Sacrifício limítrofe

Relâmpagos ainda rastejavam pelo chão de pedra. As marcas de queimadura pareciam feridas negras, roendo os fragmentos estilhaçados de aço.

Ninguém no corredor ousava respirar.

Naphthia estava no centro do desenho da queimada, faíscas dançando na ponta dos dedos. Seus olhos eram frios — frios como um lago no inverno. Ela virou o rosto de leve e deixou cair a frase como um selo real.

— Aaron. Venha comigo. Não está preso — é um convite.

Eu dei um passo.

Aplausos se ergueram das sombras.

Lentos. Calculados. Como se alguém lembrasse a sala: isto não é o palácio. Isto é solo sagrado. Uma princesa pode virar a mesa — mas sempre vai ter alguém tentando recolocar as peças no lugar.

Sain saiu do corredor lateral, as dragonas prateadas impecáveis, quase ofensivamente impecáveis.

Ele ofereceu a Naphthia uma reverência tão perfeita que não havia como criticar.

— A presença de Vossa Alteza poupou ao Templo a sua dignidade — disse Sain, a voz refinada. — No entanto… se isto for conduzido de maneira inadequada, pode prejudicar as relações entre a Coroa e o Templo.

Naphthia nem sequer ergueu uma sobrancelha.

— Você está me ensinando como conduzir isso?

— Eu não ousaria — Sain continuou sorrindo. — Estou apenas aqui para limpar as consequências. Se o Herói for levado pela Coroa esta noite, o que o mundo vai pensar? Vão dizer que o Templo oprimiu o Herói e que a Coroa precisou intervir e tomá-lo para si. A fé do povo vai se dividir. A fronteira vai tremer. Os monstros vão farejar fraqueza.

Cada palavra soava como política. Na verdade, ele estava lhe oferecendo uma corda — feita para amarrar as próprias mãos dela.

Leo, Hiber e a sua turma se agarraram a isso imediatamente, cabeças baixas num assentimento ávido.

— O Comandante Adjunto fala com sabedoria.

— O Reino não pode se dar ao luxo do caos.

— Um Herói requer supervisão e orientação adequada.

O olhar de Naphthia varreu todos eles como se ela estivesse encarando uma pilha de lixo falante.

— Engraçado. Quando vocês estavam tentando arrancar os membros dele, não estavam pensando na fé do povo.

Sain suspirou, o retrato da sensatez.

— Exatamente por isso eu intervenho. Vossa Alteza — conceda-me a chance de encerrar isto de um jeito que preserve a honra de todos.

Ele se voltou para mim, e seu tom amaciou uma fração, como se estivesse me fazendo um favor.

— Aaron recusa o Pacto Sagrado por medo e desconfiança. O Templo pode abrir uma exceção — nada de assinatura imediata, nada de cerimônia forçada. Publicamente, podemos dizer que “o Herói ainda precisa ser temperado” e evitar lançar dúvidas sobre o oráculo.

— Mas… — A voz dele mudou de eixo. Veludo por fora, lâmina por dentro. — O Herói precisa provar que não é um falso Herói. Do contrário, viverá para sempre sob a sombra da proteção de Vossa Alteza. No instante em que ele sair do seu campo de visão, a opinião pública vai despedaçá-lo.

Naphthia finalmente olhou diretamente para ele. “Então. Sua proposta?”

Sain ergueu a mão, apresentando uma resposta que escrevera muito antes daquele momento.

“Formar um ‘Esquadrão de Guardiões’, designado em conjunto pelos Cavaleiros e pelo Templo. O Herói se junta a eles. Ao amanhecer, partem para a fronteira para concluir uma purga de monstros de baixo risco. Uma vitória vai calar as dúvidas — e mostrar ao reino que a Coroa, o Templo e os Cavaleiros estão lado a lado.”

Então ele acrescentou o golpe final — passando a faca para a princesa, embrulhada em cortesia.

“Vossa Alteza pode aprovar pessoalmente. Assim, o Herói não está sendo levado embora — está sendo confiado à linha de frente pela Coroa. Sua autoridade só vai aumentar.”

O corredor voltou a ficar em silêncio.

Esse era Sain no auge do perigo. Ele não estava batendo de frente com a princesa. Estava usando o nome dela para me despachar para a fronteira.

Um estalo fino saltou das pontas dos dedos de Naphthia.

Ela olhou para mim como se perguntasse: Quer que eu destrua isso aqui e agora?

Eu não pedi ajuda.

Apenas sustentei o olhar de Sain, firme e sem expressão.

Da última vez, ele me pregou ao altar porque todo mundo acreditava que ele estava “protegendo o bem maior”.

Desta vez, ele pretendia me embrulhar na mesma pele.

Naphthia sorriu — afiado e raso. “Baixo risco? Tem certeza?”

Sain não hesitou. “Pela minha honra como Comandante Adjunto. Uma varredura rotineira na fronteira.”

Naphthia assentiu como se estivesse convencida. “Certo. Aprovado.”

A boca de Leo se curvou de imediato. Os olhos de Hiber se acenderam.

Eles acharam que ela tinha escolhido o lado deles.

Então o tom de Naphthia mudou — como uma lâmina de relâmpago selando cera.

“Mas vou acrescentar uma cláusula. Cada ação tomada nessa missão deve ser registrada e arquivada sob a Coroa. A autoridade de comando pertence aos Cavaleiros — e também a responsabilidade pela vida e pela morte. Se alguém ousar chamar isso de ‘guarda’ enquanto aplica punição privada, eu mesma vou pregá-lo numa cruz militar.”

O olhar dela pregou Leo no lugar. “Ficou entendido?”

Leo engoliu em seco. “...Entendido, Vossa Alteza.”

Sain permaneceu calmo, ainda com o mesmo sorriso gentil. “Sábia como sempre, Vossa Alteza. Então está tudo garantido.”

Ele não tinha perdido.

Ele não precisava de um massacre fora de controle. Precisava de um jeito legal de me tirar da capital.

E o que a princesa queria era uma coleira em torno do pescoço dos Cavaleiros — tentem qualquer coisa, e a Coroa vai cobrar a conta com execução.

Naphthia se virou para ir embora, o manto roçando a pedra chamuscada.

Antes de desaparecer, ela me deixou uma frase.

“Não morra. Se você morrer, esta aprovação vira a lâmina deles.”

Assenti uma vez. “Eu não vou.”

Os passos dela se apagaram dobrando a esquina.

O olhar de Sain voltou a deslizar até mim — como uma porta se fechando de mansinho.

“Ao amanhecer”, ele anunciou. “Leo e Hiber acompanharão. A Santa Leia servirá como apoio e testemunha.”

Leia surgiu pela porta lateral, os olhos vermelhos — mas a compostura de santa ainda intacta.

Ela me encarou com algo entre decepção e exaustão. “Aaron. Se você tivesse cooperado antes, não teria chegado a isso.”

Eu devolvi com uma única linha. “Este passo foi escrito por você.”

Os lábios dela tremeram. No fim, ela se virou.

Naquela noite, num acampamento provisório no pátio dos Cavaleiros.

Eu me encostei numa parede de pedra, de olhos fechados. Passos pararam diante de mim.

Sain veio sozinho.

O luar talhou o perfil dele em algo perfeito demais, como uma estátua feita para ser adorada.

“Aaron”, ele disse, com leveza. “Hoje você foi bem duro na frente da princesa. Isso não vai te favorecer.”

Não abri os olhos. “Você veio me ensinar a ajoelhar?”

Sain riu baixo. “Vim te oferecer o caminho mais claro. Sem a minha proteção, você vai morrer de um jeito horrível na fronteira. Leo e os outros são jovens — têm a mão pesada.”

“Proteção?” Abri os olhos, calmo como água parada. “A sua ‘proteção’ é você com medo de eu morrer na capital e manchar a cara da sua família. Me mande pra fronteira, e a minha morte vira ‘heroísmo’. Lavem meu cadáver com água benta e pronto, fica limpo.”

O sorriso de Sain congelou — só por um suspiro.

Nessa pausa fina, o calor nos olhos dele se abriu em fenda, deixando aparecer o aço frio por baixo.

“Você está pensando demais.” A voz continuou gentil, mas o calor tinha sumido. “Você devia aprender gratidão.”

Minha voz desceu, mais fria. “Você devia aprender que, quando não consegue controlar alguém, não tem o direito de fingir que é o salvador dessa pessoa.”

Sain ficou em silêncio e então empurrou a emoção de volta para baixo da máscara.

“Amanhã não banque o durão. Sobreviva, e você vai ter o direito de falar comigo.”

Ele se virou e foi embora, passos sem pressa — a intenção de matar dele mais clara do que nunca.

Terras fronteiriças. Crepúsculo.

Uma névoa cinza-esbranquiçada sufocava a mata na encosta do penhasco. O frio úmido se enfiava nas frestas da armadura. O chamado “local de expurgo de baixo risco” não tinha canto de pássaro — só podridão e o gosto de sangue no ar.

Leo segurou o mapa como um comandante de verdade. “Pelo procedimento, o Herói faz o reconhecimento na frente. Nós damos suporte por trás.”

Hiber chutou uma bolsa de suprimentos até os meus pés, com displicência. “A sua parte.”

Dentro: meio pão embolorado e um único cantil de água turva.

Eu não me mexi.

Leo estendeu a mão. “Passe sua arma. Caso você perca o controle e machuque seus ‘companheiros de equipe’.”

Eu lhe entreguei a espada padrão.

Leo a pegou e a jogou para um guarda atrás dele como se fosse lixo.

Então puxou uma lâmina de ferro enferrujada, com o fio todo lascado, e a atirou nos meus braços.

“Aqui.” Ele abriu um sorriso. “Garoto do interior ganha lâmina de interior. Linha de frente. Batedor. Se você pisar numa armadilha e morrer, poupa a gente do trabalho.”

Atrás deles, os nobres riram como se estivessem num piquenique.

Leia segurava o cajado. Seus lábios se mexeram como se ela fosse falar — então ela desviou o olhar.

O silêncio dela tornou a humilhação oficial.

Eu apertei a espada quebrada. Um lasco mordeu meu dedo. Uma linha fina de sangue brotou — e depois secou no vento frio.

Eu caminhei para dentro da névoa.

Um passo. Dois. O estalo de galhos mortos sumiu no branco. A risada deles foi ficando para trás, abafada, distante — como se estivesse embrulhada em pano grosso.

Então—

Um rugido veio de dentro da névoa.

Baixo. Viscoso. Doce de frenesi. Não era um som que qualquer criatura “de baixo risco” pudesse fazer.

Eu parei. Meus olhos se fixaram no tronco à frente — no círculo de símbolos chamuscados gravados na casca.

Uma marca de berserker.

O “compromisso” de Sain finalmente mostrava os dentes.

No segundo seguinte, alguma coisa arrebentou a névoa.

Uma besta aberrante irrompeu do mato, o couro como placas de pedra, os olhos ardendo em vermelho, a baba pingando podridão. Ela se movia como se puxada por uma ordem, ignorando a suposta linha de defesa — mirando direto em mim, bem na frente.

Um vento pútrido bateu no meu rosto.

Aquela goela escancarada mirou a minha garganta.

Atrás de mim, Leo e Hiber deram meio passo sincronizado para trás, com a risada de deboche comprimida, baixa.

“Olhem”, murmurou Leo. “A primeira batalha do Herói.”

Hiber fungou. “Rasga ele. Rápido e limpo.”

Leia enfim ofegou, a voz se partindo. “Aaron—!”

A sombra da besta caiu sobre mim como uma parede desabando.

Eu não recuei.

Abaixei a cabeça, apertando mais o ferro quebrado. Cada músculo do meu corpo se retesou de um jeito que desafiava o bom senso. Minhas articulações estalaram, secas, frágeis.

Nos meus olhos, a intenção assassina do altar do castelo do Rei Demônio se acendeu de novo — pura, implacável, absoluta.

A lâmina quebrada vibrou na minha mão com um guincho áspero de metal — como uma arma forçada a despertar.

As presas estavam a centímetros.

Eu ergui a espada. Minha voz saiu calma. Cruel.

“Vocês querem me ver ser sacrificado?”, eu disse. “Então olhem com atenção — quem é de verdade o sacrifício.”

Na batida seguinte do coração, a luz da espada detonou.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo