Capítulo 5 5. O argumento
Aria
É tudo uma merda.
Cada palavra que sai da boca do Theo é uma merda absoluta e revoltante.
Cinco minutos atrás, a gente estava conversando de verdade. Conversando mesmo. Não aquelas conversas de simpatia constrangedoras que todo mundo na cidade fica tentando ter comigo. Nem aquelas trocas cuidadosas, na ponta dos pés, que as pessoas usam quando têm medo de que você desmorone.
Era normal.
E, por um instante idiota e frágil, eu achei que…
Eu nem sei o que eu achei.
Talvez o mundo do Liam não estivesse completamente fechado para mim.
Talvez alguém desse grupo estranho e cheio de segredos realmente me enxergasse como algo além da irmã indesejada do Liam.
Aí o Theo virou a chave do babaca.
Eu fecho os dedos, me negando à vontade crescente de puxar aquele coque masculino idiota do cabelo dele.
Você tem que ir embora.
As palavras ecoam na minha cabeça como um tapa.
Agora eu encaro ele do outro lado do quartinho do motel, a raiva crescendo no meu peito como pressão numa garrafa chacoalhada.
“Como é?” eu digo.
Theo não se mexe de onde está, encostado na parede. Braços cruzados. Expressão cuidadosamente neutra.
“Você ouviu.”
Meu maxilar trava.
“Ah, eu ouvi”, digo, seca. “Só achei que talvez eu tivesse entendido errado.”
“Não entendeu.”
A calma na voz dele só me deixa com mais raiva.
Porque ele não está gritando.
Disfarçando a crueldade com uma fachada razoável. Como se estivesse me fazendo algum favor ao me dizer o que eu deveria fazer numa situação dessas.
Os olhos escuros dele sustentam os meus. Duros, imóveis.
E, de algum jeito, isso piora tudo.
“Você não pode ficar aqui, Aria”, ele continua.
“Ah, é mesmo?” Cruzo os braços, espelhando a postura dele. “E por que, exatamente?”
Ele hesita.
“Porque você tem uma vida lá na cidade, e o Liam tem a dele. Todo mundo estava muito bem daquele jeito.”
Solto uma risada curta.
“Certo. Claro.”
Ele franze levemente a testa.
“Estou falando sério.”
“Eu também.”
Dou um passo para mais perto, o calor subindo no meu peito.
“Vocês aparecem do nada, agem como se fossem parte de algum clube secreto, me interrogam sobre quanto tempo eu vou ficar na minha cidade natal e agora você está me dizendo o quê? Que meu irmão fica melhor sem mim?”
O maxilar dele se contrai.
“Você não está escutando.”
“Não”, eu rebato. “Você que não está explicando.”
O silêncio se estende entre nós.
Theo suspira.
“Aria… você e o Liam—”
Ele se interrompe.
Mas já é tarde.
“O quê tem o Liam e eu?” eu exijo.
Os olhos dele endurecem.
“As vidas de vocês não se encaixam mais, e só vai te machucar fingir que se encaixam. Algumas pessoas…” ele engole em seco, e o pomo de adão sobe e desce. “Algumas pessoas é melhor amar de longe.”
As palavras acertam como um soco no estômago.
Por um segundo, eu não consigo respirar.
Minha voz sai mais baixa do que eu esperava. “Isso é… uma coisa muito escrota de se dizer.”
Theo desvia o olhar por um momento.
Depois volta a me encarar.
“É a verdade.”
A raiva explode em mim. “A verdade?” Eu rio, amarga. “Você quer falar de verdade?”
Ele não responde.
“Ótimo”, continuo, a voz subindo. “Então aqui vai uma verdade pra você. O único motivo de eu e o Liam não ‘nos encaixarmos’ mais é por causa de você e dos seus garotos psicopatas do clubinho. Eu não sei o que você fez com o meu irmão, mas um dia ele vai acordar dessa lavagem cerebral e perceber que jogou a família fora por…”
A testa do Theo se enruga.
“O quê?”
“Você”, eu repito. “Você e seu grupinho esquisito.”
A expressão dele escurece.
“Isso não—”
“Eu não me importo”, eu corto.
Os olhos dele faíscam.
“A gente não fez nada com o Liam.”
“Ah, por favor. Fala isso pra alguém que não viveu a minha vida.”
Theo balança a cabeça.
“Isso não é pra te machucar. Talvez um dia você olhe pra trás e entenda, mas agora seus sentimentos não importam. Só a verdade.”
“Ah, eu adoraria ouvir qual é”, eu disparo. “Se alguém realmente dissesse pra mim.”
Ele dá um passo à frente, agora se impondo sobre mim.
Eu percebo o quanto eu sou pequena perto dele.
“Nós somos diferentes, Aria.”
As palavras saem baixas.
Sérias.
“E essa diferença significa que a sua vida e a vida do Liam nunca iam continuar no mesmo caminho.”
Eu encaro ele. Será que ele se ouve quando fala?
“Você é inacreditável.”
“Você já tem uma vida na cidade”, ele continua. “Uma boa. Você deveria voltar pra ela.”
Meu estômago se revira.
“Pra vocês todos seguirem em frente?” eu pergunto, fria.
Ele não responde.
O que já é resposta suficiente.
Minha voz sai afiada.
“Uau.”
A porta se abre atrás de nós.
Liam entra de volta no quarto.
Os olhos dele vão de um a outro imediatamente.
“O que está acontecendo?”
Eu aponto para Theo.
“Seu amigo é um babaca.”
Theo solta o ar devagar.
Liam esfrega a nuca.
“Aria—”
“Não”, eu interrompo. “Você não vai consertar isso com palavras bonitas.”
O quarto de repente parece pequeno demais.
Cheio demais de coisas que ninguém vai dizer.
Liam olha para Theo.
Depois volta a olhar para mim.
“O Ronan quer que a gente saia”, ele diz baixo. “A gente vai embora.”
Eu solto uma risada vazia.
“Ótimo.”
O silêncio se estende.
Então Liam diz, suave:
“O Theo só está tentando cuidar de você.”
Minha raiva dispara de novo.
“Cuidar de mim?” repito. “Dizendo que eu não pertenço à vida do meu próprio irmão?”
“Não foi isso que ele disse.”
“Foi exatamente isso que ele disse.”
Liam suspira.
“Você está distorcendo as palavras dele.”
“Não”, digo com firmeza. “Estou ouvindo.”
Meu peito fica apertado. A verdade que eu vinha evitando brilha na minha cara como policiais jogando luz pela janela em dois adolescentes tarados no banco de trás de um carro à meia-noite.
“É isso?” pergunto de repente.
Liam congela.
“O quê?”
Engulo em seco.
“Segunda-feira”, digo baixinho. “Depois da reunião com o advogado.”
O silêncio dele me diz tudo.
Mas eu insisto assim mesmo.
“Esse é o último dia em que eu devo esperar te ver?”
Liam parece que eu acabei de esfaqueá-lo.
“Aria…”
Ele não responde.
Isso é pior do que se tivesse respondido.
Minha garganta arde.
Ele abre a boca.
“Eu ia—”
“Não”, corto, ríspida.
Ele para.
“Eu ia explicar—”
“Eu disse não.”
Raiva e mágoa se misturam até eu não conseguir mais distinguir uma da outra.
“Só vai embora.”
“Aria—”
“Vai embora!”
Ele dá um passo na minha direção.
“Escuta—”
“Sai daqui! SAI DAQUI!” As palavras rasgam a minha garganta.
Liam para.
O quarto fica completamente em silêncio.
Por um momento, ele só olha para mim.
Então assente devagar.
Theo me observa com cuidado.
Como se eu pudesse quebrar.
Talvez eu já tenha quebrado.
Eles saem.
A porta se fecha com um clique.
O silêncio desaba sobre mim como uma onda.
Meu peito se aperta.
Meu coração parece estar se estilhaçando em pedacinhos.
Fico encarando a porta por um longo momento.
Então pego o celular e mando uma mensagem rápida.
Eu: Está tudo bem. Ligo mais tarde.
Hazel responde quase instantaneamente.
Hazy: Tem certeza?
Eu digito de volta.
Eu: Sim. Só preciso tomar um ar.
Enfio o celular no bolso.
“Vai ficar tudo bem”, murmuro para mim mesma.
Tem que ficar.
Pego minha jaqueta e saio.
O ar fresco bate no meu rosto quando piso no estacionamento.
Meu velho fusquinha vintage me espera perto da calçada.
O carro é mais velho do que eu, tecnicamente.
Uma coisinha surrada, com a tinta descascada e um motor teimoso que só pega quando está a fim de colaborar.
Deslizo para o banco do motorista.
“Vamos lá, garota”, murmuro.
O motor tosse.
Depois ruge, ganhando vida.
“Bom o bastante.”
Saio do estacionamento e sigo dirigindo para a cidade.
Não sei para onde estou indo.
Só sei que preciso me afastar daquele motel.
De Liam.
De Theo.
De todas as coisas que ninguém quer me explicar.
Por fim, viro na estrada que leva ao brechó na beira da cidade.
O lugar não mudou em anos.
A mesma placa desbotada.
O mesmo estacionamento torto.
Se tem uma coisa que sempre me acalmou, é garimpar em brechó.
Caçar tesouros.
Encontrar coisas esquecidas e imaginar no que elas poderiam se transformar.
Empurro a porta e entro.
O sino acima dela tilinta.
O cheiro de livros velhos e tecido me envolve como um abraço familiar.
Caminho devagar pelos corredores.
Luminárias vintage.
Pilhas de discos.
Utensílios de cozinha aleatórios.
Minha mente vagueia enquanto eu examino as prateleiras.
De volta aos meus velhos sonhos.
Eu sempre quis ser escultora.
Criar algo com as minhas mãos.
Mas a vida tinha outros planos.
Design gráfico pagava as contas.
Mesmo assim…
Isso não significa que eu não possa criar coisas para mim mesma.
Viro num corredor e vejo algo numa prateleira.
Um jogo de chá de vitral.
É delicado.
Colorido.
Completamente imprático.
Mas, no instante em que o pego, alguma coisa se acende na minha mente.
Meu peito se aquece.
Meu coração acelera.
Imagens passam pela minha cabeça.
Chamas.
Azul.
Roxo.
Vermelho.
Laranja.
Como fogo dançando através do vidro.
Imagino minhas mãos moldando aquilo.
Infundindo cor.
Dando vida às chamas.
Mas de onde viria essa energia?
O que a alimentaria?
“Não imaginei você como o tipo de garota do chá da tarde.”
A voz masculina e grave me faz pular.
O vidro quase escorrega das minhas mãos—
Mas uma mão dispara e o segura.
Rápida.
Rápida demais.
Ergo os olhos, piscando, para o homem ao meu lado.
“Certo”, digo, limpando a garganta. “Obrigada.”
Pego a xícara de volta.
E então eu realmente olho para ele.
Olhos cor de avelã.
Pele bronzeada.
Cabelo escuro e ondulado roçando a gola.
Uma barba rústica emoldura um sorriso torto.
Ah. Bem. Isso é… uma distração.
E, de repente, flertar parece a fuga perfeita.
“E só para você saber”, digo, erguendo o queixo de forma brincalhona, “eu sou uma conhecedora de chá.”
Ele cruza os braços. “Ah, é mesmo? Que tipo de chá?”
“Ah, você sabe… preto, verde e todos os tipos de…” Faço uma pausa. “…folhas frutadas.”
Há um segundo de silêncio.
Então os dois caímos na risada.
“Tá bom”, admito. “Você me pegou.”
Ele ri baixinho. “Foi o que eu pensei.”
“Eu não sou uma garota do chá”, digo. “Mas sou uma garota das xícaras de chá.”
Ele inclina a cabeça. “Para coleção ou…?”
Sorrio. “Ou é mais a minha praia.”
Ele estende a mão. Os dedos brilhando com anéis de prata. “Ransom.”
Eu a aperto. “Aria.”
Ele me estuda por um momento. Então pergunta, casualmente: “Posso te convidar para comer alguma coisa rapidinho?”
Penso no motel.
Em Liam.
Em Theo.
Na dor ainda instalada no meu peito.
E sorrio. “Sim. Eu gostaria.”
