CAPÍTULO 5
Darius
“Porra, D. Essa merda dá uma dor de cabeça, mas vale a pena. Você já jantou?”
“Não. Imaginei que você fosse jantar com a Srta. Jameson”, respondi, soltando um meio sorriso.
“Que nada, ela fala demais. Além disso, ela tá a fim de você”, disse ele, brincando com o marcador da mesa.
“Eu já sou casado, não tenho interesse”, falei, erguendo os olhos dos documentos que eu vinha revisando havia duas horas.
“Ah, é? E como isso tá funcionando pra você?” Ele era um babaca, mas quase sempre tinha razão.
“A mesma coisa de sempre. Ela faz as coisas dela; eu faço as minhas. A gente não se atrapalha”, disse, sem querer admitir o que tinha acontecido hoje.
“Então é melhor você mudar isso, ou a Cynthia vai mudar por você. Vamos tomar um café”, falou, levantando-se.
Havia um café pequeno a algumas quadras da empresa. Grayson e eu passamos muitas noites lá. Eram nove horas de uma sexta-feira, e a essa hora sempre era tranquilo. Só havia empresas naquela parte da cidade.
Quando entramos no café, Grayson estava falando do novo estagiário que tinha. No segundo em que pusemos os pés lá dentro, eu a vi. Ela não me viu, então eu me afastei para o lado. Grayson não percebeu, graças a Deus. Ela estava sentada com a Srta. Mitchell. Estava com o laptop e os livros abertos. Deixei o Grayson pedir por nós, e nos sentamos num lugar de onde eu conseguia vê-las e ouvi-las.
“Já volto, Kenzie. Vou ao banheiro e depois a gente volta pra biblioteca”, disse a Srta. Mitchell.
“Tá.”
Nesse momento, alguns caras entraram e foram direto até ela. Imagino que a conhecessem. Hum.
“Ei, McKenzie. Não sabia que você vinha a lugares assim”, disse um deles.
Ela não respondeu. O mais alto só ficou encarando-a.
“Por que vocês não pegam o café, e a gente vai? Me dá um minuto”, disse ele, ocupando o lugar vazio da Srta. Mitchell.
“Então, McKenzie. Você tomou uma decisão?” Que decisão era essa? Ela olhou para ele.
“Este é o meu terceiro ano na faculdade de medicina. Você vem me fazendo essa pergunta. A resposta sempre vai ser a mesma, Jake. Eu não tenho interesse em ter um relacionamento com você nem com mais ninguém. Vou dizer isso uma vez, e só uma vez. Eu já sou casada. Então não pergunte nunca mais”, disse ela, baixinho. Que merda. O jeito como ele olhava pra ela me deixou puto. Eu estava prestes a me levantar e deixar claro que eu estava ali quando vi a Srta. Mitchell vindo na direção deles.
“Ora, ora, ora, Jake. Pelo visto você tá tão desesperado por uma resposta que não aceita um não, mesmo depois de ouvir isso tantas vezes”, disse a Srta. Mitchell, encarando-o. Ele olhou para ela.
“Agora eu entendi. Vocês duas estão juntas; ela é sua namorada. É por isso que vocês vivem grudadas. Porra, por que você não disse que curtia garotas, McKenzie?” O tom era de deboche, e aquilo me incomodou. Eu não gostei da forma como ele estava falando com ela.
Zara passou os braços em volta de McKenzie e apoiou a cabeça no ombro dela.
“Ai, meu Deus, ele descobriu nosso segredo, Kenzie. O que a gente vai fazer agora?” disse Zara, num tom indefeso. Ele se levantou e foi lá para fora, onde os amigos estavam esperando.
“Às vezes eu me pergunto o que eu faria sem você, e aí, em momentos como este, eu tenho vontade de te dar um soco. Você sabe que até amanhã de manhã já vão estar espalhando boatos pelo campus inteiro”, disse McKenzie, olhando para ela. Zara apenas deu de ombros.
“Pelo menos vai fazer aqueles babacas do caralho pararem de dar em cima de você”, disse ela, sorrindo.
“É. Agora eu sou lésbica. O que mais essa sua cabeça maluca vai inventar? Vamos.”
Quando ela se levantou e me viu, hesitou. Manteve a cabeça baixa e saiu andando. Eu tinha esquecido que Grayson estava comigo. Virei e o encontrei me encarando.
“Quer explicar? Eu não sabia que você se interessava por mulheres tão novas.” É, ele não ia deixar passar.
“Às vezes eu me pergunto por que diabos eu ainda sou seu amigo. Aquela é a minha esposa, seu idiota”, eu disse, sem tirar os olhos das figuras que se afastavam. Ele se levantou num pulo.
“Qual delas?”
“A baixinha, cabelo castanho”, eu disse, enquanto ele saía correndo pela porta. Eu o vi voltar alguns minutos depois. Ele se sentou e me olhou.
“Sua esposa é gata, cara?” Agora ele estava com um sorrisinho.
“Eu sei.”
“Então por que diabos você deixa ela andando por aí sem aliança? Você precisa se aprumar. Uma coisa eu sei, Darius: no minuto em que você tornar isso público e eles souberem quem ela é, os tubarões vão começar a cercar — principalmente o Ethan — e você não vai querer ele atrás dela. Você já viu que os colegas de turma dela também estão em cima, então se ajeita e decide o que você está fazendo.”
Eu não disse nada. Não podia, porque eu nem sabia o que eu queria. Voltamos para o escritório.
As últimas semanas tinham sido caóticas. Eu a via pelo menos uma vez por semana, pela casa. Ela não dizia nada, só ficava na dela.
Algumas semanas depois, eu estava no meu escritório analisando uns documentos de uma aquisição. Grayson tinha saído fazia alguns minutos, falando sobre algum clube. Já era tarde, e eu só estava exausto. Estava tudo em ordem, então eu fui embora. No caminho para casa, Ruddy me passou um panorama.
—Fiz mais algumas investigações e encontrei umas coisas, senhor. Angela Davidson e Paul Davidson são os pais dela. Bom, Paul é o padrasto; ele se casou com a mãe dela quando ela tinha três anos. Ele tem um filho, Gabriel Davidson. Ele tinha sete anos quando eles se casaram. O pai dela, Garrett Peirce, morreu num acidente de carro um ano depois do nascimento dela. Acho que ela estudou em casa, porque não há registros de ela ter frequentado escola do nascimento até os dezoito anos. Sem relatórios médicos nem nada; basicamente, ela não existiu antes de completar dezoito. Eles moravam nos arredores de Wellington, em Brookdale, sem vizinhos, então não há informações. Parece que ela e a família são afastadas. A jovem senhora não tem presença em redes sociais, nunca teve. É como se ela estivesse tentando manter um perfil discreto. Isso é tudo que encontrei por enquanto, senhor.
Eu estava ficando com dor de cabeça.
—Deixa isso pra lá, Ruddy. Seja o que for, vamos descobrir quando for a hora certa.
Ele me deixou em casa e foi embora. A casa estava silenciosa, e a maioria das luzes estava apagada. Eu estava subindo para o meu quarto quando ouvi algo cair. Fui até a cozinha e a vi no chão, tentando recolher os cacos de vidro.
—O que você está fazendo? Vai se cortar.
Dava para perceber que eu a tinha assustado.
—Desculpa, foi um acidente. Eu vou repor. Desculpa, desculpa mesmo —disse num tom que despertou meu interesse.
Peguei a mão dela para impedi-la. Ela estava com os olhos cheios de lágrimas.
—Desculpa, foi mesmo um acidente. Eu não queria quebrar; me desculpa.
Eu quebro coisas quando estou com raiva, e ali estava ela, prestes a chorar porque quebrou um maldito copo sem querer.
—McKenzie, foi um acidente; dá pra substituir. Não é o fim do mundo, só deixa isso —eu disse, olhando para ela.
—Tá bom —ela respondeu, assentindo com a cabeça.
—A Marlene vai limpar isso. Por que você não volta pra cama? —falei, soltando as mãos dela.
—Tá bom.
Eu a observei sair da cozinha e subir as escadas na direção do quarto dela. Olhei para o vidro quebrado no chão.
—Ela começou a pedir desculpas, não foi? —ouvi Marlene dizer.
Virei e a encontrei apoiada no batente da porta. Era uma baita fofoqueira.
—Foi —respondi, suspirando.
—Faz três meses e meio que ela está aqui. Ela limpa o próprio quarto. Lava a própria roupa e recolhe o que usa. Sempre diz “por favor” e “obrigada”. Na primeira vez que derrubou um pouco de suco, começou a pedir desculpas. Depois disso, percebi que, quando está em casa, ela tem cuidado para não errar nem causar nenhum acidente. Ou aquela menina foi criada direito, numa casa rígida, ou aconteceu alguma coisa ruim para deixá-la assim. O primeiro dia em que ela chegou aqui foi o último dia em que eu a vi comer ou beber qualquer coisa nesta casa. Ela nunca toma café da manhã, não está em casa no almoço e chega muito depois do horário do jantar. Se eu pergunto, a resposta é sempre a mesma: “Eu já comi”. Agora, senhor Cirano, eu sugiro que o senhor comece a prestar atenção na sua esposa e descubra o que está acontecendo. Pode subir; eu cuido disso aqui.
—Obrigada, Marlene. Boa noite.
Era coisa demais para assimilar. Eu precisava descobrir o que estava acontecendo com a minha esposa. Se eu quisesse esse casamento com ela —e se eu a quisesse. Eu sabia que, se perguntasse, ela não responderia. Ela está sempre se desculpando, quieta, e faz tudo o que mandam. Eu já tive mulheres submissas antes, mas ela não era uma submissa… ou era?
Na manhã seguinte, eu estava esperando por ela. Quando me viu, eu a vi vacilar.
—Bom dia, senhor Cirano.
Como se o episódio da noite anterior não tivesse acontecido.
—Bom dia, McKenzie. Tome café da manhã comigo —eu disse, indo até a mesa de jantar.
Virei e vi que ela ainda estava parada ali.
—Tem alguma coisa errada, McKenzie?
—Ahm… eu… quer dizer, eu tenho… tenho a sua permissão para me juntar ao senhor?
Eu ouvi isso direito? Não é possível que ela seja tão submissa. Eu ia descobrir hoje.
—McKenzie, esta é a sua casa; você não precisa da minha permissão para fazer nada. Venha tomar café da manhã —eu disse.
—Tá bom, obrigada.
Eu a vi se sentar de frente para mim e começar a comer.
—Como vão os seus estudos? —perguntei.
—Muito bem, senhor. As provas estão chegando, então todo mundo está ocupado com os estudos e as práticas —ela respondeu, animada.
Quando o assunto são os estudos, ela demonstra interesse de verdade na conversa. Reparei que ela não usa joias. Era porque não gostava ou porque não podia comprar?
—Não, senhor. Só Darius ou senhor Cirano —eu disse, sem tirar os olhos dela.
Ouvir ela me chamar de “senhor” me fez imaginar ela na cama, de joelhos. Porra, eu precisava parar com esse tipo de pensamento.
Nos últimos meses, Marlene e Zach comentaram que não a viram usar nada além de jeans e blusas de gola alta, e isso me faz pensar no motivo.
