Capítulo 1 — A Cidade Nova

A primeira coisa que Larissa faz numa cidade nova é decorar as saídas. Espiã infiltrada com nome falso e passado inventado, ela levou quatro meses para chegar perto de Rodrigo Monteiro — o empresário limpo demais que o Departamento nunca conseguiu condenar. Conseguiu o acesso. Conseguiu a confiança. Conseguiu tudo conforme o plano. Só que uma frase dele não para de rodar na cabeça dela: "Observo há algum tempo quem merece esse tipo de proximidade." Há quanto tempo? E, pela primeira vez, Larissa não tem certeza de quem está caçando quem.

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Larissa Vasconcelos aprendeu cedo que a primeira coisa a fazer numa cidade nova é decorar as saídas. Não os pontos turísticos, não os melhores cafés — as saídas. Onde ficam as portas dos fundos, qual rua dá em qual avenida, em que esquina um táxi para sem hesitar às três da manhã. Quem aprende a sair de um lugar nunca fica preso nele.

Fazia quatro meses que ela morava em São Paulo, num apartamento alugado em nome falso, com móveis que não eram dela e fotos na parede de uma família que nunca existiu. Quatro meses construindo uma mulher chamada Larissa que tinha um histórico limpo, um diploma de administração e um emprego de fachada numa consultoria que pertencia, em última instância, ao governo. Ela era boa naquilo. Era a melhor que o Departamento tinha em infiltração de longa duração, e os homens que a enviaram sabiam disso.

A missão tinha um nome curto e um alvo grande: Rodrigo Monteiro.

Ninguém no Departamento conseguia provar nada contra ele. Era essa a beleza do homem, e a frustração de todos. Rodrigo Monteiro aparecia em jantares beneficentes, doava para hospitais infantis, tinha uma rede de empresas de logística que movimentava metade da carga do porto de Santos. Limpo. Sorridente nas fotos. E por baixo de toda aquela superfície polida corria um rio de coisas que nunca chegavam à luz: armas que sumiam, testemunhas que mudavam de ideia, concorrentes que de repente vendiam tudo e se mudavam para o exterior sem dar explicações.

O Departamento queria provas. Larissa fora enviada para consegui-las de dentro.

A porta de entrada tinha sido cuidadosamente preparada. Uma vaga de assistente administrativa numa das empresas-satélite de Monteiro. Currículo perfeito, entrevista perfeita, três meses de trabalho impecável até que o nome dela começou a circular para cima, como o Departamento previra. Rodrigo Monteiro gostava de promover de dentro. Gostava de pessoas que demonstravam lealdade antes de pedir confiança.

Naquela manhã, ela estava no escritório central pela quarta vez. Andava pelos corredores de mármore com a postura exata de quem pertence àquele lugar — nem rápida demais, nem devagar demais, os olhos para frente, o crachá visível. Ninguém olha duas vezes para quem caminha como se já tivesse um destino.

— Larissa.

Ela se virou. Era Beatriz, a secretária-executiva, uma mulher de uns cinquenta anos com olhos que pareciam ter visto coisas demais para se impressionar com qualquer uma.

— O senhor Monteiro quer falar com você. Sala dele, agora.

Larissa sentiu o pulso acelerar um centímetro e o controlou imediatamente. Quatro meses de preparação convergiam para aquele momento, e ela tinha treinado para ele tantas vezes que o medo, quando veio, chegou domesticado.

— Claro — disse, com um sorriso na medida. — Já vou.

O escritório de Rodrigo Monteiro ficava no último andar, atrás de uma porta dupla de madeira escura que parecia pesada demais para ser apenas decorativa. Beatriz a deixou ali e se retirou sem uma palavra.

Larissa respirou fundo, contou até dois, e bateu.

— Entra.

A voz era grave, sem pressa. Uma voz que nunca precisou ser levantada porque sempre soube que seria ouvida.

Ela entrou.

A sala era enorme e quase vazia, do jeito que só os ambientes de homens muito poderosos conseguem ser. Uma mesa de vidro. Uma parede inteira de janelas com a cidade lá embaixo, cinzenta e infinita. E ele, de pé junto à janela, de costas, como se a vista lhe interessasse mais do que a visitante.

— Senhor Monteiro — disse Larissa.

Ele se virou.

Rodrigo Monteiro tinha trinta e cinco anos e o tipo de rosto que as fotos não capturavam direito. Nas imagens do dossiê ele parecia apenas um homem bonito de terno caro. Pessoalmente, havia outra coisa — uma quietude. Ele a olhou do jeito que se olha um documento que já se leu antes, conferindo se nada mudou.

— Larissa Vasconcelos — disse ele. Não era pergunta. — Sente-se.

Ela se sentou. Ele permaneceu de pé.

— Sabe por que está aqui?

— Imagino que pelo meu trabalho no setor de logística. Os relatórios do último trimestre...

— Não. — Ele cortou sem rispidez, quase com gentileza. — Quero dizer, sim, seu trabalho é bom. Excelente, na verdade. Mas não foi por isso que pedi para você subir.

Larissa manteve o rosto neutro. Por dentro, recalculava. Aquilo não estava no roteiro.

— Então por quê?

Rodrigo deu a volta na mesa e se sentou na poltrona em frente a ela, não atrás da mesa — ao lado, perto, como se a barreira de vidro fosse desnecessária entre eles.

— Porque eu gosto de conhecer as pessoas que trabalham para mim. Pessoalmente. Não os crachás, não os currículos. As pessoas.

Ele sorriu. Era um sorriso bonito e Larissa não acreditou nele nem por um segundo, e essa era exatamente a postura correta a se ter diante de Rodrigo Monteiro, ela só não sabia ainda o quanto.

— Vou ser sincero com você — continuou ele. — Estou montando uma equipe mais próxima. Pessoas em quem confio. Pessoas que entram na minha casa, não só no meu escritório. E observo há algum tempo quem merece esse tipo de proximidade.

— E eu mereço?

— Você vai me dizer.

A conversa durou quarenta minutos. Falaram de logística, de mercado, de uma viagem que ele fizera a Portugal e da qual ela fingiu não saber detalhe nenhum, embora soubesse todos. No fim, ele se levantou e estendeu a mão.

— Bem-vinda ao círculo, Larissa.

Ela apertou a mão dele. Era firme, seca, sem pressão excessiva. A mão de alguém que não precisa provar força.

— Obrigada, senhor Monteiro.

— Rodrigo — corrigiu ele. — Dentro do círculo, é Rodrigo.

Ela saiu daquela sala com a sensação clara de uma vitória. Tinha entrado. Estava dentro. Em quatro meses ela conseguira o que o Departamento tentava havia anos: acesso ao homem.

Foi só no elevador, descendo os trinta e poucos andares de volta ao mundo, que uma frase dele voltou e ficou rodando na cabeça dela como uma mosca presa num quarto fechado.

Observo há algum tempo quem merece esse tipo de proximidade.

Há algum tempo. Quanto tempo?

Larissa afastou o pensamento. Era cedo demais para sentir aquilo, e ela não tinha nome ainda para o que sentia. Apertou o crachá na mão e olhou o próprio reflexo nas portas de aço escovado do elevador.

A mulher refletida ali parecia exatamente quem deveria parecer.

E ainda assim, pela primeira vez em quatro meses, Larissa não tinha certeza de quem estava caçando quem.

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