A santa chora, os nobres riem

Pisei no mármore rachado como teia de aranha e não olhei para trás.

Atrás de mim, o cavaleiro que havia hesitado ainda tremia. O outro estava de joelhos sobre a pedra estilhaçada, com o braço torcido num ângulo impossível. O grito dele saía abafado pelo elmo — apenas respirações quebradas e horríveis vazando para fora.

As lamparinas do santuário esticavam minha sombra pelo corredor como uma passarela.

Como uma estrada aberta para mim.

Uma estrada para uma jaula maior.

Virei a esquina — e o corredor explodiu em luz.

Não por causa das luzes da capela.

Mas por tochas e lâmpadas mágicas carregadas por uma multidão.

Passos. O raspar das placas de armadura. O clique seco e confiante de botas nobres sobre o mármore.

Eles invadiram tudo de uma vez e selaram a passagem.

Rápido demais.

Como se estivessem me esperando.

Um cavaleiro arqueiro loiro deu um passo à frente, o brasão da família brilhando na ombreira como ostentação. Os olhos dele passaram pelo cavaleiro que eu tinha lançado contra a pedra. A boca se contraiu — só por um instante — e então se acomodou num desprezo mais profundo e mais feio.

Leo.

— Então é aí que você está. — Ele sacudiu a capa como se estivesse entrando no próprio salão de baile. — Ouvi dizer que você trancou a Santa do lado de fora da capela lateral. E derrubou um cavaleiro da Ordem.

Ele ergueu a mão.

Atrás dele, jovens nobres e cavaleiros de alta patente da Igreja se espalharam, os escudos se encaixando com um estalo metálico — formando um anel de aço.

Reconheci rostos. Os que mais riam durante a cerimônia. Os que tinham gostado de ver um “garoto do interior” ser colocado no seu devido lugar.

Os olhares deles deslizaram por mim em direção ao lugar de onde eu tinha vindo.

A porta da capela lateral continuava fechada.

Mas a luz vazava pela fresta, e a barra de uma túnica branca tremia do outro lado. Lyra estava encostada na porta, escutando. Não saiu — não precisava. Só a ideia dela já bastava para inflá-los de uma excitação justiceira.

Para eles, a Santa de olhos avermelhados era uma deusa ofendida.

E eu era um ninguém nascido na lama ousando manchar o sagrado.

— Ele realmente fez isso.

— Plebeus conseguem um golpe de sorte e já acham que podem negociar com o Templo.

— Fez a Santa chorar — vão esmagá-lo por isso.

Os sussurros tinham aquele verniz de festa da alta sociedade — crueldade sorridente fantasiada de civilidade.

Leo não tinha pressa. Ele gostava de ter plateia.

Ele se deslocou para o lado, e um sacerdote se aproximou carregando um tomo pesado. As páginas estavam lotadas de sigilos e cláusulas, com as margens entupidas de adendos em letras miúdas — uma rede elegante feita para se apertar no instante em que você parasse de lutar.

— Uma cópia do Convênio Sagrado — anunciou o sacerdote, com voz solene e olhos mortos, como se estivesse apresentando uma transferência de propriedade. — Herói Alan, o Templo lhe concede uma última chance. A ofensa de hoje pode ser perdoada como “impulsividade juvenil”. Ajoelhe-se. Curve-se diante da Santa. Assine.

Leo assumiu a palavra. Sua espada já estava desembainhada, encantamentos prateados rastejando pela lâmina como geada viva.

—Raspe os joelhos no mármore —disse ele, friamente. —Deixe que se lembrem das regras. Depois ponha sua marca na página. Caso contrário...

O sorriso dele ficou mais afiado.

—...você não sai desta catedral.

O cavaleiro-chefe da Igreja avançou, a armadura pesada, a voz ainda mais dura. —Recusar o Pacto é recusar o Oráculo. Você não está fazendo birra. Está blasfemando contra o divino e traindo o reino.

Atrás da porta, a voz de Lyra chegou até nós — suave como uma prece, afiada como uma permissão.

—Leo... não machuque ele. Ele só está... agindo por impulso.

Ela estava representando o papel da misericordiosa.

E, ao mesmo tempo, me cravando no lugar: um plebeu impulsivo, precisando de “correção”.

Hibor abriu caminho no meio da multidão, o rosto corado pelo calor de um poder emprestado. —Camponês ingrato! A Santa concordar em se casar com você é como se seus ancestrais estivessem soltando fogos no túmulo — e mesmo assim você recusa? Quem você pensa que é?

Olhei para eles e quase ri.

Na vida passada, eu morri sobre um altar, e eles cantaram hinos para mim. Derramaram algumas lágrimas elegantes.

Nesta vida, eu me recusei a assinar uma coleira — e eles já estavam prontos para quebrar meus ossos em público.

Sagrado?

Honra?

Só uma estratégia de contenção de custos vestida de ouro.

Não peguei o livro. Nem sequer olhei para as cláusulas.

Ergui os olhos e deixei que corressem por eles — Leo, Hibor, os cavaleiros da Igreja — como quem examina uma fileira de ferramentas bem alinhadas.

—Quer que eu me ajoelhe? —Minha voz continuou plana. —Os nobres estão tão acostumados com isso assim? Todo mundo pagando pela dignidade de vocês?

Os olhos de Leo se estreitaram. —Você ainda ousa retrucar?

Inclinei o queixo na direção do tomo e soltei um muxoxo curto e cortante.

—Se vocês veneram esse contrato — essa escritura de venda da alma — como se fosse sagrado...

Meu olhar virou gelo, cada palavra caindo como um martelo.

—Então por que não assinam vocês mesmos e vão morrer na linha de frente por ela?

O corredor ficou em silêncio, como se alguém tivesse roubado o ar.

Eu não parei. Arranquei de vez a cortina do “bem maior” deles.

—Quem quiser ser um cão de decapitação nobre e respeitável — vá assinar.

—Parem de usar a hipocrisia de vocês como uma corrente no meu pescoço.

—Seu...! —Hibor tremia de raiva. —Você ousa chamar o Pacto de escritura de venda? Você ousa...

O rosto de Leo se contraiu. Eu tinha atingido a ferida de verdade: eles gritavam mais alto, mas nenhum deles entregaria o próprio futuro.

Então ele fez o que os nobres sempre fazem quando a lógica os encurrala.

Transformou a questão em sangue.

—Lixo vulgar nascido da lama. —Leo zombou, a ponta da espada subindo até meu peito. —Você nasceu para obedecer. Só está de pé aqui pela graça do Templo e pela misericórdia da Santa. Você não tem o direito de falar de contratos — muito menos de liberdade.

Dei um passo mais perto, deixando a ponta pressionar o tecido das minhas roupas.

Não estremeci.

Porque eu entendia perfeitamente as regras da “misericórdia” deles: não apunhalariam o Herói até a morte em público.

Mas o deixariam aleijado.

Um herói que não conseguia brandir uma espada ainda podia assinar.

Encarei-o, com os olhos pesados como pedra. “Então a sua ‘graça’ é eu entregar a minha vida… pra vocês sentarem nas arquibancadas e baterem palmas?”

O comandante dos cavaleiros da Igreja latiu: “Chega! Mais uma palavra difamando o Templo—”

“Difamando?” Cortei, interrompendo-o. “Os termos estão bem ali. Alma jurada ao Templo. Você pode lê-los. Eu posso lê-los. A diferença é—”

Inclinei-me só um pouco.

“—vocês decidem como a minha ‘oferenda’ vai ser usada.”

A respiração ao nosso redor mudou. Incerta. Tensa.

Nobres não têm medo de insultos.

Têm medo de serem vistos.

Leo finalmente largou o teatro.

Ele bateu a mão para baixo, a voz estalando como um chicote. “Segurem-no. Façam-no marcar a página. Se ele não quiser assinar—quebrem as articulações dele. Arrastem-no de volta até o altar e façam-no assinar.”

Espadas saíram ao mesmo tempo. Encantamentos cintilaram.

Três lâminas atacaram de três ângulos, precisas como “violência legal” treinada—ombro, cotovelo, joelho. Não para matar.

Para arruinar.

Atrás da porta, Lyra puxou o ar—mas ainda assim não saiu.

Ela ainda hesitava.

Não queria que eu morresse… mas queria ainda menos o Pacto sobre o seu precioso cavaleiro de infância, Zion.

Meus olhos ficaram frios.

O instinto assassino que eu tinha forjado na fortaleza do Rei Demônio despertou dentro dos meus ossos. Meu corpo se moveu antes do pensamento—o centro baixando, os nós dos dedos se retesando, os dedos se fechando.

Meio segundo.

Antes de o primeiro golpe atingir, eu podia agarrar o pulso do cavaleiro da frente, torcer para dentro, cravar um cotovelo na garganta dele—e dobrar o pescoço como pergaminho molhado.

Depois o segundo.

Depois o terceiro.

Eu não queria sangue numa catedral.

Mas eles estavam forçando isso.

Bem quando eu ia explodir—

BUM.

Um raio feroz despencou de cima e se chocou contra os arcos cruzados das espadas.

A explosão estalou como o rabo de um predador.

Três lâminas encantadas se despedaçaram em pó cintilante. Fragmentos prateados e granulado chamuscado se espalharam pelo mármore. Os cavaleiros da Igreja foram arremessados para trás, os corpos blindados raspando e guinchando.

Leo cambaleou, com o braço tomado por uma dormência. A espada escapou de seus dedos e bateu no chão com um tilintar limpo, humilhante.

Silêncio.

Passos se aproximaram da extremidade oposta do corredor—sem pressa, firmes, pesados o bastante para esmagar os pulmões de todo mundo.

Um manto azul-profundo.

Fio de ouro real.

Cabelo curto, afiado.

Olhos frios como um lago de inverno.

Princesa Nefertia—a Primeira Princesa.

Ela ergueu a mão. A eletricidade ainda dançava nas pontas dos dedos. Sua voz não era alta.

Não precisava ser.

“Espancar o Herói do reino dentro da catedral?”

O comandante se forçou a ficar de pé. “Vossa Alteza, isso é um assunto interno do Templo—”

Nefertia levantou um dedo.

Um estalo de relâmpago explodiu aos pés dele, fazendo o mármore estilhaçar.

“Interno?”, disse ela, sem alterar o tom. “Aqueles três golpes teriam deixado o reino com um Herói aleijado. É isso que você quer que a nação inteira veja?”

“Que a ‘dignidade’ do Templo é mantida quebrando ossos?”

Leo cerrou a mandíbula e tentou se agarrar à arrogância nobre. “Vossa Alteza, ele recusou o Pacto. Ele insultou a Santa—”

Nefertia finalmente olhou para ele. O olhar pousou como o lado cego de uma lâmina no rosto dele.

“Vai me dar lição sobre insultos?”

Depois disso, ela o ignorou e voltou os olhos para a porta da capela lateral, com a voz mais fria.

“Santa Lyra — já que está escutando — você realmente acredita que o que eles estão fazendo é ‘para o bem maior’?”

Lá dentro: silêncio absoluto.

Lyra não respondeu.

Aquele silêncio cortou mais fundo do que qualquer desculpa.

Nefertia recolheu o olhar e deu um passo até mim, ficando a meio passo de distância — perto o bastante para garantir que ninguém pudesse empurrar minha cabeça para baixo de novo.

Ela me avaliou. “Agora há pouco — o que você estava prestes a fazer?”

Eu não expliquei. Não amenizei.

“Fazer o que eu precisava.”

Um lampejo de interesse atravessou os olhos dela — e então sumiu, enterrado sob controle.

Ela se virou, e sua voz carimbou o corredor como um selo real.

“Todos — embainhem as armas. Quem puxar aço de novo — será tratado como alguém desafiando uma ordem em tempo de guerra.”

Os nobres congelaram.

Os cavaleiros da igreja empalideceram.

Mas baixaram as lâminas.

O poder mudou num único fôlego: naquele corredor, a palavra da Princesa pesava mais do que a do Sumo Arcebispo.

Nefertia me lançou um olhar. “Alan. Você vem comigo.”

Então ela fez uma pausa e acrescentou — alto o bastante para que todos ouvissem.

“Não está preso. Foi convidado.”

Eu pisei por cima de pedra chamuscada e pó de espada e a segui.

Ao passar, Leo sibilou por entre os dentes, com a raiva bem comprimida. “Acha que a Princesa vai te proteger para sempre? O Templo vai te ensinar — recusar o Pacto só termina de um jeito.”

Não olhei para trás.

Porque eu já tinha visto o tabuleiro maior — um canto dele arrancado e exposto.

A Primeira Princesa intervir significava que Zion e o Templo não podiam mais me tratar como um cachorro na coleira.

E, no corredor lateral sombreado da catedral, eu podia sentir um olhar familiar.

Zion estava observando.

Pela primeira vez, ele entendeu:

o “descartável do país” que ele escolheu não apenas mordia —

tinha sido tomado pela Coroa.

A seguir, Zion atacaria com mais força.

E mais rápido.

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