Capítulo 2 2. Irmã humana do amigo
Ronan
As árvores ficam mais espaçadas perto da entrada da cidade, mas eu permaneço mais atrás, onde as sombras são densas e as agulhas de pinheiro engolem o som das minhas botas. O letreiro de neon da lanchonete chia contra a penumbra do fim da tarde. Gordura, café queimado, açúcar — cheiros humanos se agarram ao ar como lã úmida.
E, por baixo de tudo isso, ela.
Aria.
Meu lobo se agita sob a minha pele, um rosnado baixo vibrando no meu peito.
Ela é problema.
Eu sei. Mas não podemos impedir Liam de vê-la enquanto ela estiver na cidade para o funeral.
Sigo as batidas do coração de Liam através da parede da lanchonete.
Constantes.
Controladas.
Controladas demais.
É a submissão cuidadosa das emoções que alguém faz quando está se preparando para enfrentar um invasor no meio da noite.
A preparação para qualquer coisa.
Ele está lá há vinte e três minutos. Tempo suficiente para um café, uma refeição rápida e, com sorte, tempo suficiente para uma despedida.
Aria tentou interrogá-lo, e ele se esquivou. Mesmo assim, isso não impediria a reabertura de velhas feridas.
O sino da porta toca.
Liam sai, os ombros tensos, a mandíbula travada. Ele para na calçada sem olhar na direção da linha das árvores.
— Já pode sair.
Ele diz isso baixo demais para os humanos no pátio ouvirem. Meu lobo bufa diante dos sentidos abafados deles.
Eles não me veem sair de entre as árvores. Não percebem a forma sutil como o vento se curva ao meu redor, carregando as palavras deles, eu querendo ou não.
Passo a andar ao lado dele.
— Como foi? — pergunto.
Ele me lança um olhar. Não irritado. Só cansado. — Vamos fingir que você não estava ouvindo cada palavra?
Minha mandíbula se contrai numa tentativa de conter um sorriso de canto.
É verdade. Metamorfos lobo ouvem melhor do que humanos. Não só melhor — mais fundo. Eu ouvi o tremor por baixo da voz de Aria quando ela disse: “Me conta qualquer coisa?”
A forma como o ritmo cardíaco de Liam desacelerou, aliviado, quando ela mudou de assunto.
Não é difícil ouvir conversas a alguns metros de distância. Especialmente para um Alfa.
Metamorfos lobo sentem dez vezes mais do que um humano, e, como Alfa, meus sentidos são ainda mais aguçados.
O difícil é não ouvi-las.
A maioria de nós só passa perto de humanos o tempo necessário. O barulho deles pressiona de todos os lados — confissões impensadas, mentiras mesquinhas, o ritmo do sangue sob a pele frágil, o cheiro de suas emoções mudando o tempo todo.
É exaustivo ignorar isso, até mesmo para um metamorfo experiente. E, para os mais jovens, é tão avassalador que não é incomum terem reações físicas a isso.
É ainda mais tedioso controlar a reação natural da metade loba.
É como nos silenciarmos.
Necessário, ainda assim.
— Eu sei que você não gosta disso... — começo.
— Tudo bem — Liam diz, me cortando enquanto abre a porta da caminhonete.
Não está tudo bem.
Dou a volta pela frente do carro e entro no banco do passageiro. O motor ganha vida com um ronco, a brita estalando sob os pneus enquanto entramos na Astral Lane.
O silêncio se estende entre nós. Não vazio. Carregado.
Minha loba se aquieta no momento em que passamos pelo velho marco de fronteira esculpido em pedra. O ar muda. O cheiro de pinho e cedro fica mais intenso. O zumbido sob a minha pele se estabiliza.
Lar.
Como Alfa, as terras da alcateia são meu santuário. Meu fardo. Meu propósito. Cada cabana enfiada entre as árvores, com quilômetros de espaço para vagar entre elas e ao redor, pertence à nossa alcateia e aos nossos ancestrais antes de nós.
— Não, não está — digo baixinho.
Liam aperta o volante com mais força.
Então eu sinto o cheiro — aflição, cortante e metálica sob o habitual aroma de cedro e fumaça dele. Isso toma o ar.
— Mas vai ficar quando ela for embora — continuo, lembrando-o com gentileza do que precisa acontecer.
A cabeça dele se vira na minha direção num estalo.
— Ronan.
Não me abalo.
— Ela não pode ficar.
— Ela não vai ficar.
— Ela está cavando. Em certos aspectos, isso é pior. Você sabe o que vai acontecer com ela se encontrar algo que não possa desconhecer, algo que não possa deixar de ver.
O maxilar dele se contrai. Ele não nega.
Passamos pelas primeiras cabanas, com fumaça saindo em espirais das chaminés. Alguns dos lobos mais jovens estão treinando perto da linha das árvores. Eles se endireitam quando passamos.
Por fim, Liam solta o ar.
— Só é uma merda ter que ficar sentado ali e deixar que ela acredite no pior de mim. Deixar que pense que eu não me importo.
Uma imagem surge, sem convite.
Olhos azul-acinzentados faiscando. Língua afiada. O queixo erguido para mim como se ela não sentisse o predador no ambiente.
A maioria dos humanos hesita perto de nós. Perto de mim. Os instintos deles sussurram perigo, mesmo que a mente não entenda.
Aria, não.
Ela tinha ficado naquele cemitério e me mandado “cuidar da minha vida”.
Minha alcateia tinha se aquietado. O choque se espalhando entre eles como uma pedra jogada na água.
Minha loba tinha avançado.
Ela nos desafia.
Ela é humana.
Inaceitável.
Ela vai saber disso, mas agora não é a hora.
Isso o acalmou. A mim também, se vou ser honesto.
— Se eu pudesse mudar isso, mudaria — digo a Liam. — Mas nunca se esqueça de que sua alcateia está aqui por você. Nós vamos ficar ao seu lado em qualquer coisa.
Soa quase gentil. Não é.
É a lei.
Minha alcateia vem antes de qualquer coisa.
Antes do conforto. Antes do desejo.
Antes de uma garota humana com sardas imprudentes e uma boca teimosa.
Paramos em frente à minha casa. Liam estaciona, mas não desliga o motor de imediato.
— Você acha que ela vai embora? — ele pergunta.
— Sim.
E, se não for, eu vou garantir que vá.
Ele assente uma única vez, aceitando a ordem por trás do tom.
Eu abro a porta, saio e então paro. “Ainda estou te esperando para o jantar.”
Os olhos dele se voltam para os meus.
Eu digo em voz baixa.
Não é uma sugestão.
“Estarei lá às seis.”
Ele vai embora dirigindo em direção à própria cabana, com poeira levantando atrás dele.
Eu observo até a caminhonete desaparecer entre as árvores.
Ele está ferido. As duas perdas vão afetá-lo, avalia meu lobo.
Eu sei.
E você mandaria embora a única coisa que ameniza isso.
Ela cutuca cicatrizes que ainda não sararam. E as palavras ignorantes dela também não ajudam.
Meu lobo revira os olhos. Você tem mais medo do que ela faz com você.
Eu não respondo a isso.
Lá dentro, minha casa está quieta. Vigas de madeira, lareira de pedra, o cheiro fraco de livros antigos e fumaça.
Santuário.
Vou direto para a biblioteca.
A carta está sobre a minha mesa, onde eu a deixei.
Papel creme — selo oficial.
A Assembleia.
Eu quebro o lacre de novo, embora já tenha memorizado cada palavra.
Fomos informados da lamentável circunstância da morte de um indivíduo, Loarin Vale. Devido à natureza da relação com Liam Vale, consultores da Assembleia foram enviados para garantir as relações com os humanos de Blackridge e a estabilidade da alcateia durante seu período de luto.
Meu lobo se ergue na mesma hora, a pelagem da nuca arrepiada. Eles não se importam com a alcateia. Querem outra coisa.
Eles sempre dizem que é para proteção, mas o único que querem proteger são eles mesmos.
Cada nova lei vem disfarçada de segurança. Cada nova restrição arranca um pedaço da autonomia da alcateia. Da autoridade suprema e da designação divina do Alfa e da hierarquia dos metamorfos.
Meu lobo solta um rosnado de nojo. Submissos tentando ganhar poder.
Eu concordo.
Toques de recolher. Registros de deslocamento. Comunicação obrigatória de envolvimentos com humanos.
Por que eles iriam querer verificar como Liam está depois da morte da mãe humana dele? Nunca demonstraram interesse por mortes semelhantes, até onde eu sei.
A menos que saibam de alguma coisa sobre o pai dele.
Algo que não compartilharam durante as audiências de tutela.
O pensamento se enrola, apertado, no meu estômago.
Ótimo. Mais um motivo para tirar Aria da cidade.
Se a Assembleia está farejando por aí e ela está fazendo perguntas, isso é uma colisão prestes a acontecer.
Outra imagem lampeja.
O cabelo dela caindo pelas costas, escuro e espesso. A constelação tênue de sardas sobre o nariz. O jeito como o pulso salta na garganta quando ela está com raiva.
Eu empurro o pensamento para longe.
Eu não deveria estar pensando assim sobre uma humana.
Nunca termina bem.
Eu sinto o cheiro de Barric antes que ele bata. Especiarias e ferro, e aquela nota terrosa associada ao lobo.
Enfio a carta no jeans e desço as escadas.
Ele entra carregando uma bandeja de carne marinada como se fosse o dono da casa.
Seus olhos cinzentos e penetrantes me examinam. “Vim mais cedo para ajudar.”
“É a sua cara”, digo.
Ele sorri. “Você está com uma cara de quem engoliu um espinho.”
“A Assembleia mandou uma carta.”
A expressão dele endurece na mesma hora. “Sobre o quê?”
“Liam.”
Ele pousa a bandeja com cuidado. “Isso não é normal.”
“Não. Não é.”
Barric me estuda. Pela postura dele, percebo que já está montando todos os cenários possíveis para essa pequena investida da Assembleia.
Ele coloca a bandeja sobre a bancada da cozinha. “Como ele está?”
“Tão bem quanto se pode esperar.”
Barric estala a língua. “É. Aria não facilita, né?”
Eu me enrijo antes que consiga evitar.
Aquilo é... afeição no tom dele?
“Você não pode esperar que uma humana entenda”, ele continua. “Não importa. Ele tem a alcateia. A gente só precisa lembrá-lo disso.”
“Ela vai investigar a morte da mãe”, digo.
As sobrancelhas de Barric se juntam. “Como você sabe?”
“Ouvi os dois conversando no restaurante. Ela não parece convencida pela teoria do viajante de passagem.”
Ele solta uma risada abafada. “Creepy.”
“Necessário.”
Meu lobo se agita, inquieto.
“E se ela descobrir alguma coisa que a Assembleia enterrou?”, Barric pergunta em voz baixa.
“É exatamente nisso que estou pensando.”
O silêncio pesa entre nós.
Barric se apoia na bancada. “Está pensando em acelerar a partida dela?”
“Sim.”
“Como?”
Não respondo de imediato.
Há opções. Nenhuma vai terminar bem.
“Ela tem um emprego na cidade”, Barric diz devagar. “Amigos. Não devia ser tão difícil convencê-la a voltar.”
“Ela é teimosa”, admito.
Quase surge um sorriso no rosto dele diante disso. “Percebi.”
Eu gosto disso, diz meu lobo.
Claro que gosta.
Você se sente atraído por isso.
Não me dou ao trabalho de responder.
Barric me observa com atenção demais. “Cuidado, Alfa. Andamos numa linha tênue entre curiosidade e risco.”
“Eu sei.”
“Hum.”
Meu olhar vai direto para o dele. Um aviso silencioso.
Ele ergue as mãos. “Só estou dizendo. Humanos complicam as coisas.”
“Complicam.”
E, ainda assim, o cheiro dela permanece na minha mente como fumaça.
Eu me afasto da bancada.
“Acenda a churrasqueira”, digo a Barric. “O jantar é às seis.”
Ele assente, pegando a bandeja. “É bom você fazer aquelas batatas carregadas da última vez.”
Quando ele sai, vou até a janela. As terras da alcateia se estendem diante de mim, manchadas pela luz do fim da tarde. Cabanas. Trilhas.
Lobos se movendo num ritmo fácil.
Meus para proteger.
Meus para comandar.
Meus para sacrificar.
Não vou deixar Aria nem a Assembleia se meterem no meio disso.
