Capítulo 3
Nos últimos meses, renegados vinham atacando alcateias, mas nunca tomando posse do território. Parecia que estavam atrás de alguma coisa — ou de alguém. Ninguém sabia de nada. O Conselho dos Lobisomens convocara todos os Alfas para se reunirem e tentar deter os ataques. Já havia vítimas demais, alcateias demais dizimadas. E, se ninguém enfrentasse aqueles renegados, a própria existência dos lobisomens estaria ameaçada.
Felix estava no escritório, cuidando da papelada dos assuntos da alcateia. Era o Alfa da Alcateia Garra Branca e era responsável por tudo o que dissesse respeito aos seus. E agora seu principal objetivo era proteger todos os membros da alcateia dos renegados selvagens. Os renegados atacaram muitas alcateias vizinhas, mas ele conseguira salvar várias delas e reivindicar suas terras para expandir a própria alcateia. Se os Alfas não tivessem morrido, ele os mantinha em seus cargos, mas o controle final era dele.
Na noite anterior, acontecera um incidente perto dos limites do parque. Uma garota humana estava prestes a ser atacada por um renegado. Ele se surpreendeu por ela ter chegado até ali, porque a alcateia ficava a certa distância da estrada e fora do campo de visão — a não ser que alguém tivesse vontade de fazer uma trilha muito longa pela floresta, o que era improvável.
Por séculos, os lobisomens viveram nas sombras, sem serem detectados. Alguns viviam às claras entre os humanos, desde que não revelassem sua identidade. Se um lobisomem quisesse revelar sua identidade a um humano, precisava pedir permissão ao comitê. Mas havia exceções, quando se tratava de companheiros. Cada lobisomem nasce com um companheiro. Sua outra metade era escolhida pela Deusa da Lua, a criadora de todos os lobisomens. Quando ele ou ela atingia a maioridade e se transformava pela primeira vez, era provável que sentisse o companheiro.
Um vínculo de almas entre duas pessoas. A questão é que, mesmo sendo destino, alguém pode escolher aceitar ou rejeitar. Mas não é algo fácil para nenhum dos lados, e às vezes leva ambos à loucura, porque negar aquilo que deveria ser tem consequências.
Felix tinha tudo. Era um alfa excelente e construíra seu nome. Tinha o amor e o respeito da alcateia e a admiração de muitos. Mas nada disso se comparava à alegria de ter um companheiro. Quando se transformou pela primeira vez, ele esperava encontrar a sua. Tinha tanta certeza de que não demoraria… mas demorou. Teve de ver seu melhor amigo Jake, o Beta, encontrar um companheiro, e depois todo mundo. Ele nunca perdeu a esperança e procurou por ela em alcateias diferentes, e até tentou território humano, mas em vão. Tinha muitas perguntas, mas ninguém lhe daria a resposta de que precisava. Todas as conquistas e vitórias não significavam nada sem sua companheira, mas ele tinha de seguir firme, porque tinha o dever de proteger e liderar seu povo.
Enquanto cuidava da papelada, aguardava notícias sobre a garota que fora resgatada. Ainda não a tinha visto, mas garantira que ela estava em boas mãos. Assim que se recuperasse, ele chamaria sua velha amiga Alexa, uma bruxa, para apagar a memória dela sobre lobisomens. Não podia correr o risco de deixá-la ir embora com o que tinha visto. Por enquanto, ela precisava ficar na clínica da alcateia até que aquilo fosse feito.
Felix ouviu uma batida na porta, e então ela se abriu de uma vez. Jake entrou e veio em sua direção. Felix levantou a cabeça da papelada e deu atenção a ele.
— Você ainda está no escritório? Não vai ver a nossa paciente? — Jake perguntou, curioso.
Felix suspirou e se recostou na cadeira.
— Eu estive ocupado e não tive chance de sair daqui. Além disso, não há necessidade de eu honrar a presença de uma invasora humana. Tenho você para isso. — Ele lançou um sorriso de canto para Jake.
— O que você faria sem mim?! — Jake exclamou, sarcástico, e se sentou. — Então, como está a situação? Ela está bem?
— Você quer dizer se a Mercedes está bem. E sim, ela está bem, só com alguns hematomas aqui e ali — respondeu.
A sobrancelha de Felix se ergueu, questionando.
— O nome dela é Mercedes? Tipo um carro Mercedes-Benz?
Jake lhe lançou um olhar incrédulo.
— Não, não um carro Mercedes-Benz, um nome. Você nunca ouviu esse nome antes? — Ele balançou a cabeça. — Não, nunca. Mas é um nome bonito.
— Aliás, a Crystal conversou com ela e fez algumas perguntas sobre ela, mas ela não contou muita coisa. Ela não disse nada sobre lobisomens para a Crystal — disse Jake.
Ela é diferente. Se fosse outra pessoa, já teria aberto a boca e despejado tudo o que viu. Mas, por outro lado, humanos têm dificuldade de acreditar em coisas sobrenaturais ou paranormais sem provas. Tudo precisa de prova, até a sua própria identidade. Mesmo assim, o risco era grande demais. A última coisa de que eles precisavam era de humanos intrometidos querendo provar uma teoria sobre a existência do sobrenatural.
"Ela talvez ainda esteja em choque, assimilando tudo. Até onde sabe, pode achar que estava alucinando com aquilo tudo. Se for esperta, não vai arriscar ser levada para o hospício." Jake deu uma risadinha com o que Felix disse.
"Mas há algo estranho nisso", Jake declarou, pensativo. Felix olhou para ele, confuso. "O que quer dizer com isso?"
"Quero dizer que aquela garota, Mercedes, não deveria ter conseguido chegar tão longe sendo perseguida por um lobisomem." Ele fez uma pausa e olhou para Felix, cuja mente já estava trabalhando. "Você não—"
Felix o interrompeu. "Não, eu também não achei isso. Você mesmo não disse que ela era completamente humana, sem nenhum traço de sobrenatural?"
"Antes de descartar essa possibilidade, Felix, leve em consideração que existem os que despertam tarde. Talvez ela seja alguma coisa, mas ainda não tenha consciência disso. Mas do que eu tenho certeza é que nenhum humano normal consegue fugir de um lobisomem com essa velocidade."
"Acho que devemos deixar isso pra lá. Já temos coisas demais no prato para nos preocuparmos com ela. Desde que ela não cause problema nenhum enquanto estiver aqui, ela pode ser o que quer que seja. Embora eu ainda ache que ela é só humana." Jake assentiu e cedeu. Não adiantava prolongar a conversa se Felix estava encerrando o assunto. Talvez ele estivesse certo. Ele não devia pensar tanto nela. Em poucos dias, ela iria embora. Mas havia algo nela em que ele não conseguia pôr o dedo. O rogue que estava atrás dela a deixou fugir. Ele não queria machucá-la, senão teria feito isso no segundo em que teve a chance. Mas não fez, e ainda se arriscou a cruzar as fronteiras da alcateia White Claw. Ele queria alguma coisa com ela. Mesmo sem fazer ideia do que fosse, seu instinto lhe dizia que era importante.
Uma coisa sobre Jake é que ele era um homem analítico, que pensava em tudo nos mínimos detalhes. E, se algo não fazia sentido, ele se esforçava para conectar as peças do quebra-cabeça. Ele foi arrancado de seus pensamentos de solucionador de mistérios.
"A propósito, por que Crystal ainda está trabalhando? Achei que tivesse dito a ela para se concentrar nela mesma em vez dos outros, já que está grávida." Jake sorriu à menção de sua companheira e do filhote que estavam esperando. Crystal Perez é sua companheira. Ele a encontrou nas alcateias vizinhas que eles resgataram. Ela é uma ômega, a posição mais baixa na hierarquia dos lobisomens. Ela não estava nas melhores condições. A vida inteira, não passou de uma mera escrava para todos os membros da alcateia, e ainda sofreu abuso sexual da maioria dos machos, inclusive do Alfa da alcateia.
Isso fez com que ela sofresse danos internos e ficasse incapaz de conceber. Nada disso fez Jake amá-la menos do que ela merecia. Na verdade, ele a amou ainda mais. Por todas aquelas vezes em que ela se sentiu não amada. Quando decidiram começar uma família, enfrentaram dificuldades. Jake fez questão de assegurar a Crystal que continuaria a amá-la como sempre, mesmo que nunca conseguissem ter um filho deles.
Mas então um milagre aconteceu. A Deusa da Lua os abençoou com o filhote que eles tanto desejavam, e não poderiam estar mais felizes.
Jake desejou que a sorte pudesse sorrir para seu querido amigo Felix. Ele sabia que Felix se sentia obrigado a compartilhar da alegria deles, mas aquilo o quebrava por dentro. Todo mundo estava feliz, menos ele. Ele tinha de assistir e celebrar a felicidade dos outros, mas não recebia nada da própria.
— Você conhece a Crystal. Ela ama o trabalho até demais, e eu consigo convencê-la a ficar mais na dela. Ela diz que não vai aguentar ficar sem nada para fazer, e que, se não se mantiver ocupada, a cabeça dela vai para onde ela não quer. Então eu disse que ela podia continuar trabalhando, desde que não se mate de trabalhar. E quando a barriga começar a crescer, ela vai se afastar pelo resto da gravidez.
Felix percebeu o brilho intenso que cintilava nos olhos dele quando falava da companheira. Inveja e dor correram por suas veias, mas ele dominava a arte de mascarar as emoções. Ele sabia que tinham pena dele, mas, contanto que não parecesse digno de pena, ninguém demonstraria isso abertamente.
— E você? Está pronto para ser pai?
— Quem é que está pronto para qualquer coisa na vida, ainda mais para a paternidade? Eu venho desejando isso já faz um tempo, então gosto de acreditar que estou pronto para o que vier com ser pai.
Jake expressou sua alegria, e Felix se dissolveu nas palavras dele, perdido em pensamentos. Continuava se perguntando se tinha feito algo para irritar a Deusa da Lua, a ponto de ela abandoná-lo. Aquilo o matava, e seria só questão de tempo até ele estourar e perder a cabeça. Sua sanidade se agarrava por um fio.
— Bem, acredite em mim: você vai ser um ótimo pai para o seu filho, e a Crystal é a mais sortuda por ter você ao lado dela. Cuide dela — disse a Jake, com toda a sinceridade.
— A sua vez também vai chegar. Não perca a fé na Deusa da Lua. Ela não abandona ninguém. Você vai encontrar a sua companheira, e vai ter nela tudo o que deseja — declarou Jake.
Felix soltou uma risada sem humor.
— Das suas palavras aos ouvidos da Deusa, meu amigo.
