Capítulo 3
Sophie tinha deixado que ele entrasse em partes dela em que ninguém mais jamais tinha tido acesso, e a profundidade das suas confissões sombrias arrancava a alma dele, vez após vez, diante da miséria que ela tinha suportado. Ouvir tudo aquilo quase o destruiu, então ele não fazia ideia de como ela tinha aguentado e continuado sã. Há muito tempo ele jurara que sempre a protegeria, que destruiria qualquer cara que ousasse encostar nela contra a vontade dela de novo, e era um juramento que ele sustentaria por toda a eternidade.
Sophie era a guerreira dele! Apesar de tudo, ela tinha se erguido por entre as lembranças como uma chama invencível e florescido, mesmo depois daquele babaca. Ele nunca conhecera ninguém tão forte quanto ela; o orgulho invadiu seu peito diante da conquista dela, ao pensar em tudo o que ela superou na tentativa de seguir em frente. Arrick inspirou profundamente, aquietando o exterior, enquanto o carinho que sentia por ela se sobrepunha a qualquer outra coisa.
— Vamos, Sophs. Não faz isso. Você sabe que eu não dou conta quando você chora. Eu vou estar aí em vinte minutos ou menos. Vai, seja uma boa garota e volta pro clube por mim. — Ele conseguia distinguir o barulho da rua ao redor dela e o tremor característico na voz que denunciava que ela estava tremendo de frio. Voltou a franzir a testa com mais alguma coisa que ela estava fazendo consigo mesma, sem o menor cuidado com o próprio bem-estar, e isso o deixava simplesmente furioso. Provavelmente tinha saído sem casaco de novo, usando alguma coisa curta demais, mínima demais, sem se importar nem um pouco que já estava no fim da estação e que ficar exposta daquele jeito era o tipo de coisa que podia matar.
Aquela garota precisava de supervisão constante. A paixão dela pela moda atual irritava Arrick, principalmente agora que as tendências eram só pele e pouca roupa. Nesse momento, as mulheres estavam usando cada vez menos, e ele odiava que Sophie seguia a tendência de deixar pouco para a imaginação. Ela era completamente viciada em moda; roupa era a vida dela, mesmo quando mal passava de retalhos de tecido em cima do corpo.
Ela tinha um corpo que chamava atenção, pernas longas e um porte pequeno e perfeito, com curvas que até alguém como ele não conseguia ignorar. Tinha crescido rápido demais e parecia ter entrado na puberdade desde o momento em que ele a conheceu. Por mais que ele tivesse tentado não enxergar as mudanças e ignorar o quanto ela estava se tornando uma garota de virar pescoço, Arrick tinha que admitir: Sophie era irresistível para a maioria dos homens. Ele só podia imaginar quantos tarados nojentos já deviam estar de olho nela.
— Tá bom… Eu vou ficar lá atrás, nos sofás, deitada. — Ela fungou mais um pouco, voltando a se controlar, e ele xingou por dentro, a frustração latejando forte e segurando o impulso de explodir. Mordeu o maxilar para conter a vontade de gritar com ela, enquanto a raiva faiscava.
— Não deita lá atrás. Fica aqui na frente. — Rosnou por entre os dentes cerrados, lutando para soar normal e tranquilo. Ele sabia bem demais que tipo de homem fazia a ronda por meninas como ela nas sombras do fundo do clube do Randy. Era um lugar que ele costumava frequentar com Jake, o irmão mais velho, há muito tempo, e que tinha piorado nos últimos anos, com uma clientela cada vez mais escrota. A galera com quem Sophie andava parecia adorar aquele lugar, apesar de Arrick e Jake terem dito a ela incontáveis vezes para ficar longe, e isso só fez com que ele pisasse ainda mais fundo no acelerador para chegar lá rápido, o pulso disparando. Ele não estava nem aí se levasse multa; não suportava a ideia de Sophie apagando num canto escuro de um clube conhecido justamente pelos casos de mulheres atacadas.
“Eu tô cansada. Preciso deitar.” Ela arrastou as palavras de novo, sem nenhuma lágrima dessa vez, e ele conseguiu reconhecer o barulho da balada se aproximando, como se ela estivesse voltando pra dentro. O pânico de Arrick subiu pela garganta diante da completa falta de noção dela, o coração disparado enquanto desviava dos carros na rua, dirigindo meio no tranco.
“Você pode dormir no meu carro, Sophie. Tô falando sério. Fica lá na frente, onde eu consiga te achar, e em pé. Tô quase na metade do caminho. Não deita!” Ele foi duro, o tom menos controlado e mais grave só de pensar em qualquer coisa acontecendo com ela, rezando pra Deus que, pelo menos hoje, ela o ouvisse. Tentava segurar o temperamento porque sabia que ela podia virar uma panela de pressão infantil desse jeito, e a última coisa de que ele precisava era que ela mandasse ele se ferrar e sumisse. Ela tinha o costume de simplesmente pegar e ir embora quando não sabia lidar com alguma coisa, foi isso que impulsionou a fuga dela de casa meses atrás.
Sophie suspirou de um jeito dramático e, em seguida, a voz dela se perdeu debaixo da batida alta da música ao redor, antes de a ligação cair de vez. A balada tinha um sinal horrível lá dentro, e ele acabou de perdê-la quando ela voltou pra pista de dança.
Merda.
Arrick estremeceu com o frio que atravessou o corpo, ansiedade e medo se chocando com todos os piores cenários possíveis na cabeça dele. Tentou ligar pro celular dela de novo, rápido, mas só caiu na caixa postal, e dessa vez ele xingou em voz alta.
Ia dar uma bronca nela e sacudir aquela garota até ela criar juízo quando chegasse lá. Sem dúvida ia ter que carregar Sophie pra fora, igual no fim de semana passado, e dessa vez ia sentar com ela pra uma conversa séria, olho no olho. Ele tinha chegado no limite do que quer que fosse aquilo. Chega de ligações bêbadas, de ela se colocando em perigo o tempo todo, do comportamento briguento e cheio de chiliques, da atitude difícil dos últimos tempos. Ele entendia que o passado dela às vezes fazia dela uma pessoa complicada de lidar. Mesmo nos melhores dias, ela sempre tinha sido difícil de lidar, mas ultimamente já tinha passado de todos os limites. Os nervos dele não aguentariam muito mais aquilo, e o relacionamento com Natasha tava desmoronando por causa disso.
Hoje, ela ia voltar pra casa com ele e sóbr ia ia ouvir um interrogatório daqueles. Chega. Se alguém podia fazer ela enxergar e convencer Sophie a voltar pra família, esse alguém era ele. Ele vinha fugindo desse confronto há tempo demais e não dava mais pra evitar; bateu forte aquela teimosia interna de que não ia continuar passando por essa agonia, essa angústia com a segurança dela. Já bastava.
Ela tinha fugido de casa alguns meses antes, depois de uma briga feia por causa do estilo de vida bêbado que vinha levando; foi em outra noite em que ele teve que catar Sophie de uma calçada e levar de volta da cidade pros Hamptons. A família dela já tinha perdido totalmente o controle nessa altura, e Arrick era o único a quem ela ainda se agarrava de alguma forma. Ele vinha tratando Sophie com o maior cuidado desde então, com medo de que ela o cortasse da vida dela também, e esse tinha sido o maior erro que ele cometeu. Tinha dado ouvidos à Natasha em vez de seguir o próprio instinto; devia ter confiado no fato de que sempre soube como lidar com Sophie e não ter adotado a postura mais suave só porque ela pediu. Natasha só conhecia o básico da história e nada além disso. Ela via Sophie apenas como uma menina quebrada e tinha convencido Arrick a ir contra a própria razão em tudo. Ele nunca devia ter ouvido. Arrick conhecia Sophie melhor do que qualquer um. Ela precisava de volta do lado mais firme dele.
