Capítulo 5

Sophie Huntsberger

Me arrasto de novo pelo clube lotado, me sentindo pesada, tudo se movendo e balançando como se eu estivesse no mar, tonta e enevoada, embora eu esteja menos bêbada do que antes. O celular continua colado no meu ouvido, mesmo tendo perdido o Arrick em algum lugar e só ouvir silêncio. Quando abaixo o aparelho pra olhar a tela preta, percebo que a bateria morreu, e solto um suspiro completamente derrotado. Cansada de como minha vida tá indo ultimamente, parece que nada dá certo.

Puxo uma respiração longa e profunda pra tentar voltar um pouco à sobriedade, o corpo mole, enxugando o rosto sem muita vontade com as costas da mão agora que as lágrimas já secaram de novo, e meu coração voltou pra um vazio entorpecido. Nem ligo se a maquiagem tá borrada ou se escorreu toda. O Arrick já me viu bem pior, muitas e muitas vezes.

Deixo o celular cair na minha mão ao lado do corpo e seguro frouxo, desconectada demais pra sentir qualquer coisa além de um cansaço pesado de tanto chorar feito uma idiota, cambaleando por causa da bebida e esbarrando nas coisas, desajeitada. Tô vazia e exausta, completamente farta da noite e sem me importar que nem tá tão tarde assim pra ir embora.

— E aí, gata... quer dançar? — Uma voz masculina rouca invade meus sentidos enquanto eu tento abrir caminho pela massa suada e dançante, que mais parece um mar de piche. Dou de ombros, não respondo nada e só espero que ele me deixe em paz. Ele toca no meu ombro como se eu não tivesse ouvido, e os pelos do meu corpo se arrepiam na hora, a pele se enchendo de arrepios. Aquele aperto interno no estômago que aparece sempre que algum cara encosta em mim. Faz tempo que eu identifiquei isso como repulsa. Me desvencilho e continuo andando, olhos à frente, sem reagir de jeito nenhum, o corpo fervendo com essa energia inquieta e irritadiça que tem me perseguido nos últimos tempos.

Meus passos são pesados e desequilibrados, e eu sei que, mesmo se eu tirar o salto, não vou conseguir ficar circulando muito tempo antes de beijar o chão. Tudo é surreal e ao mesmo tempo miseravelmente familiar. Tudo dói. Minhas pernas parecem de borracha, meus pés queimam e latejam dentro dos meus Jimmy Choos novos, e agora eu tô irritada e enjoada num nível absurdo. Dá pra dizer com tranquilidade que meu humor já teve dias bem melhores, e eu não tenho mais paciência nenhuma pra essa merda.

Uma mão quente, firme como um ferro, agarra meu braço, bem em cima do bíceps, me assustando e interrompendo meu avanço pelo amontoado de corpos suados, apertando minha pele nua e me puxando pra trás de um jeito desengonçado, a ponto de eu quase virar o pé no salto. Meu coração dispara na mesma hora.

— Ei, eu tava te fazendo uma pergunta! — ele grita bem no meu ouvido, tentando se fazer ouvir por cima do som ensurdecedor, quando me alcança e se encosta em mim, colando bem na minha bunda. O calor dele me atinge, junto com aquele pânico familiar que sobe lá de dentro. A psicopata interior já se arma toda pra encarar mais um babaca tarado que acha que tem direito de encostar em mim. Por dentro, eu me encolho com o contato indesejado.

Irritada com a cara de pau do cretino e indignada por quase ter caído, eu lanço um olhar furioso por cima do ombro na direção dele e me solto com força. Respondo agressiva, sentindo a raiva subir dentro de mim como uma lança quente em brasa. Aquela fúria interna, que sempre ferve logo abaixo da superfície quando eu tô bêbada e que foi enraizada em mim desde a infância, se acende, pronta pra enfrentar o mundo. Empurro o peito dele com força, com a palma espalmada, colocando cada grama de força que tenho, quase me desequilibrando junto. Eu só quero que ele vá embora e me deixe em paz, sacudindo a mão pra tentar tirar a sensação do corpo dele, quente e pegajoso, assim que consigo o espaço de que preciso.

Ele some no meio da multidão com a força do meu empurrão, e eu me movo rápido, sabendo bem que é melhor não ficar ali parada esperando ele voltar, tentando sair do campo de visão antes que ele retome o lugar de onde saiu. Meu coração dispara enquanto a adrenalina corre, e o instinto me manda me enfiar e desviar no meio da galera o mais rápido possível, até a segurança da parede escura no fundo da balada.

Os caras desse clube têm fama de ser agressivos e tarados, na melhor das hipóteses, e eu já fui apalpada mais de uma vez pra saber que é verdade. Teve um fim de semana em que foi por pouco com um idiota de pavio curto que não aceitava um não. Arrick apareceu bem na hora e quebrou o nariz dele quando o cara se recusou a recuar. Arry, meu herói do boxe profissional.

— Me deixa em paz! — grito de volta, por impulso, mais ou menos articulada, na direção geral pra onde ele foi empurrado; minha voz arrastada some totalmente debaixo da batida pesada da house, e eu só tô focada em achar um canto mais quieto pra tirar o peso das pernas e me esconder. Tô exausta.

Queria que o Arry já estivesse aqui, me ajudando a ir até o carro dele, pra eu poder deitar e dormir. A ideia de que ele tá vindo me buscar é a única coisa que ainda tá me mantendo sã; álcool e lágrimas nunca foram uma mistura que presta. Tô desalinhada, fora de lugar e vulnerável. Nem sei se devo contar pra ele por que eu tô tão mal dessa vez, por que eu tava chorando.

Arrick odeia meus amigos — e não é como se eu não entendesse o motivo —, eles são todos bem patéticos e só a turma em que eu acabei caindo quando vim pra cá.

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