Capítulo 4
Parecia tudo tão surreal. Mercedes se sentia em paz e relaxada pela primeira vez. Ela não estava assustada nem ansiosa, esperando que algo ruim acontecesse, e aquilo era uma sensação estranha, considerando que as pessoas vão para o hospital justamente por causa de alguma coisa ruim. Tinham se passado apenas cinco dias, e ela já estava se acostumando com o quarto em que estava. Todos que conhecia a tratavam bem e atendiam às necessidades de cada um, por menores que parecessem. Embora ela tivesse a impressão de que isso tinha alguma coisa a ver com sua boa e primeira amiga de verdade, Crystal.
Crystal tinha sido uma bênção em sua vida. Ela aparecia mais do que o necessário para ver como Mercedes estava. Mas ela não reclamava. Era como se Crystal a entendesse. Ela não queria ficar completamente sozinha e voltar a sentir aquela solidão assustadora. Quando Crystal aparecia, falava sobre a própria vida e sobre a família maravilhosa que tinha. O marido a amava demais. Ela até contou que estava grávida do primeiro filho. Durante todo esse tempo, Mercedes sentiu como se realmente a tivesse conhecido por completo e como se as duas tivessem criado um vínculo. Mercedes ficou um pouco triste quando Crystal falava da família, mas se sentia feliz por nem todo mundo ser amaldiçoado como ela.
Crystal falava demais sobre si mesma, e isso era bom, porque Mercedes não conseguia se imaginar revivendo o próprio passado tão cedo, logo depois de começar a se sentir um pouco melhor. Então ficou grata porque, desde o primeiro dia em que foi internada, Crystal parou de sondar sua vida. Seria torturante ter de reviver aqueles momentos outra vez.
Depois havia a questão do lobisomem. Ela não tinha dito uma palavra sobre isso a ninguém. Para ser sincera, ela mesma tinha dúvidas. Quais eram as chances de estar sendo perseguida por um lobisomem que quase a matou e ser resgatada por três lobisomens? Talvez ela simplesmente tivesse desmaiado na floresta por causa do estresse e da exaustão e sonhado com toda aquela saga de lobisomens. Mas, no fundo, ela sabia que tudo o que tinha presenciado era real. Ela sentia isso dentro de si. Talvez só não quisesse que fosse verdade, porque era algo enorme. Significaria que tudo aquilo de ficção sobre o sobrenatural e todas as outras coisas que supostamente são impossíveis era, sim, possível, e que a verdade sempre foi aquilo que “supostamente não era verdade”. Mas as pessoas continuariam alheias a isso, porque não havia prova da existência deles além de terem sido vistos por uma garota de rua fugitiva e sem-teto. É, claro que acreditariam nela. De qualquer forma, ela sentia que certas coisas era melhor não dizer. Os humanos não costumam reagir muito bem a coisas que vão além do normal. Ela teve sorte de não perder o juízo e sair por aí dizendo às pessoas que viu um lobo do tamanho de um carro. Então decidiu tentar fingir que nada tinha acontecido e deixar as coisas como estavam. Aqueles lobos não a mataram, embora pudessem ter decidido fazer isso para manter o segredo deles em segredo. Devem ter pensado que ninguém acreditaria nela, mas isso significava alguma coisa, porque ainda era um risco, e eles o correram.
Mas ainda havia o caso de homicídio não resolvido. Todo mundo foi assassinado, menos ela, e ela não se lembrava de porra nenhuma do que tinha acontecido. Todas essas coisas estranhas acontecendo tinham de significar alguma coisa, mas era justamente isso que ela não conseguia entender. Que tipo de azarada ela era para passar por tantas desgraças, uma atrás da outra? Estar cercada de cadáveres e ser perseguida por um lobisomem assassino e assustador era algo que ela não queria viver de novo. Um arrepio percorreu seu corpo ao pensar no que a esperava quando deixasse o hospital. Pena que não podia prolongar a estadia, porque não tinha condições de deixar a conta ainda maior.
Falando nisso, precisava perguntar a Crystal quando ela viesse fazer a próxima visita. Mercedes roía as unhas, tentando pensar em como pagaria as contas do hospital. A quem ela queria enganar? Não havia a menor chance de conseguir bancar qualquer coisa naquele momento. Exatamente então, a enfermeira entrou com uma tigela de frutas, panquecas cobertas de mel e cerejas por cima, acompanhadas de chá gelado. A culpa a invadiu, e seu enorme apetite desapareceu. Como podia simplesmente ficar sentada ali, sendo uma aproveitadora? Agora nem conseguiria engolir aquele café da manhã de aparência tão deliciosa.
Mas, para tentar se sentir melhor, pensou por outro ângulo. Ela não podia pagar por nada daquilo, mas também não podia deixar tudo ir para o lixo recusando a comida quando ela já estava bem diante dela. Parecia ridículo, mas ela precisava encontrar uma forma de aproveitar a refeição sem se sentir culpada.
A enfermeira colocou a bandeja de comida sobre a mesinha da cama e lhe deu um sorriso doce. Mercedes forçou um sorriso de volta. Em seguida, a enfermeira afofou o travesseiro para deixá-la um pouco mais confortável e aumentar a culpa já gigantesca que ela sentia. Mercedes quis dizer para a enfermeira parar de fazer coisas desnecessárias para o conforto dela, mas a boca não colaborou. Era exatamente o que faltava: fazê-la se sentir uma merda justo quando estava se sentindo bem. Ela culpava todo o tempo livre, que a fazia pensar demais em tudo. Afinal, dizem que mente vazia é oficina do diabo. Ela estava no hospital, aproveitando os benefícios, sabendo que não tinha como pagar.
Nesse momento, a porta se abriu, e Mercedes sorriu ao sentir um cheiro familiar. Mas havia outro cheiro, desconhecido. Um cheiro masculino forte, tão inebriante. Crystal entrou no quarto, com um homem ao lado. Um sujeito bruto, deliciosamente bonito, de cair o queixo — literalmente. Mercedes arfou, como se tivessem arrancado o ar dos seus pulmões. Ele tinha cabelo preto como a noite, olhos cor de safira semicerrados, lábios cheios cor de pêssego e uma barba por fazer. Que sorte a dela. Um homem tão lindo tinha que vê-la com o cabelo parecendo um ninho de passarinho e vestindo uma camisola de hospital. As bochechas dela se tingiram de rosa, e ela, nervosa, enfiou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Olá, Mercedes. Hoje eu vim com o meu superior para te ver — disse Crystal.
As sobrancelhas de Mercedes se franziram, confusas. Por que o superior dela precisaria vê-la? Seu coração acelerou, pensando que finalmente iam expulsá-la do hospital. Seus olhos pousaram em Crystal, pedindo uma explicação em silêncio. Os olhos de Crystal estavam cheios de culpa e tristeza. Ela tinha gostado muito de Mercedes e não queria que ela fosse embora, mas era “o que é melhor para todo mundo”. Não eram palavras dela. Jake tinha dito isso enquanto tentava convencê-la a largar Mercedes e esquecê-la. Todo mundo pensava assim, então Crystal estava em minoria.
— O que está acontecendo, Crystal? — Mercedes finalmente perguntou, tentando diminuir a tensão no quarto.
O superior a quem Crystal se referia estava parado num canto, encarando-a de modo estoico.
Crystal se aproximou e estendeu a mão para a dela, chamando sua atenção e desviando-a do superior.
— Eu tenho que te contar uma coisa — admitiu.
Mercedes engoliu em seco; a expectativa estava matando. Crystal soltou um suspiro pesado, porque o que queria dizer não era fácil. Ela se sentou ao lado da cama e olhou nos olhos de Mercedes.
— Desde o dia em que você chegou, você tem estado sob o engano de que está num hospital... para humanos. Mas não está — confessou.
O coração de Mercedes disparou e o monitor apitou.
— O-o que v-você quer dizer, Crystal? — perguntou, fazendo o possível para não surtar.
Crystal esfregou o braço dela, tentando acalmar seu nervosismo.
— O que quer que você tenha visto naquela noite, é tudo verdade, e você está numa clínica de lobisomens, nas terras da matilha — disse Felix pela primeira vez desde que entrara no quarto.
Os olhos de Mercedes se arregalaram, e ela tirou os braços de Crystal de seus ombros.
— O que está acontecendo aqui? O que é isso e por que vocês me trouxeram pra cá? — a voz dela saiu uma oitava acima do que pretendia.
— Você está aqui porque foi a um lugar onde não devia. Vocês, humanos, não avisam uns aos outros para não se meterem na floresta à noite? Você viu algo que não devia ver, e agora temos que desfazer isso — disse Felix, impaciente.
Nada fazia sentido para Mercedes.
“Alpha, por favor! Deixe eu falar com ela. Me dê um tempo e eu a levo até o seu escritório”, Crystal implorou a Felix através do vínculo mental, para não piorar a situação. Felix assentiu com rigidez e saiu em silêncio pela porta. Agora Crystal ficou sozinha com Mercedes. A situação estava menos tensa e Mercedes sentiu o corpo relaxar de imediato.
— Eu sei que você ainda está em choque, mas essa é a verdade. Eu não te contei antes porque não queria te agitar.
Mercedes ficou em silêncio, tentando processar o que acabara de ouvir. Ela tinha estado cercada de lobisomens e não fazia a menor ideia. Justo quando achou que estava num lugar melhor, num lugar seguro.
— Fala comigo... por favor.
Mercedes olhou para Crystal, curiosa. Quando viu lobisomens na floresta pela primeira vez, imaginou todo tipo de coisa horrível, mas, olhando para Crystal, ela era diferente. Atenciosa e doce — ao contrário do superior.
— Do que ele estava falando? O que eles vão fazer comigo? — perguntou, lembrando-se de ele dizer que tinham que desfazer o que ela viu.
Crystal percebeu que não adiantava enrolar. De qualquer forma, Mercedes não se lembraria de nada.
— Tem uma bruxa, Alexa. O Alpha chamou ela para que ela possa apagar a sua memória.
A boca de Mercedes se abriu, espantada. A parte de apagar a memória passou batida; ela travou foi na parte da bruxa.
— Tem uma bruxa aqui? — perguntou.
