Capítulo 8 8. Caçador

Barric

No segundo em que Aria se agacha junto a um pequeno riacho para lavar o sangue das mãos, eu me afasto e tiro o celular do bolso. Meu lobo já está andando de um lado para o outro sob a minha pele, inquieto e furioso.

Eles fugiram, ele rosna no fundo da minha mente.

Não importa; Ronan teria pego eles.

Disco o número de Theo. Ele atende no segundo toque.

“Me diz que os guardas não perderam eles”, digo com calma, virando-me para longe de Aria.

Considerando que ainda estamos no escuro sobre como ela venceu o Chamado, é melhor não corrermos riscos falando livremente demais.

“Não perderam”, Theo responde. Então, após uma breve pausa: “Já foi resolvido.”

Tradução: eles não vão mais incomodar ninguém.

Ótimo.

Porque, se aqueles desgraçados tivessem cravado os dentes nela—

Meu lobo rosna. Eles tocaram no que é nosso.

Eu ignoro isso.

Por pouco.

“Ela tá bem?”, Theo pergunta.

Olho na direção do riacho bem quando ela se levanta e se vira, estendendo as mãos. O cabelo dela está emaranhado de folhas. Há marcas de sujeira na bochecha. As mãos estão raladas e em carne viva, e há um arranhão fino ao longo do maxilar que, de algum jeito, eu não tinha notado antes.

E os olhos dela—

Ainda arregalados.

Ainda assustados.

Ver aquele olhar de novo faz alguma coisa dentro do meu peito se retorcer violentamente.

“Ela tá viva”, eu digo. “Mas tá toda ralada.”

Theo solta o ar devagar. “Traz ela pro estacionamento. Liam já tá a caminho.”

“É”, murmuro. “Estamos indo.”

Desligo e caminho até ela.

“Pronta?”, pergunto.

Ela assente, embora pareça que pode desabar se uma brisa bater nela. “Sim.”

De perto, os estragos são piores do que eu imaginei. O jeans dela está rasgado no joelho. O sangue secou ao longo dos antebraços. As palmas das mãos estão em carne viva e, pelo estado amarrotado da camisa, aposto que há mais alguns arranhões pelo tronco.

Meu maxilar se contrai.

Em que diabos a Assembleia estava pensando, tentando encurralá-la, capturá-lo?

Meu lobo rosna baixo, sombrio. Liderança fraca de matilha.

“Não temos muito chão pela frente”, digo, mais suave do que pretendia. “O estacionamento do restaurante é logo ali.”

Ela acompanha meus passos ao meu lado.

Por alguns minutos, andamos em silêncio entre as árvores.

Cada estalo de galho faz ela se encolher.

Toda vez que ela se aproxima mais de mim sem perceber, meu lobo fica mais quieto.

Bom, ele diz. Ela fica perto.

Quando as luzes do estacionamento surgem à vista, eu já decidi uma coisa.

Ela não vai a lugar nenhum esta noite.

Não sozinha.

Saímos da linha das árvores — e, no instante em que Aria vê a ambulância estacionada ali, ela solta um arquejo.

“Ransom!”

Antes que eu sequer consiga processar, ela sai correndo.

Meus instintos disparam.

Meu lobo desperta de imediato. Macho.

Sigo o olhar dela.

Um homem está apoiado na traseira de uma ambulância enquanto um dos nossos médicos da matilha cuida do ombro dele. O sangue encharca o tecido rasgado da jaqueta.

Aria freia bruscamente diante dele.

“Você está bem?”, ela solta, com a voz carregada de horror.

O jeito como ela diz o nome dele me acerta como um soco.

Íntimo demais.

Preocupado demais.

Meu lobo mostra os dentes. Eu não gosto dele.

Nem eu.

Theo para ao meu lado bem quando noto os anéis nos dedos do homem.

Prata.

Gravados.

O reconhecimento passa entre Theo e eu no mesmo instante.

Caçador.

Que diabos Aria está fazendo com um Caçador?

O homem — Ransom — lhe dá um sorriso cansado. “Oi, raio de sol. Está tudo bem. Já passei por coisa pior.”

“Você está sangrando!”, ela diz, parecendo prestes a entrar em pânico. “Meu Deus, achei que aquilo tivesse te matado.”

Um dos médicos da nossa alcateia termina de enfaixar o ferimento e dá um tapinha no braço de Ransom. “Temos que levar você ao hospital e administrar antibióticos para evitar infecção, mas você não está correndo risco de morrer por perda de sangue.”

Ele trabalha no hospital da cidade, o que significa que esse incidente vai ficar em sigilo. Sem registros. Sem perguntas.

Ransom assente em agradecimento e volta a olhar para Aria.

“Vou ficar bem”, ele garante. “Eles vão me levar para dar pontos. Eu te ligo quando sair.”

Ela parece que vai entrar na ambulância com ele.

É aí que eu dou um passo à frente.

“Liam está vindo ver como você está”, eu digo.

Ela lança um olhar para mim, depois volta a encarar Ransom.

Ele ergue uma sobrancelha.

“Liam?”, ele pergunta.

“Meu irmão”, ela explica rapidamente. “Esses são amigos dele.”

Tem algo errado nessa descrição.

Theo se mexe ao meu lado, claramente pensando a mesma coisa.

Amigo do irmão.

É.

Também não gosto disso.

Ransom nos estuda por mais um instante, então assente.

“Tudo bem”, ele diz a ela. “Me liga depois.”

“Vou ligar.”

As portas da ambulância se fecham e, um minuto depois, o veículo vai embora, as luzes vermelhas piscando pelo estacionamento escuro.

Aria observa a ambulância desaparecer.

Theo para ao lado dela e ergue gentilmente uma das mãos dela.

O olhar dele desce para o jeans rasgado dela.

“Vamos”, ele diz. “Vamos limpar isso.”

“Mas o meu carro...”

Todos nós nos viramos.

Estacionado na beirada do estacionamento está talvez o menor buggy off-road que eu já vi na vida.

Theo encara o veículo.

Depois olha para ela.

“É”, ele diz, sem rodeios. “A gente não vai a lugar nenhum nisso aí.”

Ela pisca.

Ele aponta o polegar para a caminhonete dele. “Depois a gente volta para buscar.”

Para minha surpresa, ela não discute.

Só assente e deixa que ele a conduza até a caminhonete como se estivesse funcionando no piloto automático.

Meu lobo a observa com cuidado. Choque.

É.

Esse pensamento também me atinge um segundo depois.

Porque, normalmente, essa mulher briga contra tudo.

Mas agora?

Ela simplesmente entra na caminhonete quando Theo abre a porta.

O trajeto é silencioso.

Silencioso demais.

E, quando entramos na longa estrada de terra que leva às terras da alcateia, a inquietação começa a se insinuar sob a minha pele.

Humanos nunca puseram os pés aqui.

Nunca.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo