Capítulo 4

Sophie precisava de ajuda de verdade e de compreensão, de alguém que a puxasse de volta um pouco antes que se metesse em uma situação que só pudesse terminar mal. Arrick sabia que, apesar do que Natasha sentia a respeito, ele era a única pessoa com chances de trazer a sua garota de volta disso que quer que fosse e recuperar um pouco da menina de quem sentia uma falta louca. Do jeito dele.

Ele e Sophie tinham um vínculo como nenhum outro e, mesmo que nos últimos meses eles tivessem mudado um em relação ao outro, ele sabia que a garota dele ainda estava lá em algum lugar, e ele precisava encontrá‑la de novo. Pela sanidade dele e pela dela, porque tudo aquilo estava matando os dois aos poucos. Ele odiava vê‑la detonada e infeliz e sabia que precisava fazer alguma coisa antes de perdê‑la também. Apesar de ela sempre ligar para ele, Arrick sentia que vinha perdendo Sophie há muito tempo, e era essa a raiz do estresse que o atormentava há meses. E da possível úlcera no estômago também.

Arrick pegou o celular, entrou na lista de chamadas recentes e tocou no nome de Natasha, largando o aparelho de volta no console, com os olhos grudados na rua, a testa franzida. Ele odiava dirigir no trânsito do centro depois das oito da noite; o vai‑e‑vem de gente indo para a vida noturna sempre fazia de qualquer percurso uma dor de cabeça.

— Oi, querido, você já está chegando? — Natasha tinha uma voz suave e feminina que fazia com que parecesse uma criança na maior parte do tempo, e ele foi atingido por aquela pontada de culpa por estar fazendo isso com ela de novo.

— Oi, Tash. Olha… desculpa, mas vou ter que cancelar nossos planos hoje à noite. Vai lá encontrar o pessoal e aproveitar o jantar. Eu preciso ir atrás da Sophie. — Ele prendeu a respiração, esperando, durante o longo silêncio que se estendeu entre os dois. Nenhuma resposta enquanto ela assimilava, e ele conseguia imaginar direitinho a expressão magoada no rosto dela. Sabia que Natasha estava levando um tempo para escolher bem as palavras e pensar na reação que teria.

Natasha sempre se mantinha composta e gostava de enxergar tudo pela perspectiva de todo mundo antes de perder a cabeça. Ela era o retrato da maturidade e da elegância, por fora calma como ele, e ele supunha que era por isso que os dois se davam tão bem. O completo oposto de Sophie, e geralmente por isso Sophie é que começava as grandes brigas com ela, cutucando, apertando seus botões até fazê‑la explodir, mesmo isso indo contra a natureza de Natasha.

— De novo? — Ela puxou o ar num suspiro desesperado, sem realmente demonstrar raiva no tom equilibrado, só decepção. Ele encheu o peito devagar e soltou o ar ainda mais lentamente, consciente de que aquilo não era justo com ela; nunca tinha sido. Mas, ainda assim, aliviado por ela estar levando relativamente numa boa, apesar de ele ter dado o bolo quando já deveria estar lá. Natasha aguentara muita coisa nos últimos dezoito meses por causa de situações ligadas à Sophie.

— Ela está um caco e sozinha no bar do Randy. Não tenho como deixar ela lá, e acho melhor ela ir pro meu apartamento hoje à noite pra gente ter uma conversa de verdade. Não dá mais pra ficar fingindo que nada está acontecendo. — Ele odiou o segundo silêncio que se instalou, sabendo que Natasha estava realmente chateada com ele, mas a ansiedade por causa da vulnerabilidade de Sophie lá fora pesava muito mais do que qualquer outra coisa.

“De que adianta ficar falando? Ela vem piorando ao longo do último ano e, nos últimos meses, tem feito você correr atrás dela quase três noites por semana, toda semana.” A voz de Natasha vacilou quando ela finalmente respondeu, e ele sabia que as lágrimas tinham começado a cair. Ele se sentia um lixo por estar decepcionando ela, mas, nisso, ele já tinha tomado uma decisão. Podia ver os amigos e a própria Natasha em outra noite, quando Sophie estivesse de volta em segurança, no lugar dela, longe de qualquer perigo.

“Faz muito tempo que eu não sento com ela sozinha, com calma, e só tento… Eu preciso fazer isso do meu jeito. Eu tô preocupado com ela, Tash, e não posso simplesmente deixar ela continuar vivendo assim.” A imagem de Sophie atravessou a mente dele, e aquela mesma onda de ansiedade veio junto com o fato de ainda estar preso no trânsito e não ter chegado lá. Tudo o que conseguia imaginar eram os grandes olhos azuis dela, cheios de lágrimas, e o rosto apavorado, e ele batucou a mão, impaciente.

“Tá bom! Você sabe que vai fazer o que quiser de qualquer jeito quando se trata dela. Boa sorte, então. Se você acha que vai fazer diferença, tenta, mas a gente não pode continuar assim. Eu não consigo continuar assim.” Natasha fungou de leve, sem verdadeira raiva; imaginando ela secando os olhos, ele franziu o cenho para o táxi à frente, tentando fazê‑lo andar só na força do pensamento, batendo no volante com mais força.

Ela estava irritada com ele, decepcionada por ele ter estragado a noite dos dois, mas ele sabia que ela ia superar rápido. No fundo, Natasha era carinhosa e, no fim das contas, sempre concordava que ele não podia deixar Sophie solta por aí. Sempre que as duas discutiam, era Sophie que acendia a faísca da briguinha entre elas e, apesar de tudo, Natasha só queria gostar dela e se dar bem, pelo bem de todos. Natasha era um amor; ele sabia que ela não merecia aquilo. Não merecia o inferno que Sophie sempre fazia ela passar.

“Eu sei, e é em parte por isso que eu preciso fazer isso. Desculpa. Te ligo amanhã. Aproveita a noite com o Nate e o pessoal, dá parabéns pra Lydia por mim.” Arrick rosnou para o motorista de táxi pelo retrovisor do cara, pressionando para ele andar agora que o sinal tinha aberto e ficando num nível de hostilidade dos diabos, tamborilando os dedos alto. Ele ouviu o suspiro dela, já conformada com o fato de que ele não ia, e não era o tipo de garota que fazia escândalo quando, no fundo, o que estava em jogo era o lado cuidadoso de Arrick, a lealdade dele com a amiga. Ela não conseguia ficar com raiva disso, mesmo que atrapalhasse os dois.

“Eu te amo, Arrick”, Natasha acrescentou, hesitante, com aquele carinho doce que ela dizia sempre, e aquilo puxou a culpa nele, o peito apertando um pouco, sabendo que ela odiava ficar brava com ele, e era o jeito dela de dizer que entendia.

“Também te amo, Tash. Agora vai. Me conta amanhã como foi. Tomara que eu consiga chegar nela e ter alguma coisa boa pra te contar.” Ele fuzilou o carro da frente com o olhar e se segurou para não meter a mão na buzina. O pé já estava pronto pra afundar no acelerador.

“Tchau, amor”, ela suspirou de leve, demorando a desligar.

“Tchau, Tash”, ele respondeu, distraído.

Ele desligou antes dela, ficando seriamente puto com o carro amarelo agora, que ficava entrando e saindo das faixas e tornando impossível ultrapassar. Se não fosse por aquele babaca, ele já estaria lá fazia minutos, com Sophie nos braços, tirando ela de qualquer perigo. Ele socou a buzina, furioso, e suspirou aliviado quando o carro encostou pro lado pra deixar ele passar.

Porra, até que enfim!

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