Capítulo 1 1. Funeral da mãe
Aria
“Estamos reunidos aqui para prestar homenagem a Lorain Vale, amada mãe…”
O vento tem cheiro de terra molhada e rosas murchas.
Eu me mantenho na beirada da cova, no pequeno cemitério logo fora de Blackridge, com as botas afundando na lama que gruda em mim como esta cidade sempre grudou.
Cinco anos.
Cinco anos desde que fui embora e jurei que nunca voltaria.
Mantive essa promessa até hoje.
O pastor termina o discurso — alguma coisa sobre paz e os planos misteriosos de Deus.
Interessante que ele não tenha mencionado o sangue e a carnificina associados a esse plano em particular.
Não lembro nem de metade do falatório padrão. Meus ouvidos zumbem com aquele tipo de silêncio que só aparece quando alguma coisa dentro de você se quebrou além de qualquer conserto.
Uma vida inteira, e foi nisso que a vida da minha mãe deu. Um caixão de madeira vagabundo cercado por gente que não se deu ao trabalho de ligar para saber como ela estava nem de estender a mão quando a vida chutou a nossa cara, mas que agora faz questão de soluçar alto o suficiente para todo mundo ouvir.
— Ah, Lorain — chora a Sra. Gunderson.
— Cala a boca — murmuro, quase sem som.
— Fala um pouco mais alto, quem sabe assim ela te escuta — Liam diz baixinho ao meu lado.
Eu não olho para ele.
Meu irmão mais velho está alto e rígido ao meu lado, vestido de preto, com o maxilar tão travado que dá para ouvir os dentes rangendo. Ele foi embora muito antes de mim. Deixou a mamãe e eu para trás como se fôssemos bagagem inconveniente. Num dia, ele estava me ensinando a andar de bicicleta, correndo atrás de mim e gritando: “Não olha pra trás, Aria!”, e no seguinte, estava correndo com Theo e sua alegre turma de encrenca.
Theo. Barric. Ronan. Kade.
Esses homens não passam despercebidos. Não era só o tamanho absurdo deles. Era o jeito de andar, o modo como o ar parecia se contrair na presença deles.
Não importava que não fossem parentes. Havia algo tão parecido na essência que carregavam, como se estivessem acima de tudo. À parte.
Eu nunca entendi por que mamãe deixou Liam ir embora sem lutar.
Por que ela desistiu da nossa família — a mesma que ela sempre nos ensinou a colocar acima de qualquer coisa.
Por que Liam nos trocou como se a gente fosse um carro usado.
Eles estão atrás de nós, sentinelas silenciosas invadindo o meu espaço, com os ombros largos bloqueando o céu cinzento.
Como se pertencessem aqui.
Quanto mais penso nisso, mais eu me eriço.
Minhas emoções sobem até parecer que estou me afogando no abandono dos últimos oito anos.
Eu não me viro, mas eu os sinto. O olhar calculista de Theo. A presença pesada de Barric. A energia inquieta de Kade.
E Ronan.
O olhar de Ronan queima entre as minhas omoplatas.
Uma irritação aguda me atravessa. Com que direito eles ficam ali, como se fossem família? Eles não estavam aqui quando meu pai morreu, nem quando mamãe fazia turnos dobrados para manter a luz acesa. Eles não a abraçaram quando ela chorou à noite por causa de Liam.
Quando ela não me deixou escolha senão ir embora.
Tudo o que eles já fizeram foi trazer sofrimento para a minha família.
O funeral termina rápido. As pessoas murmuram condolências. A Sra. Hargrove aperta minha mão. O velho Dalton faz um aceno solene com a cabeça.
Acho que essa é uma das poucas coisas boas da fofocaiada de uma cidade pequena: não tem muita coisa que eles não saibam, então você raramente precisa se explicar.
Logo, restamos só nós.
Liam limpa a garganta. “Você devia ir descansar um pouco.”
Finalmente olho para ele.
Cinco anos o mudaram. Ele está maior — ombros mais largos, braços mais grossos esticando as mangas da camisa preta. O rosto está mais duro. Mais anguloso.
O cabelo escuro, que ele usava comprido, agora está curto nas laterais e mais longo em cima.
Ele se tornou um homem sem mim.
Há algo contido nos olhos dele, algo que não consigo reconhecer por trás do azul-acinzentado que nós dois compartilhamos.
Ele parece um estranho vestindo a pele do meu irmão.
“Estou bem”, digo, seca.
“Você dirigiu a noite toda para chegar aqui.”
“Obrigada por me lembrar.” Volto a olhar para a lápide simples.
A voz dele sai áspera. “É tão difícil assim olhar para mim?”
Viro para ele, sustentando seu olhar com o mesmo vazio que existe nos olhos dele. “Pronto. Minha atenção alivia sua culpa? Isso é suficiente para você?”
O maxilar dele se contrai. “Essa não é a questão.”
Cruzo os braços sobre o peito. “Então qual é a questão, Liam? Qual é o sentido disso?”
A voz dele baixa. “Você não precisa fazer tudo sozinha.”
Uma risada sem humor escapa de mim. “Que ironia. Desde quando você virou especialista em ficar?”
Atrás de nós, sinto a tensão se esticar até o limite.
“Aria”, Liam adverte.
“Não, sério.” Agora me viro totalmente para ele, a raiva aquecendo meus dedos gelados. “Você devia ir embora. Não é como se estivesse acostumado a ficar mesmo. Volta rastejando pros seus amigos e pra sua mansãozinha assustadora. Nós dois sabemos que é onde você quer estar. Eu vou ficar bem.”
As palavras atingem em cheio. Vejo nos olhos dele — um lampejo de dor antes que ele o esconda.
Ronan dá um passo à frente, como se estivesse tentando proteger meu irmão de mim. Claro que está.
“Isso não é justo”, ele diz, a voz grave e afiada. “Você não sabe o que ele—”
Eu me viro para ele. “Fica fora disso. Isso não é da sua conta.”
Os olhos dele faiscam. Um brilho amarelo que por um momento me faz piscar.
Tem que ser um reflexo. A luz batendo nos olhos dele e ricocheteando de um jeito estranho, perturbador.
“Aria”, Theo interrompe com suavidade, atrás de Ronan. O tom dele é calmo, mas carregado de peso. “Os ânimos estão exaltados. Não vamos piorar isso.”
Lanço um olhar fulminante para todos eles. “Isso é entre mim e meu irmão. Ele é um homem adulto pra caralho e pode falar por si mesmo.”
Barric cruza os braços enormes, mas não diz nada. Kade parece preferir estar em qualquer outro lugar.
Liam solta o ar devagar. “Chega.”
A palavra estala como um chicote. Os outros recuam imediatamente.
Isso me diz mais do que eu queria saber.
O quanto eles são próximos.
Isso me faz sentir menos que nada.
Ele volta a se virar para mim, mais gentil desta vez. “Onde você está ficando?”
Abro a boca para disparar alguma crueldade, mas me contenho. Preciso de informações. Preciso de acesso à casa. Preciso saber o que realmente aconteceu.
A casa da mãe deles está atualmente interditada por causa da investigação policial.
Engulo em seco.
Tudo bem, consigo ser cordial até dar o fora desta cidade.
“A casa está isolada”, digo. “Investigação policial. Não posso ficar lá.”
Os olhos dele escurecem. “Ainda está cercada com fita?”
“Sim. O advogado vai se encontrar comigo na segunda-feira para discutir os últimos desejos dela.”
Ele assente uma vez. “Então onde você vai ficar?”
“Peguei um quarto no motel da Rota 16.”
“No Pine Crest?”, Kade solta.
Lanço um olhar para ele. Ele se cala.
“Sim. No Pine Crest.”
O silêncio pesa no ar.
De repente, fico muito consciente de como estou cansada. De como estou com raiva. De como estou em carne viva.
“Olha, eu vou nessa. Se quiser falar”, digo, forçando controle na voz, “me encontra amanhã de manhã. Sozinho.”
O olhar de Ronan se aguça. O azul-meia-noite dos olhos dele era tão escuro que quase não havia sombras.
“No Starlight Diner.”
Deixo meu olhar pousar de propósito em Ronan antes de recuar um passo. “Sozinho”, repito.
Então me viro e vou embora antes que eu diga alguma coisa que não possa retirar.
O box cheira a café queimado e gordura velha.
Sento num box de vinil rachado no Starlight Diner, encarando o menu plastificado, embora eu já saiba o que vou pedir. Panquecas. Manteiga extra. Linguiça com uma porção de batatas fritas na chapa, porque quem quer que tenha dito que você precisa ser magra feito uma vareta para atrair o sexo oposto claramente ignorou o baixo nível de exigência do sexo masculino.
Era isso que a mamãe costumava pedir para mim depois dos dias ruins.
Me remexo no assento, inquieta de novo. Pensando se Liam toparia vir sem a comitiva.
Depois que Liam se afastou da família, a mamãe mudou. Ficou mais fechada, mais agitada. Depois veio a bebida. O ciclo da doença e das brigas.
No fim, ela me expulsou de casa. A cidade grande era o único lugar que me restava. Longe o bastante para eu fingir que meu passado não existia.
Eu era anônima. Sem expectativas. Sem legado.
O sino acima da porta da lanchonete tilinta.
O ar muda.
Ergo os olhos — e minha respiração falha, apesar de mim mesma.
Ele parece cansado.
Ou talvez eu só esteja enxergando direito agora. A linha do maxilar dele está mais escura pela barba por fazer.
Mas são os olhos dele que me pegam.
Estão cautelosos. Calculistas.
Ele desliza para o box à minha frente.
“Você veio sem eles”, digo.
“Você pediu.”
Nós nos encaramos como adversários antes de uma luta.
A garçonete aparece, alheia à tensão. Pedimos café, e ele acrescenta o pedido dele ao meu, dobrando a linguiça e incluindo bife com ovos.
Ele tenta primeiro.
“Como está a cidade grande?”
“Barulhenta.”
“Ainda está trabalhando naquele escritório de design?”
“Sim.”
“Você sempre gostou de arte.” Ele brinca com o saleiro em cima da mesa.
Estreito os olhos. “Espera, como você sabe onde eu trabalho?”
Ele dá de ombros. “Você é minha irmã.”
Engraçado. Isso nunca o impediu antes.
“E você?”, insisto. “O que tem feito?”
“Trabalhando.”
“Fazendo o quê?”
“Coisas.”
Pouso minha xícara de café. Dois podem jogar esse jogo. “Que fascinante. Por favor, poupe-me de todos os detalhes. Acho que não temos tempo suficiente pra isso.”
O olhar dele se afia. “O que você quer que eu diga?”
“Qualquer coisa, Liam. Algo real e concreto, e não construído pra manter uma muralha entre nós.”
A garçonete deixa nossa comida. O cheiro faz meu estômago revirar.
Ele espera até ela ir embora.
“As coisas estão complicadas agora.” A voz dele é firme, mas eu ouço a porta batendo entre nós.
Não vou arrancar respostas dele.
“Então o que você acha disso tudo?”, pergunto, cortando minhas panquecas.
“O que você quer saber?”, ele pergunta com cuidado.
Inclino-me para a frente e dou uma mordida. Mastigo. Engulo. “Me conta sobre a mamãe.”
O rosto dele endurece.
“A polícia acha que foi uma invasão que deu errado”, ele diz. “A casa estava revirada. No começo, não tinha sinais de arrombamento, mas encontraram uma janela danificada nos fundos.”
“Nesta cidade?”, escarneço. “Todo mundo conhece todo mundo. Não parece provável que ninguém tenha visto nada.”
“Acontece.”
“Acontece?”, observo a reação dele, sem me dar ao trabalho de esconder minha descrença.
“Eles acham que pode ter sido alguém de passagem”, ele continua. “Um andarilho. A rodovia fica perto.”
“Que conveniente.”
O maxilar dele se contrai. “Aria.”
“Ela era cuidadosa”, digo, baixando a voz. “Trancava as portas. Tinha uma câmera na propriedade. Era quase patológico o quanto ela era obcecada por segurança.”
Os olhos dele saltam para os meus, afiados.
Aí está.
“Ela parou de fazer manutenção nelas”, ele diz.
“Como você sabe disso?”
Silêncio.
Meu peito aperta. Eu imagino os últimos momentos dela. Sozinha. Com medo. Chamando por nós.
A culpa corta fundo. Eu fui embora. Eu escolhi a cidade. Escolhi a liberdade em vez da família.
Devíamos ter ficado, sussurra uma voz suave.
Eu empurro o pensamento para longe.
“Vou me encontrar com o advogado em alguns dias”, digo abruptamente. “Pra revisar o testamento dela. Você vai?”
“Vou.”
Sem hesitar.
Eu assinto uma vez.
Comemos em um silêncio tenso.
Quando ele termina, se levanta.
“Então é isso?”, pergunto.
“Por enquanto.”
Reviro os olhos. “Você é inacreditável.”
Ele para, olhando para mim de cima. Por um segundo, eu vejo — o irmão que enfaixava meus joelhos ralados.
“A vida nem sempre é justa, Aria”, ele diz, baixo. “Às vezes, a gente tem que fazer o melhor que pode pelas pessoas que ama.”
A raiva se acende quente e rápida. “Você não tem o direito de me dar lição sobre amor.”
“E você não tem o direito de fingir que foi a única que perdeu coisas”, ele diz.
As palavras acertam em cheio.
Ele dá um passo para trás. “Te vejo no escritório do advogado.”
Ele sai sem dizer mais nada.
Fico sentada ali muito depois de ele ter ido embora, encarando panquecas frias.
Isso não foi uma invasão aleatória.
Meu estômago se revira com a verdade indesejada.
Liam sabe de alguma coisa.
E eu não vou embora até saber o que é.
