Capítulo 1 Capítulo 1
Taylor
O zumbido estridente do meu despertador estilhaçou o silêncio do meu quarto no alojamento.
Eu gemi e, às cegas, estiquei o braço por cima do criado-mudo, derrubando uma caneta antes de finalmente encontrar o celular. O barulho parou, deixando para trás aquele tipo de quietude que, de algum jeito, parecia ainda mais alto às seis e meia da manhã.
Por alguns segundos, eu só fiquei ali deitada.
O mesmo teto.
A mesma rachadurinha no canto que parecia suspeitamente com a Flórida se você apertasse bem os olhos.
A mesma sombra fraca da saída de ar.
O mesmo quarto.
A mesma vida.
Nada tinha mudado enquanto eu dormia.
Com um suspiro, empurrei as cobertas para o lado e me sentei. O chão estava gelado sob meus pés descalços, e eu me arrependi imediatamente de todas as escolhas de vida que tinham me levado a uma aula de filosofia às oito da manhã.
Meu olhar foi parar na parede em frente à cama.
A placa ainda estava lá.
Novo dia, novos começos.
Eu encarei.
Ela encarou de volta.
Toda manhã, a gente tinha essa pequena discussão silenciosa.
Uma risada amarga escapou quando esfreguei os olhos.
— Tá, beleza.
Eu nem sabia por que tinha comprado aquilo em primeiro lugar. Provavelmente porque tinha ficado bonitinho pendurado na loja. Ou talvez porque alguma versão esperançosa de mim realmente tivesse acreditado.
Aquela garota, ao que parece, era uma idiota.
Porque a vida não funcionava assim.
Não existia um botão mágico de reiniciar esperando por você quando você dormia.
Nenhuma fada madrinha entrando no seu quarto durante a noite.
Nenhuma montagem dramática de filme em que você acordava transformada numa pessoa completamente diferente.
Você fechava os olhos sendo você.
E acordava sendo você.
O mesmo rosto.
O mesmo corpo.
As mesmas inseguranças.
Os mesmos problemas esperando pacientemente por você exatamente onde você os tinha deixado na noite anterior.
Eu me levantei e me arrastei até o banheiro.
A luz do teto piscou ao acender, me cegando por um segundo, antes de a realidade me acertar em cheio na cara.
Literalmente.
O espelho não adoçava nada.
Meu cabelo castanho comprido caía sobre os ombros em ondas murchas que nunca pareciam colaborar. Passei os dedos por ele, tentando algum tipo de resgate milagroso.
Nada.
Ele voltou e se acomodou exatamente no mesmo lugar.
Inclinei o rosto para mais perto.
Ainda cansada.
Ainda comum.
Ainda parecendo que perdi uma briga com o travesseiro.
E o resto de mim?
Bom.
Nenhum milagre noturno ali também.
Meu olhar desceu antes que eu desviasse depressa.
Não porque eu não soubesse como eu era.
Eu sabia exatamente como eu era.
Cheia de curvas.
Macia.
Definitivamente não o tipo de corpo que as redes sociais gostam de recompensar.
Não o tipo que faz cabeças virarem quando eu entro numa sala.
Eu não era uma dessas garotas.
As que, de algum jeito, parecem lindas sem esforço enquanto dizem que “só jogaram qualquer coisa”.
As que acordam prontas pra câmera.
As que não passam metade da vida se perguntando se as pessoas notaram o peso a mais que elas carregam.
Eu sabia o que as pessoas viam quando olhavam pra mim.
O que era exatamente o motivo de eu preferir quando elas não olhavam de jeito nenhum.
— Novo dia, meu ovo — murmurei, pegando a escova de dentes.
Uma hora depois, eu estava sentada em Filosofia 101, questionando cada decisão que tinha me levado até aquele momento.
A sala fervilhava de conversa enquanto os alunos entravam. Risadas ricocheteavam nas paredes. Alguém perto da frente falava alto demais sobre uma festa do fim de semana.
Eu me enfiei no meu lugar de sempre, perto do fundo.
Ninguém tinha me designado aquele lugar.
Ninguém teria se importado se tivesse.
Mas, depois das primeiras semanas do semestre, ele tinha virado oficialmente meu — ainda que de forma não oficial.
Talvez porque eu sempre sentasse ali.
Ou talvez porque ninguém tenha me notado o bastante para sentar ali primeiro.
Sinceramente, qualquer uma das opções parecia igualmente plausível.
Coloquei meu caderno sobre a carteira e olhei ao redor da sala.
Grande erro.
Um grupo de garotas estava sentado perto da frente, conversando e rindo juntas.
Elas pareciam perfeitas.
Não perfeitas de Instagram.
Perfeitas na vida real.
Aquele tipo de beleza que fazia outras garotas começarem a se comparar na mesma hora, sem nem perceber.
O cabelo delas brilhava.
A maquiagem era impecável.
As roupas vestiam exatamente do jeito que, aparentemente, roupas deveriam vestir.
Enquanto isso, eu tinha passado quinze minutos decidindo se meu suéter me deixava um pouco menos redonda do que o meu outro suéter.
Spoiler.
Não deixava.
Desviei o olhar antes que eu começasse a entrar em espiral.
Esse era outro mau hábito meu.
Comparar.
Eu sempre perdia.
Minha atenção voltou para o caderno bem na hora em que um movimento perto da porta chamou meu olhar.
E então ele entrou.
Marco Jennings.
Claro.
Um suspiro escapou antes que eu conseguisse impedir.
O irritante no Marco não era ele ser atraente.
O irritante era ele saber que era atraente.
Havia uma diferença.
Ele se comportava como alguém que nunca duvidou do seu lugar em uma sala.
Alto. Confiante. Tranquilo.
Como se o mundo naturalmente abrisse espaço para ele onde quer que fosse.
A reação foi imediata.
As garotas ergueram os olhos.
Algumas cochicharam entre si.
Uma garota chegou a se sentar mais ereta.
O que, sinceramente, era ridículo, porque isso era filosofia, não um encontro com celebridade.
Marco não pareceu notar.
Ou talvez tenha notado e só fingiu que não.
De qualquer forma, continuou andando como se fosse dono do lugar.
O que, para ser justa, não estava tão longe da verdade.
Astro do hóquei.
Celebridade do campus.
Futuro atleta profissional, se os boatos fossem verdade.
E, na minha opinião pessoal?
Um completo babaca.
Ele também tinha sido esse cara no ensino médio.
O garoto de ouro.
Aquele que todo mundo amava.
Aquele que os professores adoravam e os alunos seguiam por aí como filhotes perdidos.
Nós tínhamos estudado na mesma escola por anos.
Andado pelos mesmos corredores.
Provavelmente sentado em algumas das mesmas salas de aula.
E, ainda assim, eu podia praticamente garantir que ele não fazia ideia de quem eu era.
Por que faria?
Gente como o Marco não repara em gente como eu.
Nossos mundos nunca tinham se cruzado.
Não de verdade.
Mesmo assim...
Havia uma parte minúscula de mim que odiava o quanto ele era bonito.
Uma parte minúscula e constrangedora que reparava toda vez que ele entrava numa sala.
Uma parte minúscula e idiota que carregava uma paixonite há mais tempo do que eu jamais admitiria em voz alta.
Não que isso importasse.
Porque a realidade não era um romance.
O astro popular do hóquei não ia, de repente, descobrir a garota quieta na última fileira e perceber que ela tinha sido o amor da vida dele esse tempo todo.
Não era assim que a vida real funcionava.
Marco gostava de garotas que pareciam que pertenciam à capa de revista fitness.
Garotas com pernas torneadas e barriga chapada.
Garotas que vestiam confiança com a mesma naturalidade de respirar.
Garotas que não pareciam em nada comigo.
Eu me recostei na cadeira e encarei a frente da sala.
O professor nem tinha chegado ainda e, de algum jeito, eu já estava exausta.
Talvez por isso a placa no meu dormitório me incomodasse tanto.
Porque ela prometia algo que a vida nunca entregava.
Novo Dia. Novos Começos.
Quase ri.
Talvez um dia eu finalmente tirasse aquilo dali.
Porque, pelo que eu conseguia ver, esse dia estava se desenhando exatamente como todos os outros.
E nada na minha vida estava prestes a mudar.
