CAPÍTULO 4

McKenzie

Depois que ele foi embora, eu só fiquei sentada ali. Eu entendia por que Cynthia estava preocupada. No minuto em que ele entrou, eu fiquei chocada e atônita com a aparência dele. Era um homem bonito. Tinha tatuagens nas partes que eu conseguia ver. Estava de terno e gravata; o rosto era indecifrável, e ele parecia frio e distante. A aura dele dizia que não era alguém com quem se devesse brincar. Eu sabia que muitas mulheres iam querer ficar com ele, principalmente por causa do status. No entanto, eu não tinha certeza de quanto tempo isso ia durar. Eu não ia me deixar levar pelos meus sentimentos. Não podia haver sentimentos envolvidos, senão tudo ficaria às claras.

Eu estava sentada ali quando Marlene se aproximou.

— Está tudo bem, Srta. Pierce?

— Sim, obrigada. Só estou esperando minha amiga deixar minhas coisas. A situação toda é nova para mim, então estou um pouco sem saber como proceder. Desculpe se eu fui rude com você mais cedo. Não foi minha intenção, e eu sinto muito se você se magoou. É só que eu nunca fui tratada desse jeito nem colocada nessa posição antes — eu disse, mantendo as mãos entrelaçadas para que o tremor não aparecesse.

— Que posição? Ser casada com um homem rico? Você vai se acostumar, querida, e eu não fiquei ofendida — ela disse, sorrindo.

— Obrigada, e não, não é ser casada, e sim ser respeitada. Você não precisa fazer nada por mim, Marlene. Minha roupa, meu quarto, minha comida — eu cuido de mim mesma. Não estou acostumada a ter alguém fazendo essas coisas por mim. Eu passo a maior parte do tempo estudando, então, se eu estiver aqui, você vai me ver raramente — eu disse, baixinho.

— E está tudo bem. Você vai fazer assim até ir se acostumando a ter alguém fazendo por você — ela disse, dando um tapinha nas minhas mãos.

Foi então que eu vi Zara entrando.

— Sua amiga chegou. Vou trazer mais bebidas e uns petiscos — ela disse, se levantando.

— Obrigada, Marlene.

Zara veio até mim e se sentou ao meu lado, segurando minhas mãos. Ela já sabia que eu estava tremendo.

— Está tudo bem. Quando você estiver pronta pra sair, é só dizer, e Cynthia vai entender. Eu sei por que você está fazendo isso e eu entendo. Se você precisar de mim, eu sempre vou estar aqui por você — ela disse, baixinho.

— Obrigada, Zara. Se eu não tivesse você e a Cynthia, eu nem sei… — minha voz sumiu.

— E você nunca vai precisar descobrir. Vamos nos atrasar pra aula — ela disse, sorrindo.

Eu me levantei e andei até onde achei que ficava a cozinha. Encontrei Marlene cantarolando.

— Marlene?

— Sim, Srta.?

— Eu vou sair. Tenho aula hoje. Hum… minhas malas estão na sala, eu não tenho certeza…

— Pode ir. Eu cuido disso, não se preocupe — ela respondeu, sorrindo.

— Obrigada. Posso ter seu número, caso aconteça alguma emergência ou…? — eu disse.

— Ele não te deu o número dele? Meu Deus, juro que esse menino precisa levar uma boa surra — ela disse.

Ela me passou o número dela e todos os números dele, inclusive os telefones da casa. Eu me despedi e fui embora. Quando saímos da casa, havia um homem parado ali.

— Sra. Cirano, meu nome é Zach. Eu faço parte da sua segurança. Eu só precisava me apresentar, para a senhora não se assustar se me vir por perto — ele disse, com calma.

Ele me entregou um papel. Imagino que fosse o número dele.

— Meu número, Sra. Cirano. Se precisar de ajuda, não hesite em ligar.

— Certo, obrigada. Por favor, se refira a mim como Srta. Pierce, não como Sra. Cirano. Para mim está ótimo assim. Estou indo para a faculdade de medicina agora — eu disse, com calma.

— Muito bem, Srta. Vou seguir atrás, a uma distância segura — ele disse, caminhando até o carro dele.

Zara e eu nos olhamos. No caminho, ela ficou tagarelando.

— Então… marido bilionário, seguranças, Sra. Cirano? — ela disse, rindo.

— Você sabe que eu não quero nada disso — eu disse, triste.

— Eu sei, gata, mas talvez seja disso que você precisa — ela respondeu, apertando minha mão.

Eu não sabia como me sentir com tudo aquilo. Eu não conseguia colocar em perspectiva. Minha vida pessoal sempre foi caótica, mas, quando se tratava dos estudos, essa era a única coisa de que eu tinha certeza. Na faculdade de medicina, eu podia, de verdade, ser eu mesma. Eu ia tirar aquilo da cabeça. Eu não precisava vê-lo nem conversar com ele. Seria como ter um colega de quarto. Um colega de quarto que nunca poderia me ver nua, nem mesmo em algo diferente das roupas que eu uso. Eu não queria que fizessem perguntas. Cynthia e Zara sabiam, e isso bastava. Eu só precisava ficar na minha e não atrapalhar o caminho dele, e ele não atrapalharia o meu. As provas estavam chegando, e eu tinha muito o que estudar.

Fazia dois meses que eu estava naquela casa, que eu estava casada com ele, e, fiel às palavras dele, eu nunca o via. Marlene era a única pessoa que eu via, além da segurança. Numa manhã, algumas semanas depois, quando eu estava saindo, Marlene me parou para avisar que ele tinha deixado um envelope para mim. Ela me entregou. Quando abri, havia um cartão de crédito dentro, com um bilhete que dizia: “É seu”. Eu não queria nem precisava daquilo. Eu tinha certeza de que, se devolvesse, isso causaria um problema, então levei para o meu quarto e deixei na cômoda.

Zara e eu estamos passando dos limites, estudando por mais horas. Estávamos na biblioteca numa tarde. Só quando meu pescoço começou a doer foi que ergui o olhar.

— Zara, já está escuro lá fora. Que horas são?

Ela me olhou e pegou o celular. — Merda, é uma da manhã. A gente tem aula cedo — respondeu, esfregando os ombros.

— Bom, já que a gente já está aqui, melhor ficar — eu disse, tomando um gole do meu café, agora frio.

— Vamos tomar um café — ela disse, sorrindo.

Por algum motivo, eu nunca contei a ele que ia passar a noite aqui, mas ele sabia. Acho que o Zach estava sempre passando relatório para ele. Nunca me incomodou, porque, se eu não estava em casa, era aqui o único lugar onde eu ficaria.

Darius

Nos últimos dois meses, eu não a vi, mas eu sabia exatamente o que ela andava fazendo. Zach me dava um relatório detalhado uma vez por semana. Ruddy não encontrou nada sobre ela. Nada de pais no registro, nada. Tudo o que ele encontrou é sobre ela a partir dos dezoito anos. Nada antes disso, e isso está me incomodando. Eu disse a ele para continuar procurando. Eu deixei um cartão de crédito para ela, mas ele não foi usado, o que me fez pensar de novo.

Perguntei à velha, e ela só disse: “Cabe a ela contar.” Isso significava que eu não arrancaria nenhuma informação dela. Só vou conseguir isso com a McKenzie. Zach me relatou que ela e a Srta. Zara Mitchell têm passado muitas noites na biblioteca da faculdade de medicina, virando a noite. Ele confirmou que eram só as duas. Chegou a informar que o colega homem dela se mantinha longe. E isso me faz perguntar o que, exatamente, estava acontecendo com ela.

Ela não saía da faculdade de medicina para ir a lugar nenhum. O único outro lugar aonde ela vai é a cafeteria, e só. Que tipo de jovem de vinte anos só estuda e não sai? Só tem aquela amiga; ela também não vai às compras, porque, se fosse, Zach teria dito. Ela está vivendo como uma eremita, ou estava escondendo alguma coisa?

Eu tinha um almoço de negócios numa sexta-feira e estava saindo do restaurante. A filha do Jameson tinha vindo para a reunião; ela estaria por perto com frequência. Acabáramos de sair do restaurante e estávamos voltando para o escritório quando eu a vi. Zach estava atrás dela. Ciana estava ao meu lado.

— Senhor — ouvi Ruddy.

— Eu sei — eu disse; ele estava me avisando que ela estava ali. Ciana continuava falando sobre isso ou aquilo; eu não estava muito interessado no que ela dizia. Foi a primeira vez que eu a vi em público; a Srta. Mitchell estava ao lado dela. Ela passou por mim como se eu fosse um estranho. Nem me reconheceu. Zach assentiu para mim com a cabeça.

— Então, Sr. Cirano, vamos jantar hoje à noite e discutir o projeto com mais calma?

Voltei a prestar atenção quando ouvi ela.

— O Sr. Paul vai acompanhá-la; infelizmente, eu tenho outros planos — respondi, me sentindo um pouco inseguro. Sim, éramos casados. Ninguém sabe porque é assim que eu quero. Então por que diabos eu me sinto mal porque ela passou por mim? Voltei para o escritório e liguei para Zach.

— Onde ela está?

— Senhor, ela e a Srta. Mitchell foram para o hospital; ela tem uma aula lá. Elas estavam almoçando e voltando para as aulas quando o senhor a viu — ele disse.

— Há quanto tempo ela está estudando no centro? — perguntei.

— Hoje é o primeiro dia… Senhor, com licença, ela está vindo na minha direção...

Não consegui ouvir mais nada, mas ouvi ele dizendo sim e não.

— Desculpe, senhor. A jovem senhora acabou de me informar que vai fazer estudos no centro pelas próximas duas semanas. Ela disse para eu avisar o senhor — ele disse.

— Ótimo — eu disse, encerrando a ligação.

Abri o número dela e mandei mensagem.

“Por que você me ignorou?” Não faço ideia de por que diabos isso me deixou puto. Eu era um homem adulto, e estava irritado porque ela me ignorou. Ela respondeu na hora.

“Desculpe, Sr. Cirano. O público não sabe que somos casados, e não temos motivo para falar um com o outro em público. Se isso o incomoda, vou me certificar de não cruzar seu caminho em público.”

Joguei o celular na mesa. Que porra estava acontecendo comigo? Não posso culpá-la; nem é culpa dela. Ela tinha razão. Por que ela falaria comigo em público? Nós não nos conhecemos. Peguei o celular e respondi.

“Tudo bem. Vou voltar tarde hoje à noite.”

“Ok, Sr. Cirano.”

Era isso? Nenhuma pergunta: por quê, onde, com quem? Que porra estava acontecendo aqui? Ela não tinha nenhum interesse nesse casamento, e eu também não, então por que diabos isso estava me incomodando tanto? Empurrei isso para o lado e terminei meu trabalho. Já estava quase dando nove quando Grayson se juntou a mim no meu escritório.

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