Capítulo 2 — As Regras da Casa
A mansão de Rodrigo Monteiro ficava nos Jardins, atrás de muros altos e de um portão que se abria com a lentidão deliberada das coisas que não têm pressa de deixar ninguém entrar. Larissa foi convidada pela primeira vez numa quinta-feira, para o que ele chamou de "um jantar pequeno".
Pequeno, no vocabulário de Rodrigo, significava doze pessoas, três garçons e um chef que cozinhava só para ele.
Ela chegou às oito em ponto, num vestido azul-escuro escolhido com o cuidado de quem sabe que cada peça de roupa é uma frase numa conversa que ainda não começou. Discreto, elegante, sem gritar. A roupa de uma mulher que quer ser levada a sério, não desejada. Foi uma decisão profissional. Larissa não se permitia decisões que não fossem profissionais.
Beatriz a recebeu na porta — a mesma Beatriz do escritório, o que Larissa anotou mentalmente: a secretária trabalhava também na casa, o que significava que a casa e o trabalho eram, para Rodrigo, a mesma coisa.
— Ele está no jardim de inverno — disse Beatriz. — Pode ir.
Larissa atravessou a casa devagar, lendo tudo. Era um hábito que ela não conseguia desligar nem que quisesse: os olhos catalogando saídas, câmeras, a posição dos seguranças, quais portas tinham fechadura e quais não tinham. A mansão era um organismo cuidadosamente projetado. Havia câmeras, mas poucas, e colocadas de um jeito quase educado, como se Rodrigo não quisesse insultar os convidados com vigilância óbvia. Os seguranças não usavam terno preto de filme; vestiam-se como convidados e se moviam como convidados, e era exatamente por isso que eram perigosos.
Ela encontrou Rodrigo entre as plantas, conversando com um homem mais velho de cabelos grisalhos. Quando a viu, interrompeu a conversa no meio da frase.
— Larissa. Que bom. — Ele se aproximou e, para a surpresa dela, não a cumprimentou com beijo no rosto nem aperto de mão. Apenas parou perto, perto demais para um chefe, perto de menos para qualquer outra coisa. — Você veio.
— Você me convidou.
— Convidei muita gente. Nem todos vêm.
Havia algo na maneira como ele disse aquilo. Como se a presença dela ali significasse uma resposta a uma pergunta que ele não tinha feito em voz alta.
O jantar foi longo e Larissa trabalhou o tempo todo, embora ninguém pudesse perceber. Memorizou nomes. Mapeou relações. Identificou, pela maneira como os outros homens se calavam quando ele falava, quem na mesa era de fora e quem era de dentro. Aprendeu que o homem grisalho se chamava Gustavo Serra, que ria alto demais das próprias piadas e cuja risada nunca chegava aos olhos. Aprendeu que Serra tratava Rodrigo com uma deferência que tinha algo de ressentido por baixo, do jeito do segundo homem que sempre desconfia que merecia ser o primeiro.
Anotou tudo. Cada detalhe seria um relatório, e cada relatório seria um tijolo na parede que ela estava construindo em torno de Rodrigo Monteiro.
Mas havia uma coisa que os relatórios nunca conseguiriam capturar, e Larissa percebeu isso ainda à mesa, no meio de uma conversa sobre tarifas portuárias. Era a maneira como os outros se moviam em torno de Rodrigo. Não era medo — ela conhecia o medo, sabia como ele entortava as pessoas. Era algo mais sutil: uma reorganização constante e inconsciente, como limalha de ferro se ajeitando em torno de um ímã. Quando ele se inclinava para frente, a mesa inteira se inclinava um milímetro com ele. Quando ele ria, a risada autorizava a dos outros. Ninguém ali decidia nada sem antes conferir, com um olhar rápido, qual seria a posição dele. Rodrigo nunca pedia aquilo. Não precisava. O poder dele não morava no que ele fazia; morava no que os outros faziam por antecipação, tentando adivinhar o que ele queria antes que ele dissesse.
Larissa anotou isso também, na parte da memória que não virava relatório. Porque era exatamente esse tipo de poder que os dossiês do Departamento não entendiam. Eles procuravam crimes, contratos, armas. Mas o verdadeiro mecanismo de Rodrigo Monteiro não estava em nenhum documento. Estava no ar de uma sala. E um homem cujo poder mora no ar é um homem que não se derruba com papéis.
Foi só no fim da noite, quando os convidados começaram a se despedir, que ele a chamou de lado.
— Quer ver uma coisa?
Ele a levou por um corredor que se afastava do barulho até uma porta fechada. Abriu-a. Era uma biblioteca — paredes de livros, uma escrivaninha antiga, o cheiro de papel e couro.
— Esse é o único lugar da casa onde não tem câmera — disse Rodrigo, e a olhou de um jeito que tornava a frase ambígua de propósito. — Gosto de ter um lugar onde ninguém me observa. Todo mundo precisa de um.
— E por que está me mostrando?
Ele deu de ombros.
— Porque quero que você saiba que existe. Confiança, Larissa, é mostrar a alguém onde ficam as suas portas sem câmera.
Ela sorriu, e era um sorriso verdadeiro disfarçado de profissional, ou um profissional disfarçado de verdadeiro — nem ela sabia mais.
— Você confia em mim assim tão rápido?
— Não — disse ele, com simplicidade desarmante. — Mas estou decidindo se vou.
Naquela noite, no táxi de volta, Larissa redigiu mentalmente o relatório. Acesso à residência: conseguido. Mapeamento parcial de segurança: feito. Identificação de subordinado-chave (Gustavo Serra): feita. Local sem vigilância na casa (biblioteca): registrado.
Tudo corria conforme o plano. Cada peça caía no lugar com a docilidade das peças que ainda não sabem que são peças.
E mesmo assim, deitada na cama do apartamento que não era seu, encarando o teto de uma vida emprestada, Larissa não conseguiu dormir.
Convidei muita gente. Nem todos vêm.
Ele tinha um jeito de falar como quem já sabe o final da conversa antes de ela começar. E Larissa, que passara a carreira inteira sendo a pessoa que sabia mais do que demonstrava, sentiu pela primeira vez o desconforto de estar do outro lado daquela equação.
Ela afastou a sensação. Era cansaço. Era a tensão da primeira semana dentro do círculo.
Não era nada.
Repetiu para si mesma até quase acreditar, e adormeceu já perto da madrugada, sem saber que dormia exatamente onde ele queria que ela dormisse, sentindo exatamente o que ele queria que ela sentisse, três passos atrás de um homem que aprendera a esperar muito antes de ela aprender a chegar.
