Capítulo 3 3. O segredo do irmão

Aria

Estou sentada de pernas cruzadas na beirada da cama dura do motel, com o telefone preso entre o ombro e a orelha, encarando o padrão floral desbotado do carpete como se ele pudesse, de repente, dar algum sentido à minha vida.

Não dá.

Nada deu, desde que a mamãe morreu.

“Aria?” A voz de Hazel chia do outro lado da linha. “Você ainda está aí?”

“Tô.” Minha voz sai mais baixa do que eu pretendia. “Desculpa. Só... pensando.”

“Pensando ou entrando em parafuso?”, ela pergunta com gentileza.

Solto uma risada fraca. “Provavelmente os dois.”

Hazel sempre foi o tipo de amiga que escuta o que as pessoas não dizem. Nós nos conhecemos trabalhando numa cafeteria na parte alta e chuvosa da cidade. Nada grita mais “tentando encontrar meu caminho” do que fazer desenhos florais em cafés colombianos superfaturados. No instante em que nos conhecemos, batemos de cara. Só duas garotas tentando seguir em frente e se afastar de um passado do qual não queríamos ser lembradas.

Desde então, ela tem sido minha guarda-costas emocional. Ela sabe quando estou fingindo estar bem, quando estou prestes a chorar e quando estou mentindo para mim mesma.

Agora, com certeza é a terceira opção.

“Então”, ela diz com cuidado, “como você está de verdade hoje?”

Eu me recosto na parede atrás da cama e fico olhando para o teto com textura.

O quarto do motel tem um cheiro suave de produtos de limpeza baratos e de café queimado vindo da recepção lá embaixo. Não é exatamente reconfortante, mas é silencioso. Silencioso o bastante para que meus pensamentos pareçam mais altos do que deveriam.

“Eu fico pensando que ele vai ligar”, admito.

As palavras escapam antes que eu consiga detê-las.

Hazel não interrompe.

“Quer dizer... eu sei que ele não vai”, continuo, esfregando a testa. “Mas minha cabeça ainda espera por isso. Como se, a qualquer minuto, meu celular fosse vibrar, e ele fosse dizer que sente muito, que quer recomeçar ou compensar o tempo perdido, alguma coisa assim.”

O silêncio preenche a linha por um segundo.

“Isso é normal”, ela diz baixinho. “Ele é da família e, por mais bravas ou decepcionadas que a gente fique com eles, uma parte pequena da gente ama.”

“Eu sei.”

Mas saber não torna isso mais fácil.

Expiro devagar.

“E ainda tem todo o resto.”

“O que mais?”

Hesito, encarando a porta do outro lado do quarto.

“A mamãe”, digo por fim.

Hazel suspira baixinho.

“É”, ela diz. “Como isso está indo?”

Dou um sorriso sem humor.

“Sabe qual é a pior parte?”, digo. “Foi ela quem me expulsou. Quem me forçou a ir embora. E agora eu nunca vou saber de verdade por quê. Quer dizer, claro, a gente não estava se dando muito bem no fim, mas não era o suficiente, sabe? Na verdade, quanto mais eu penso nisso, mais eu sei que tinha que haver outra coisa. E agora eu simplesmente tenho que aceitar que um assalto que deu errado tirou a vida dela. Nesta cidade. Tem alguma coisa errada nisso, Hayes.”

Ela não discute.

Porque sabe que eu estou certa.

“Tentei perguntar ao Liam sobre a invasão, e ele só concorda com a avaliação da polícia”, continuo. “Dá pra acreditar?”

Hazel solta um bufido.

“Aquele homem me parece muitas coisas”, ela diz, “mas burro nunca foi uma delas.”

Exatamente.

“É isso que quero dizer”, digo, com a frustração se infiltrando na minha voz. “É como se ele estivesse tentando esconder informações de mim.”

Ainda consigo ver aquilo na minha mente.

O jeito como o maxilar de Liam se contraiu.

Como o sorriso dele desapareceu só o bastante para sinalizar que a conversa tinha acabado.

Estava na hora de eu perceber que amar Liam significava aceitar os muros que ele construía.

Ou pelo menos era isso que eu dizia a mim mesma.

“Imaginei que ele me contaria quando estivesse pronto”, digo. “Todo mundo tem coisas sobre as quais não quer falar.”

“Claro”, Hazel diz.

“Mas isso?” Dou uma risada amarga. “Agora estou lidando com papelada e advogados, e metade do tempo eles me fazem perguntas que eu nem consigo responder.”

“Que tipo de perguntas?”

Puxo uma linha solta da coberta do motel.

“O empregador da mamãe. Os benefícios dela. Contatos. Números de emergência.” Balanço a cabeça. “Eu nem sei com quem ela trabalhava desde que fui embora.”

Hazel fica em silêncio de novo.

“Isso… não é normal, Ari.”

“Eu sei.”

As palavras têm gosto de derrota.

“E eu odeio que uma parte de mim ainda esteja com raiva dele, com raiva dela”, admito. “Juro, se não fosse por você, eu estaria sozinha. Isso é tão patético, não é?”

“Se for, então eu estou exatamente na mesma situação que você.”

“Ah, ótimo, talvez a gente devesse começar a preparar a nossa casa com caixas de areia agora, porque daqui a alguns anos vamos estar cercadas por...”, argumento, sem muita convicção.

“Não, obrigada”, Hazel completa, sem rodeios. “Me manter viva já é tarefa suficiente.”

Reviro os olhos.

Ela está certa.

Hazel sempre está.

“Você ama seu irmão”, ela afirma com firmeza. “Mas às vezes amor não basta.”

Engulo em seco.

A palavra segredos pesa mais do que eu esperava.

Antes que eu possa responder, Hazel muda de assunto.

“Então”, diz ela, com aquela voz prática de sempre, “quando você vai se encontrar com o advogado?”

Solto uma risadinha abafada.

“Bela mudança de assunto.”

“De nada.”

Olho para o relógio na mesa de cabeceira.

“Segunda-feira”, digo. “É quando vamos ver a questão da herança e da casa.”

“E depois disso?”

Solto o ar devagar.

“Devo estar a caminho de casa até terça.”

Casa.

A palavra parece estranha agora.

A cidade onde cresci de repente parece menor do que nunca.

“Ótimo”, Hazel diz. “Porque se esconder num motel, comendo salgadinhos de máquina, não é um plano de vida de longo prazo.”

“Me senti ofendida.”

“E deve mesmo.”

Sorrio de leve.

“Mas, até lá”, continuo, “estou basicamente presa aqui, tentando evitar todo mundo da cidade.”

Hazel ri.

“A brigada das condolências?”

“Você não faz ideia”, resmungo. “Tentei pegar um café esta manhã e fiquei presa com a Sra. Donnelly por vinte minutos.”

“Ah, não.”

“Ela chorou. Eu chorei. Depois ela me disse que o Liam era ‘um jovem tão bom’.”

Hazel solta outra risadinha pelo nariz.

“Bom... pelo menos ele tem alguma qualidade.”

“Obrigada”, murmuro.

Nós duas rimos baixinho.

Por um momento, o peso no meu peito se alivia só um pouco.

Então—

Toc. Toc. Toc.

O som seco atinge a porta atrás de mim.

Eu congelo.

Hazel percebe imediatamente.

“O que foi isso?”

“Alguém acabou de bater”, sussurro.

“Serviço de quarto?”

Franzo a testa.

“Este lugar mal serve café da manhã”, digo. “Não é exatamente o tipo de lugar que tem serviço de quarto.”

Outra batida.

Mais alta dessa vez.

Desço da cama e caminho devagar até a porta.

“Espera um segundo”, digo a Hazel.

“Não desliga”, ela diz rapidamente.

“Não vou desligar.”

Meu coração bate um pouco mais rápido quando piso no azulejo frio perto da porta.

Tem alguma coisa naquela batida que parece... errada.

Deliberada demais.

Inclino-me para a frente e espreito pelo olho mágico.

Dois homens estão parados do lado de fora.

Os dois usam jaquetas escuras.

Não conheço nenhum deles.

Um arrepio desliza pela minha espinha.

Fico perfeitamente imóvel. Tão imóvel que não consigo dizer se eles estão respirando.

Talvez, se acharem que eu não estou aqui, vão embora.

Alguns segundos passam.

Então um deles fala.

“Sra. Vale. Estamos aqui para fazer uma entrevista de encerramento sobre o falecimento de Lorian Vale.”

Minha respiração falha.

“Sabemos que a senhora está aí.”

Meu estômago despenca.

A voz de Hazel sussurra pelo telefone. “Aria?”

“Estou aqui”, murmuro.

“O que está acontecendo?”

Mantenho a voz baixa.

“Tem dois caras do lado de fora da minha porta.”

“O quê?”

“Eles acabaram de dizer meu nome. Disseram que vieram fazer algum tipo de entrevista, mas isso não pode estar certo, pode?”

“Não”, ela responde automaticamente.

Engulo em seco e falo mais alto em direção à porta.

“Vou me encontrar com o advogado na segunda-feira”, digo através da madeira. “Se isso for sobre documentação, vocês podem entrar em contato com ele.”

Os dois homens trocam um olhar.

Há algo neles que parece estranho.

Errado.

Como se não pertencessem a um lugar como este.

“Se a senhora puder abrir a porta, Sra. Vale”, um deles diz calmamente, “nós podemos explicar.”

Sirenes de alarme disparam na minha cabeça.

Nem pensar.

“Vocês podem falar com o advogado da nossa família para marcar uma reunião”, respondo com firmeza.

O primeiro homem suspira.

“Somos do departamento financeiro da corporação Samson and Son’s”, ele diz. “Viemos recolher assinaturas para acordos familiares que Liam Vale estabeleceu com a empresa.”

Minha confusão dispara.

O trabalho do Liam?

Que empresa?

Meu aperto no telefone se intensifica.

Hazel sussurra: “O que foi que ele disse?”

“Alguma coisa sobre o trabalho do Liam”, sussurro de volta.

Então—

Uma terceira voz fala.

“Senhora Vale.”

No instante em que a ouço, algo estranho acontece.

É mais grave do que as outras.

Mais calma.

E, por algum motivo… mexe com alguma coisa dentro de mim.

Como um gancho fisgando por trás das minhas costelas.

Meu coração falha uma batida.

“Sim?”, respondo automaticamente antes mesmo de perceber que estou falando.

Hazel fica em silêncio.

A voz continua.

“Acho que teríamos uma conversa mais produtiva se a senhora abrisse a porta.”

A atração fica mais forte.

“Não vai levar mais do que alguns minutos.”

Meus dedos se movem sem permissão.

Eles vão na direção da trava.

Minha mente grita que isso é uma péssima ideia, mas meu corpo não parece se importar.

A fechadura de metal roça as pontas dos meus dedos.

Gire.

É só abrir a porta.

Fale com eles.

Vai levar só um minuto.

Minha mão se fecha em volta da trava.

A vontade parece… antinatural.

Como se alguém estivesse forçando os meus pensamentos.

Minha respiração acelera.

Tem alguma coisa errada.

Muito errada.

Meus dedos começam a girar a trava.

Então—

Liam.

O pensamento me atinge como um raio.

Seu sorriso.

Sua voz.

O jeito como ele sempre me dizia para confiar nos meus instintos.

Minha mão congela.

Não.

Eu a puxo para longe da porta como se tivesse me queimado.

Meu coração bate violentamente no peito.

“Desculpe”, digo através da porta, forçando firmeza na voz. “Vocês vão ter que falar com o advogado da família.”

O silêncio vem em seguida.

Então a voz mais grave fala de novo.

“Senhora Vale.”

Desta vez, eu não respondo.

Em vez disso, me afasto da porta.

Rápido.

“Hazel”, sussurro com urgência.

“Estou aqui.”

“Acho que tem alguma coisa errada.”

“Como assim, errada?”

“Eu não sei”, digo, com o pânico se insinuando na minha voz. “Mas tem alguma coisa neles que não está certa.”

“Liga para alguém”, ela diz imediatamente.

Eu assinto, mesmo que ela não possa ver.

“Tá.”

Minhas mãos tremem quando desligo com Hazel e abro meus contatos.

Só tem uma pessoa perto o bastante para chegar aqui rápido.

Eu aperto para ligar.

Meu irmão atende no segundo toque.

“Aria?”

“Oi”, digo depressa. “Você está ocupado?”

“O que foi?” ele pergunta. Seu tom está alerta.

Olho na direção da porta.

As sombras dos dois homens ainda estão visíveis por baixo da fresta.

“Tem dois caras do lado de fora do meu quarto de motel”, digo. “Eles dizem que são do seu trabalho, mas eu não confio neles.”

O tom do meu irmão se aguça, passando da preocupação para a fúria.

“O quê?”

Uma pausa. Vozes se elevam ao fundo.

Então ele diz com firmeza: “Estou indo.”

O alívio me invade.

“Tá bom.”

“Tranca a porta”, ele acrescenta.

“Ela já está trancada.”

“Não abre para ninguém.”

“Pode confiar”, digo baixinho. “Eu não vou abrir.”

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