Capítulo 4 4. Os machos indesejados

Theo

O quarto do motel é pequeno demais para tantos predadores.

Eu me encosto na parede perto da janela, braços cruzados, observando os dois homens parados junto à porta como se pertencessem a este lugar.

Eles não pertencem.

Cada instinto do meu corpo diz que não.

Meu lobo concorda.

O cheiro deles está errado, ele rosna dentro da minha cabeça, andando de um lado para o outro sob a minha pele.

Eu também sinto. Por baixo do sabonete barato do motel e do ar mofado do corredor.

Fraco.

E algo mais pesado.

Grimm.

Por que mandariam um Grimm para investigar uma humana?

Meu lobo rosna para os machos indesejados.

Do outro lado do quarto, Ronan parece estar a uns três segundos de arrancar a garganta de alguém.

As emoções dele são tão palpáveis que até Aria fica olhando na direção dele.

Os ombros estão rígidos, a mandíbula travada, o poder Alfa fervilhando no ar como o calor antes de uma tempestade. Liam está ao lado da irmã, calmo por fora, mas igualmente furioso por dentro. Barric se apoia na cômoda com os braços cruzados, silencioso e perigoso. Kade está perto da porta, bloqueando-a como uma parede viva.

Se achavam que iam sair dali sem a permissão de Ronan, acharam errado.

Aria se senta na beira da cama, bem no centro de toda aquela tensão sobrenatural, completamente humana.

Completamente alheia.

O pelo da nuca do meu lobo se arrepia.

Frágil, ele resmunga.

Não vamos deixar nada acontecer com ela, respondo.

Porque, se ela soubesse o que somos, o mundo que ela entende se estilhaçaria.

Os dois consultores olham de relance entre o Alfa e nós, como homens parados numa sala cheia de armas carregadas.

Então Aria quebra o silêncio.

— Bom, isso aqui não tá um amorzinho?

A voz dela é seca, pingando sarcasmo. A carranca quando nos viu chegar com Liam não passou despercebida.

Eu quase sorrio.

Ela olha entre os dois estranhos, braços cruzados.

— Vocês queriam falar comigo — diz, inclinando a cabeça de leve. — Agora que meu irmão está aqui, acho que a palavra é de vocês.

O Grimm dá um passo à frente.

Ele é alto, largo, com olhos escuros demais para serem reconfortantes. Grimm sempre carrega aquela energia pesada, como se o ar ao redor deles se lembrasse de cada morte que já testemunharam.

Eles são a classe guerreira do mundo dos metamorfos. Sabe-se que todos os Alfas são Grimm, mas nem todo Grimm é Alfa.

Meu lobo rosna.

Eu olho para o Faint. Minha própria designação. Nós somos feitos para a furtividade e usados para desenterrar informações ocultas.

Andador de túmulos, meu lobo alerta.

— Sra. Vale — diz o Grimm, com suavidade. — Desculpe se a assustamos mais cedo; não era nossa intenção. Eu sou Henry, e este é Jasper.

— Bom, talvez da próxima vez que vocês planejarem falar com uma mulher viajando sozinha, tentem uma ligação em vez de seguir um manual de assassinato dos anos 90.

Kade segura o riso.

Liam se aproxima um pouco mais da irmã.

Sutil.

Protetor.

O Grimm percebe.

Todo mundo percebe.

— Como estávamos dizendo — o Grimm continua calmamente —, só queríamos lhe apresentar alguns documentos.

— Certo — Aria responde. — Só que não tenho certeza de quando vocês explicaram por que isso não podia esperar?

Ela gesticula na direção da pilha de papéis que o homem está tirando de uma pasta de couro.

O cheiro de Henry se salpica de frustração, e eu quase sinto pena do homem.

Claramente, eles não sabiam onde estavam se metendo quando vieram questionar Aria.

— Gostamos de resolver essas questões rapidamente — diz Jasper. — Para evitar… contratempos.

Os olhos de Ronan lampejam.

A fúria de Alfa emana dele em ondas.

Mandar consultores diretamente para a família de um membro da alcateia sem avisar o Alfa primeiro?

Isso não é só desrespeito.

É um desafio.

Minha loba se eriça.

Eles estão testando nosso território.

É, penso. E escolheram a porra da alcateia errada.

Jasper permanece em silêncio, parado um pouco atrás de Henry.

Ele é pálido, de traços marcados, com olhos que cintilam num prateado tênue.

Minha loba mostra os dentes.

Trapaceiro.

Aria pega os papéis.

Sua testa se franze enquanto ela os folheia.

— O que é isso exatamente? — ela pergunta.

— Acordos-padrão — diz Henry. — Seu irmão providenciou certas contingências com o empregador dele para cuidar da família. A parte da sua mãe agora passa legalmente para você.

A confusão dela se aprofunda.

— Meu… — ela olha para Liam. — O que é isso?

O cômodo fica completamente imóvel.

Nós não sabemos o que a Assembleia está tramando, mas nunca houve acordo nenhum de qualquer tipo.

Liam não reage, mas eu sinto a tensão irradiando dele. — Seguro de vida. Eu fiz apólices por procuração para você e para a mãe.

— Por quê? — Aria pergunta.

— Eu queria manter vocês seguras. Você e a mãe.

Ela abaixa os olhos para os papéis de novo, usando o dedo indicador para cutucar a cutícula do polegar.

— A logística corporativa pode ser… complicada — Henry responde suavemente. — Só precisamos de uma simples entrevista de desligamento para podermos dar início ao processo.

A voz de Ronan corta o ar como uma lâmina.

— Engraçado — ele diz, preguiçosamente. — Vocês não acharam que deviam avisar o nosso departamento antes de abordar a irmã do Liam.

Aria olha ao redor da sala.

— Vocês todos trabalham para essa… empresa?

— Sim — eu digo, mantendo a mentira simples.

O Grimm se vira para ele.

— Uma falha nossa — diz ele.

Ronan sorri.

Sem calor algum.

— Não — ele diz, em voz baixa. — Não foi.

Minha loba abre um sorriso sombrio. O Alfa gosta de caçar.

Aria olha de um para o outro.

— Tá — ela diz devagar. — Sinto como se tivesse acabado de entrar no meio de alguma coisa.

— Não entrou — Liam diz rapidamente. — Desculpa, eu não mencionei isso.

Ela lança para ele um olhar que diz com toda clareza: Eu não acredito em você.

O Grimm limpa a garganta.

— Sra. Vale, se pudermos apenas confirmar alguns detalhes.

E então começa.

As perguntas.

Elas parecem normais.

Só na superfície.

Mas todo lobo no cômodo ouve o verdadeiro sentido por baixo disso. A avaliação do quanto ela pode ou não saber sobre a morte, sobre a alcateia.

— Sua mãe alguma vez mencionou que se sentia ameaçada?

— Minha mãe e eu não estávamos nos falando, então não.

— Ela deixou algum documento pessoal em casa?

— Não que eu saiba. Mas a polícia ainda está com a casa isolada, então não tenho como ter certeza.

— Alguém incomum chegou a entrar em contato com ela?

Aria dá de ombros, mas seus olhos se estreitam.

— Se viciados contam como algo comum, então sim.

O choque turva o cheiro de Liam.

Drogas?

Os consultores a observam com cuidado o tempo todo.

Testando.

Sondando.

Meu lobo rosna baixo no meu peito.

Eu me desencosto um pouco da parede.

Só o suficiente para ele perceber que eu percebi.

Os olhos prateados dele deslizam até os meus.

E então se afastam.

Boa escolha.

Depois de dez minutos de interrogatório educado disfarçado de burocracia, o Grimm reúne os documentos novamente.

— Obrigado pelo seu tempo, senhora Vale.

— Só isso? — ela pergunta.

— Por enquanto.

Eles se movem em direção à porta.

Kade se afasta devagar.

Mas não antes de se inclinar o bastante para perto do Grimm para murmurar alguma coisa que eu não consigo captar direito.

Seja o que for, faz a mandíbula do Grimm se retesar.

Então os dois consultores vão embora.

Ronan, Kade, Barric e Liam vão logo atrás, colados neles.

Assenti para Liam antes de me trancar no quarto com Aria.

Por um momento, ninguém fala.

E, de repente, o quartinho do motel parece mais silencioso.

Aria olha para mim.

— Você não vai embora?

— Não.

Eu me encosto na parede de novo.

— Liam pediu para eu ficar até terminar de falar com eles.

— Certo — ela diz. — Imagino que telepatia seja parte da sua bromancezinha também, né?

A suspeita se infiltra no olhar dela.

São olhos marcantes.

Anéis cinza-frios se estendendo até um azul neutro.

Meu lobo se anima. Fêmea bonita.

Se comporte.

Ela me estuda como se estivesse tentando resolver um quebra-cabeça.

Então suspira e se recosta na cama.

— Então — ela diz. — Como vai o trabalho?

Eu dou uma risadinha.

— Indo muito bem, como dá pra ver.

Ela solta uma risada pelo nariz. — Claro. Então me diz o que é que você faz mesmo?

— A gente trabalha para uma empresa com várias propriedades de investimento na cidade — digo, me mantendo o mais perto possível da verdade. — Eu administro o depósito de madeira.

Ela solta o ar como se estivesse prendendo a respiração. — Estou surpresa por você ter me contado qualquer coisa. — Há uma pausa. — Obrigada.

Eu me sinto um tremendo babaca.

Por um momento, nenhum de nós fala.

Então pergunto, baixo:

— Como você tem estado?

A pergunta a pega desprevenida.

Ela baixa os olhos antes de voltar a me encarar com uma expressão neutra.

— Eu não sei.

Honesta.

Eu me movo devagar, me acomodando numa cadeira diante dela.

— A cidade é diferente, mas eu me virei.

Meu lobo amolece.

Humana triste.

Ela enfia uma mecha de cabelo obsidiano atrás da orelha.

“Eu fico esperando o Liam atravessar aquela porta e me dizer que dá pra tudo voltar a ser como era, que a gente pode voltar. Eu achei… Bem, a mamãe não está mais aqui… então só temos um ao outro, né?”, ela admite, entrelaçando as mãos.

Meu peito se aperta.

Se eu pudesse mudar o destino do Liam, ou o dela, eu mudaria, nem que fosse só pra poupá-los dessa dor.

“Ele te ama”, as palavras saem vazias.

Uma oferta patética perto da explicação que ela merece.

Ela ergue a cabeça. “Acho que vou ter que acreditar na sua palavra.”

Eu tento aliviar o clima. “Você ainda faz aquele café horrível?”

A boca dela se abre. “Ei!”

Eu sorrio.

“Foi uma vez só, e eu queria ver qualquer um de vocês tentar dar um jeito em qualquer coisa que saísse daquela velha lata.”

A lembrança de uma Aria mais nova fazendo café pra gente na primeira vez que visitamos o Liam na casa dele me volta à mente, e eu deixo escapar uma risada.

“Idiota”, ela acusa, sorrindo.

O peso no ambiente diminui um pouco.

Meu lobo relaxa.

Ela ainda está sorrindo quando diz: “Sabe, essa é a conversa mais normal que eu tive a semana inteira.”

“Acho seguro dizer que eu sinto o mesmo.”

O conforto dela é como chuva fresca, o cheiro nítido e leve.

“Então… você não me parece alguém que trabalha com madeira.”

Ergo uma sobrancelha. “Você está sugerindo que eu não sou forte o bastante?”

Isso fere um pouco meu ego.

Ela me examina de cima a baixo, o rosto se enchendo de cor quando passa pelo meu peito e desce para as minhas pernas.

Esquece. Ele está funcionando perfeitamente agora.

“Não. Você parece… bem.”

“Só bem?”, provoco.

“Limpo.” Ela se corrige.

“Ah, então exibir não é algo que quem trabalha com madeira faz, entendi.”

O rubor vai de rosa a cereja. “Não foi isso que eu quis dizer.”

“O que você quis dizer?” Inclino-me para a frente, absorvendo o cheiro úmido da atração dela sob o constrangimento.

“Eu… você só parece… cuidadoso, só isso. E trabalhar num depósito de madeira parece isolado.”

“Eu sei me entreter.”

“Imagino que sim. Vocês parecem ser muito bons em se manter longe dos outros.”

Aí está. O motivo estridente de ela não poder ficar em Black Ridge um segundo a mais do que precisa.

“Aria”, eu digo, baixo.

Alguma coisa no meu tom faz com que ela endireite a coluna.

Os olhos dela se estreitam um pouco.

“O quê?”

Eu respiro fundo.

“Você precisa ir embora.”

O sorriso some.

“O quê?”

“Depois de conversar com o advogado. Talvez seja melhor você voltar pra casa.”

A confusão toma conta do rosto dela.

“Por quê?”

Eu hesito.

Verdades demais.

Mentiras de menos.

“Porque vai ser melhor pra você e pro Liam se você cortar isso de uma vez.”

Eu sustento o olhar dela e a expressão arrasada no rosto dela me dá vontade de me enfiar num buraco.

E, pela primeira vez desde que entrei neste quarto…

Eu percebo o quão difícil vai ser continuar mentindo pra ela.

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