Capítulo 2 Capítulo 2
Taylor
No instante em que o professor de filosofia entrou na sala, o burburinho baixo de conversa morreu na hora.
As cadeiras pararam de raspar. As vozes se cortaram no meio das frases. Foi como se alguém tivesse apertado um interruptor.
Endireitei um pouco a postura na carteira, não porque eu quisesse — mas porque aquela era aquela aula. A que ninguém gostava de verdade, mas com a qual todo mundo sabia que era melhor não brincar.
Filosofia.
Uma disciplina obrigatória.
O que significava que cada um de nós estava preso ali, querendo ou não.
E, infelizmente, esse professor não era do tipo tranquilo que deixava você atravessar o semestre no piloto automático, com o mínimo de esforço. Não. Ele realmente se importava. Exigia participação. Compreensão. Pensamento.
O que fazia daquela a minha aula menos favorita.
Eu não entendia.
Nada.
Metade do tempo, parecia que a gente só ficava andando em círculos, fazendo perguntas que não tinham respostas de verdade. E, para alguém como eu — que precisava de fatos claros e concretos para a pré-medicina — era exaustivo.
Eu não precisava debater o sentido da existência.
Eu precisava passar em biologia.
O professor subiu ao púlpito, colocou suas anotações sobre ele e então olhou para a turma.
— Certo — começou, entrelaçando as mãos. — Considerando que só um punhado de vocês parece realmente compreender o material...
Uma pausa.
O olhar dele varreu a sala, lento e nada impressionado.
— É com tristeza que anuncio que, no geral, esta turma não abre a mente o suficiente para enxergar além do que está diretamente à sua frente.
Alguns alunos se remexeram, desconfortáveis.
Eu permaneci imóvel, os olhos no meu caderno.
Ele suspirou, balançando a cabeça, e se afastou do púlpito, andando devagar diante de nós.
— Isso é decepcionante — continuou. — Se suas mentes permanecerem fechadas, como vocês vão evoluir?
Ele parou, virando-se de supetão.
— Essa é a pergunta que vocês deveriam estar se fazendo. Como crescemos? Como evoluímos? Como vocês saem da caixa em que se colocaram?
Silêncio.
Ninguém respondeu. Ninguém nunca respondia.
A gente só ficava sentado ali, olhando para ele, esperando acabar.
Depois de um momento, ele pegou uma pilha de provas no púlpito e entregou para a monitora.
— As provas de vocês — disse, simplesmente.
Enquanto ela começava a distribuir, ele continuou, com o tom suavizando só um pouco.
— Eu entendo. Nenhum de vocês está se formando em filosofia. Isto não é a Grécia Antiga, onde as pessoas ficavam sentadas de toga debatendo a natureza do universo.
Algumas risadinhas baixas ecoaram pela sala.
— Mas o que eu estou pedindo a vocês é simples — acrescentou. — Abram a mente. Olhem além do que está escrito nos livros. Pensem.
Um bocejo alto cortou o ambiente.
Eu nem precisei olhar para saber quem tinha sido.
Marco Jennings.
Era quase impressionante o quanto ele se esforçava pouco para esconder o desinteresse.
Atletas tinham que aparecer na aula — essa era a regra. Mas se envolver de verdade? Isso era opcional para eles.
Especialmente para alguém como o Marco.
Astro do hóquei. Queridinho do campus. Praticamente intocável.
Sinceramente, a faculdade provavelmente não teria nem metade do financiamento que tinha sem atletas como ele. Aquilo era um programa de Divisão I — hóquei, futebol americano, tudo. Eles formavam profissionais.
O que significava que caras como o Marco praticamente não podiam fazer nada de errado.
A monitora parou ao meu lado e colocou minha prova sobre a carteira.
Eu olhei para baixo — e congelei.
A.
Em tinta vermelha.
E, embaixo, escrito com letra caprichada:
Ótimo trabalho.
Minhas sobrancelhas se franziram, confusas.
Um A?
Aquilo… não podia estar certo.
Eu basicamente chutei aquele teste. Metade do que eu escrevi pareceu divagação — como se eu só estivesse tentando soar como alguém que entendia o que estava dizendo.
E, de algum jeito…
Eu realmente entendia?
Fiquei encarando por mais um segundo antes de, devagar, deixá-lo estendido sobre a mesa.
Talvez fosse um engano.
Ou talvez eu entendesse mais do que achava.
De qualquer forma, eu não sabia como me sentir em relação a isso.
Então, em vez disso, me obriguei a prestar atenção na aula, mesmo que minha mente continuasse voltando para aquela letra vermelha.
Quando a aula finalmente terminou, a sala explodiu de volta à vida.
As cadeiras rasparam alto. As conversas começaram na hora. Todo mundo se apressou para guardar as coisas e sair o mais rápido possível.
Enfiei meu caderno na mochila, me movendo mais devagar do que a maioria. Eu sempre fazia isso. Era mais fácil esperar a multidão diminuir do que abrir caminho no meio dela.
Quando estendi a mão para pegar minha mochila, meu teste escorregou da carteira.
Eu assisti, impotente, enquanto ele tremulava até o chão.
E então —
Um sapato pisou em cima.
Depois outro.
E outro.
— Ótimo — murmurei, quase sem voz.
Levantei depressa, tentando alcançá-lo, mas as pessoas já estavam passando por mim, completamente sem perceber — ou sem se importar — que estavam pisoteando aquilo.
Eu via relances do papel entre os sapatos; a página antes limpa agora estava amassada e marcada de sujeira.
Perfeito.
Hesitei, me agachando um pouco antes de me conter.
Nem valia a pena.
Quando eu chegasse até ele, já estaria completamente destruído de qualquer jeito.
Com um suspiro baixo, me endireitei.
Eu só teria que explicar para o professor depois. Talvez ele entendesse.
Ou talvez achasse que eu fui descuidada.
De qualquer forma… ótimo começo de dia.
Marco
Juro que essa aula dura mais a cada vez que eu aguento até o fim.
Filosofia.
Quem foi que decidiu que isso era necessário?
Eu me recostei um pouco na cadeira, mal prestando atenção enquanto o professor falava sem parar sobre “abrir nossas mentes”.
Aham, claro.
Porque é exatamente nisso que eu vou estar pensando no gelo.
Ei, cara, antes de eu fazer esse arremesso, vamos discutir o conceito de tempo e existência.
Tá bom.
Um bocejo escapou de mim antes que eu conseguisse segurar.
O professor me lançou um olhar — afiado, irritado.
Eu sustentei o olhar dele por meio segundo e então desviei.
Não importava.
Ele sabia. Eu sabia.
Desde que eu aparecesse, eu passava.
Era esse o acordo.
Eu me mexi na cadeira — e então fiquei um pouco rígido quando senti uma mão deslizar para a minha coxa.
Olhei de lado.
Gina.
Ela estava sorrindo, lento e calculado, os dedos desenhando padrões preguiçosos no meu jeans.
Eu dei um meio sorriso, me recostando ainda mais, e fiz um aceno sutil para ela.
Se essa aula ia se arrastar, pelo menos havia… distrações.
Deixei meus olhos se fecharem por um segundo, só curtindo —
— Sr. Jennings.
Abri os olhos de novo.
Diane — a monitora — estava ao meu lado, estendendo meu teste.
Peguei com um sorriso. — Valeu, Dana.
Ela revirou os olhos na hora. — É Diane.
— Certo — eu disse, sem nem me dar ao trabalho de me corrigir.
Ela seguiu em frente sem dizer mais nada.
— Acho que o nome dela é definitivamente Diane — Gina sussurrou, divertida.
Eu dei de ombros. — Tá perto o suficiente.
Baixei os olhos para a folha — e meu sorriso diminuiu.
Em letras vermelhas, em negrito, no topo:
Me procure.
Soltei o ar pelo nariz.
Ótimo.
Bem o que eu precisava.
Um sermão.
Larguei o papel na carteira, já sabendo que isso significava que eu ia ficar depois da aula.
E, sinceramente?
Eu tinha coisas bem melhores para fazer.
