.

Ergui o olhar para o altar e para a multidão. Minha voz não era alta, mas alcançou a todos.

“Eu vou lutar pelo povo”, eu disse. “Vou sangrar na linha de frente. Mas não vou assinar um pacto que me tira a condição de pessoa.”

A expressão do Arcebispo endureceu. “Você blasfema contra a vontade divina. O Pacto é honra. É tradição, santificada há mil anos.”

“Tradição não é a mesma coisa que o certo”, respondi, encarando-o. “Vocês embrulham escravidão na palavra ‘honra’. Se eu assinar, não serei um herói. Serei uma ferramenta — registrada sob o nome da santa.”

O alvoroço cresceu.

Os nobres estavam furiosos — não porque eu estivesse errado, mas porque eu tinha dito em voz alta a parte que se diz baixinho. O sistema só funcionava se os plebeus permanecessem gratos por suas correntes.

O Arcebispo engoliu a raiva. Ele não podia me agarrar no meio da cerimônia sem parecer culpado.

Então escolheu uma máscara mais limpa.

“O rito está suspenso”, anunciou, erguendo a mão. “Conduzam o Herói à capela lateral para reflexão. Assim que ele compreender as necessidades do reino, retomaremos.”

Dois guardas do Templo se aproximaram. Eu não resisti. Deixei que me levassem.

Ao passar pelo altar, virei a cabeça na direção do corredor lateral.

Syne estava lá, exatamente como eu sabia — sorrindo como um homem assistindo a uma peça cujo final ele já tinha comprado.

Encontrei seus olhos.

Sem raiva. Sem provocação.

Porque desta vez ele não controlaria o desfecho.

As portas da capela lateral se fecharam, cortando o barulho. Restou apenas o incenso enjoativo.

Encostei-me a um pilar de pedra. Meus dedos ainda lembravam o frio do altar — o jeito como o círculo havia me drenado até não sobrar nada.

Aquela morte tinha me ensinado uma coisa:

Enquanto eu “cooperasse”, eles continuariam enfiando a faca.

A porta se abriu.

Lia entrou sozinha, sem assistentes. A expressão trazia aquela calma santificada e polida, mas a voz vinha afiada de repreensão.

— Ellen, eu segurei o Arcebispo por você — disse ela. — Mas você não devia ter feito aquela cena. O Templo está furioso. Os nobres estão rindo.

Olhei para ela.

— Você veio me convencer a assinar.

As sobrancelhas dela se franziram. Ela mudou para a cordialidade — a ensaiada.

— Eu vim te salvar. Se você simplesmente assinar, o Templo vai te conceder terras, títulos, honra. Depois disso, qualquer coisa que você quiser, eu posso te ajudar a negociar. Você só precisa… cooperar.

— Cooperar — repeti. — Pra você me amarrar pro resto da vida?

Lia mordeu o lábio.

— Por que você insiste em fazer parecer tão feio? Isso é pelo reino. Sem o Pacto, seu poder não consegue ressoar com o meu. O Templo não vai te apoiar. Você vai ficar isolado.

Ela não estava mentindo por completo — só mentindo por omissão. A “ressonância” que o Templo pregava não era romance nem destino. Era um circuito de controle: o Pacto Sagrado ligava meu núcleo ao dela e, por meio dela, à rede de altares do Templo. Minha força amplificaria os milagres dela — enquanto a autoridade dela poderia sufocar a minha sempre que eu desobedecesse.

Dei um passo mais perto e falei de um jeito ainda mais direto — mais duro, mais limpo.

— Você não está me pedindo pra assinar por minha causa — eu disse.

Foi assim na minha última vida. Lia queria manter a posição — e proteger o futuro de Syne.

Ela não queria se casar comigo. Mas precisava de um herói para satisfazer o Templo, então queria um marido obediente só no nome… um que morresse direitinho quando chegasse a hora.

A cor sumiu do rosto dela, como se alguém tivesse arrancado o véu em público.

— Eu não… — a voz dela tremeu. — Eu me sinto culpada. Eu vou compensar você. Eu vou…

— Compensar como? — interrompi. — Com terras? Com um título? Ou com a frase “me desculpa tanto”?

Os olhos dela ficaram vermelhos.

— Você não consegue entender? Desde criança me ensinaram que isso é dever. Eu também estou sob pressão, eu…

— A sua pressão não sou eu que vou pagar — eu disse, encerrando. — Eu já morri uma vez pelo seu arranjo. Não vou fazer isso de novo.

Lia ficou imóvel.

— O que você quer dizer com… morreu? O que você quer dizer com “de novo”?

Eu não dei espaço pra ela correr atrás disso. Eu enfiei o ponto e fechei.

— Vou ser bem claro — eu disse, a voz estável, sem se elevar. — Eu sou um homem livre. Seu Pacto, seu casamento, seu roteiro de sacrifício — nada disso vai no meu pescoço. Não venha falar comigo de novo.

Virei as costas e saí.

Ela ficou para trás, parada ali como se tivesse acabado de perceber que o homem que ela achava que podia conduzir com algumas palavras doces já não pertencia ao mundo dela.

O ar frio bateu no meu rosto quando entrei no corredor.

Virei a esquina —

E dois cavaleiros em pesada armadura de aço negro bloquearam meu caminho. A armadura deles captou a luz das lâmpadas em reflexos duros. O brasão em seus peitorais pertencia à Ordem dos Cavaleiros.

O alcance de Syne era rápido.

O cavaleiro da frente falou com educação, mas a mão dele já estava meio erguida. “Herói Ellen. O Vice-Comandante solicita uma palavra. Seu comportamento hoje causou problemas desnecessários. Nós vamos levá-lo.”

O segundo cavaleiro ficou um pouco atrás, fechando qualquer rota de fuga.

Eu parei. “Saia da frente.”

“Uma vez que você recusa o Pacto Sagrado, deixa de ser um hóspede protegido”, disse o cavaleiro, a voz esfriando. “Estamos sob ordens para corrigir isso.”

Ele estendeu a mão para o meu ombro.

Eu não puxei uma lâmina.

Eu não precisava.

Meu corpo se moveu antes do pensamento — a memória muscular entalhada em mim na fortaleza do Rei Demônio. Eficiente. Brutal. Rápido o bastante para que a luta terminasse antes mesmo de começar.

Escapei do agarrão, prendi o pulso dele e enfiei o cotovelo na articulação. Depois, deixei meu peso cair e torci.

O osso se deslocou com um som de madeira seca estalando.

“—AAH!”

O grito dele mal teve tempo de se alongar antes que eu girasse, afundasse o ombro e o arremessasse para baixo.

Bam.

Um cavaleiro de quase cem quilos, de armadura completa, atingiu o mármore com tanta força que as lajotas se racharam em teias para fora. O braço dele dobrou para o lado errado. O elmo bateu na pedra com um baque surdo e feio.

O segundo cavaleiro ficou rígido, o rosto perdendo a cor. O olhar dele mudou — não era mais “alvo”.

Agora era “predador”.

Ergui a cabeça, preguei nele um olhar calmo e fiz uma pergunta simples.

“Quer deitar também?”

Ele recuou meio passo, a garganta subindo e descendo. Não se mexeu de novo.

Soltei o cavaleiro com o braço quebrado, passei por cima do mármore estilhaçado e continuei andando. Minha respiração se manteve firme. Meu coração não disparou.

Syne queria usar a Ordem para me empurrar de volta para a jaula.

Eu respondi com um fato:

A jaula não me segura.

Ao mesmo tempo, no gabinete no alto da torre do palácio real —

Chegou um relatório urgente, selado com o sinete real.

Uma mão usando um anel de sinete real quebrou a cera e desdobrou o pergaminho. As linhas eram nítidas e inconfundíveis.

—O Herói se recusou a assinar o Pacto Sagrado durante a investidura.

—Entrou em confronto com a Ordem dos Cavaleiros. Subjugou um elite em armadura completa com as próprias mãos. Avaliação de ameaça: extremamente alta.

A Princesa-Maga Navthia leu uma vez. Depois, seus lábios se curvaram — não em calor, e sim em interesse.

“Com as próprias mãos”, murmurou ela. “Agora isso parece a arma de que eu preciso.”

Ela ergueu o olhar em direção à catedral, e sua ordem saiu limpa e absoluta.

“Tragam-no até mim. Não acorrentado. Não sob escolta. Convidem-no. Quero conhecer o herói que se recusa a se ajoelhar.”

Na outra ponta do corredor, eu parei e flexionei o pulso uma vez, confirmando que a força ainda estava ali — cada tendão, cada articulação.

Desta vez, eu não assinaria o destino de mais ninguém.

Em seguida, seria a minha vez de escrever o deles.

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