Capítulo 5

Crystal trouxe roupas limpas para Mercedes, já que as dela estavam rasgadas. As duas permaneceram em silêncio, tentando não piorar ainda mais a situação. Crystal explicou a Mercedes o que ela precisava saber, porque ela perguntou. Disseram a ela que sua amiga iria embora e nunca se lembraria dela. Provavelmente não era uma boa ideia criar apego por ela. Ela não conseguiu evitar. Mercedes era apenas tímida e doce. Diferente das fêmeas da sua alcateia.

Crystal só era bem tratada pelas outras por ser companheira de um Beta. Se não fosse por isso, ela nem estaria ali. Todo privilégio que recebia era por causa do status do seu companheiro na alcateia. Embora fosse grata, isso não bastava. Ela queria que gostassem dela por quem ela era, não por quem estava ao lado dela. Não queria respeito ou preocupação falsos desse tipo. Com Mercedes, era diferente. Ela não sabia nada sobre Crystal e gostou dela por sua personalidade e seu caráter. Em tão pouco tempo, as duas construíram um laço forte que logo se romperia.

Enquanto iam em direção ao escritório do Alfa, Mercedes fez Crystal parar e insistiu para que ela lhe mostrasse o perímetro da alcateia. Crystal hesitou em fazer o Alfa esperar, mas pensou: por que não? Aquela seria a última vez que poderia estar ali com ela. Então a levou para conhecer o campo de treinamento, algumas das casas onde as famílias moravam, o lago atrás da casa da alcateia e o orfanato onde viviam os filhotes que perderam os pais. Crystal contou que costumava ir até lá para passar tempo com as crianças quando podia. O lugar era grande, e levaria tempo para ver tudo, então decidiram ir para onde estavam sendo esperadas.

Antes que pudessem entrar na casa da alcateia, Mercedes parou Crystal de novo.

— O que foi, Mercedes? Você está bem?

Ela não respondeu. Apenas passou os braços ao redor dela e a abraçou com força.

— Obrigada — disse, com lágrimas escorrendo dos olhos.

Os olhos de Crystal também se encheram de lágrimas. Era tão estranho como ela sentia que a conhecia havia mais tempo do que realmente conhecia. Estava sendo difícil para as duas se despedirem.

— Obrigada por tudo. Eu sei que não vou me lembrar de tudo, mas quero te dizer agora que sou grata.

— Vou sentir sua falta, Mercedes. Espero que um dia a gente se encontre em circunstâncias diferentes — disse ela com um sorriso choroso.

Crystal enxugou as lágrimas dos olhos de Mercedes e beijou sua bochecha. Então estendeu a mão, e Mercedes entrelaçou a dela, entrando com ela. Felizmente, não foi estranho, porque a maior parte dos membros da alcateia estava fora, resolvendo coisas.

Crystal respirou fundo e deu a Mercedes um sorriso reconfortante. Jake abriu a porta e saiu do caminho.

Mercedes estava infeliz, mas não havia nada que pudesse fazer. A decisão já tinha sido tomada, e ela precisava partir. Era o melhor para todos, menos para ela. Mais uma vez, precisava se separar de algo. Da última vez que isso aconteceu, não foi tão doloroso assim, porque ela não estava deixando ninguém para trás. Agora estava deixando Crystal, e nem sequer se lembraria dela, nem de nenhum dos momentos que compartilharam. A vida realmente parecia estar contra ela. Nada dava certo. Ela nem sequer contou a Crystal que não tinha para onde ir.

Os olhos de Mercedes percorreram o cômodo, absorvendo o interior. Tudo era feito de madeira e couro. O ambiente tinha um toque bem masculino e era simples.

Ela viu o homem que conhecera mais cedo e Jake. Crystal não parava de falar dele. Finalmente, ela ligou o rosto ao nome. Ele não era nem um pouco menos atraente do que o outro homem ainda carrancudo e musculoso. Pensando bem, ela ainda não tinha encontrado ninguém fora de forma naquele lugar. Devia ser o gene de lobisomem com que foram abençoados.

Por fim, seus olhos pousaram numa mulher asiática sexy, com olhos literalmente felinos. O cabelo preto e brilhante estava preso num rabo de cavalo apertado, e a maquiagem era esfumada e escura. Todo o visual dela era gótico.

— Finalmente, Crystal. Onde você estava? — Jake perguntou a Crystal, que ainda estava agarrada a Mercedes.

— Fomos dar uma volta e perdemos a noção do tempo — respondeu ela, de forma seca. Agora que estava perto, Jake conseguia sentir as emoções dela através do vínculo de companheiros. Ele se sentia mal por ela, mas eram ordens do Alfa, e em algum momento ela teria que aceitar aquilo.

'Por favor, se acalme, meu amor. Esse tipo de estresse não faz bem para o bebê', ele a advertiu, preocupado, mas Crystal não respondeu.

— Então esta é a humana que tropeçou nas terras da besta — a mulher asiática se aproximou com passos lentos e passou as unhas roxas escuras pelo pescoço dela. Surpreendentemente, Mercedes nem sequer se encolheu ou recuou. Ela sustentou o olhar da mulher. Mercedes já tinha percebido que ela era Alexa, a bruxa que teria de apagar sua memória.

— Ela é bonita, Felix. Por que você não iria querer manter uma humana como ela? A maioria dos humanos fica histérica quando descobre sobre o mundo sobrenatural, mas ela está calma... não está assustada. — Enquanto Alexa fazia sua própria observação, todos os outros permaneceram em silêncio.

— Eu não chamei você aqui para dar sugestões, Alexa. Estou cobrando um favor. Faça isso para que possamos mandá-la embora! — resmungou Felix, de braços cruzados. Ele parecia um bebezão fazendo birra porque não queria legumes na comida. Mercedes revirou os olhos diante do comportamento dele.

— Calma, Alfa. Não precisa ficar irritado, eu vou fazer isso, certo? — bufou ela. Então olhou Mercedes nos olhos e disse: — Você está pronta, humana?

Mercedes estava começando a se irritar com a palavra humana. Ela sabia que era apenas um ser humano comum. Não havia necessidade de continuarem lembrando sua inferioridade.

Ela assentiu com a cabeça, mas, antes disso, olhou para Crystal e murmurou:

— Adeus.

Havia um pequeno sorriso em seus lábios. Alexa colocou os dedos na cabeça dela e começou a penetrar em sua mente. Fechou os olhos em concentração. Mercedes sentiu o poder nas pontas dos dedos dela atravessar seu cérebro. Não era doloroso. Ela ficou imóvel enquanto Alexa fazia sua magia. Viu uma sucessão dos acontecimentos de sua vida, mas tudo passou rápido. De repente, Alexa a soltou, e o choque ficou estampado em suas feições.

Fez-se um silêncio absoluto enquanto todos aguardavam o resultado.

— Impossível! — Alexa soltou, em choque.

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