Capítulo 7

Felix havia convocado todos os membros da matilha para o campo de treinamento a fim de tratar da nova situação. Todos cochichavam entre si, tentando adivinhar por que o Alfa os chamara. Alguns sabiam que era por causa da misteriosa garota humana que tinham visto por ali. Tinham até ouvido dizer que ela fora resgatada na floresta de um lobo solitário selvagem. Agora, finalmente, tudo faria sentido. Eles saberiam sobre ela em vez de apenas especular sobre o que poderia estar acontecendo.

Felix estava ereto e sério diante dos membros da matilha. Todos os murmúrios cessaram assim que reconheceram sua presença. Ele fez sinal para que Mercedes, assustada, saísse de trás dele. Ela não estava acostumada com tantos olhares sobre si, muito menos olhares de lobisomens. Desejou que a terra se abrisse e a engolisse inteira. Mercedes se sentia envergonhada e inferior diante da superioridade sobrenatural deles. Ela estava à mercê deles. Imaginou todos se voltando contra ela, atacando-a e fazendo um banquete. Uma coisa horrível de imaginar. Balançou a cabeça para clarear as ideias e parar de pensar bobagens.

Quando ela já estava ao lado dele, Felix começou a falar.

— Todos vocês devem estar se perguntando por que foram chamados aqui — disse ele, fazendo uma breve pausa para olhar para Mercedes. Ela permanecia rígida, tensa, com a cabeça baixa, voltada para o chão.

— Esta pessoa ao meu lado é Mercedes Underwood. Ela será nossa hóspede por alguns dias. Como todos vocês talvez já tenham percebido pelo cheiro, ela é humana. Foi resgatada fora das fronteiras da nossa matilha, de um lobo solitário. Vou precisar da cooperação de todos: não façam mal a ela e não deixem que ninguém a machuque. Vamos todos fazer o possível para acomodá-la por enquanto. É do nosso maior interesse que, quando ela nos deixar, não tenha nem sequer um arranhão. Isso levantaria suspeitas. Espero que todos estejam à altura da tarefa.

Um dos membros da matilha levantou a mão. Era um guerreiro em treinamento. Felix assentiu, permitindo que ele falasse.

— Alfa, tem uma coisa que eu não entendo. Por que simplesmente não a deixamos voltar para casa? E se a família dela vier para a floresta procurando por ela? Isso não vai nos comprometer?

Felix desejou que fosse tão simples quanto ele fazia parecer.

— Não podemos deixá-la ir embora com o que ela já sabe. Isso é mais perigoso do que a família dela vir procurá-la. Assim que houver qualquer novidade, nós a deixaremos partir em segurança para se reunir com a família.

Os outros membros da matilha assentiram em compreensão.

Mercedes se emocionou ao ouvir a palavra família. Aquilo reabriu feridas que jamais cicatrizariam. As pessoas de quem falavam nunca tinham sido uma família de verdade. Não a família que ela gostaria de ter tido. Não adiantava pensar no passado. Eles estavam mortos, de qualquer forma, e ela não tinha nada nem ninguém para quem voltar. Uma lágrima solitária caiu no chão. Seu coração doía com a lembrança cruel de tudo o que havia passado antes.

Felix percebeu a mudança nela e viu que ela estava chorando. Rapidamente, dispensou todos e a conduziu para dentro da casa da matilha. Já na sala de estar, fez com que ela parasse diante dele.

"O que há de errado com você? Por que está chorando?", sua voz áspera exigiu, um pouco dura demais, fazendo-a se encolher. Ele conseguia ser insuportável às vezes.

"Eu-eu sinto muito, se-senhor Alfa. Eu só fiquei emocionada, só isso", ela fungou, enxugando as lágrimas.

Ele suspirou, enfiou a mão no bolso e lhe entregou um lenço. Ela ficou surpresa com a atitude dele e hesitou em pegá-lo. No fim, pegou, e ele se virou e a deixou exatamente onde ela estava. O tecido era tão macio, e o cheiro dele ainda estava ali. Devagar, ela o levou até o nariz e o aspirou de olhos fechados. Imediatamente, sentiu-se melhor em relação a tudo. Ele tinha esse efeito sobre ela. Ela nunca achou ofensivo o jeito rude e mal-humorado com que ele a tratava. Ele quase nunca falava com ela, a não ser quando estava zangado, e ela não se importava. Era uma atração estranha que nem ela mesma conseguia entender.

Ela colocou o lenço no bolso de trás do jeans e foi procurar Crystal. Por enquanto, havia prometido ajudar Crystal na clínica. Assim, não ficaria entediada dentro de casa o dia inteiro e faria algo produtivo com o tempo que tinha livre. Crystal concordou e disse que poderia usar sua ajuda. Mercedes estava indo para lá, ainda meio atordoada, pensando no encontro de mais cedo. Era inexplicável, mas parecia bom.

De repente, sua cabeça começou a doer e ela sentiu tontura. Tudo girava, e ela se esforçou ao máximo para não cair. Suspeitou que fossem os efeitos do feitiço de Alexa. Ela estava prestes a tombar para trás e fechou os olhos com força, esperando o impacto, mas ele nunca veio. Em vez disso, sentiu faíscas elétricas em sua cintura e estremeceu. Mãos grandes e fortes a seguraram com firmeza, e ela olhou por cima do ombro para ver quem era seu salvador. Para seu espanto, quem a salvou de uma queda dolorosa foi quem ela menos esperava.

Felix a ajudou a ficar de pé e imediatamente a soltou, como se ela estivesse em chamas. Seu rosto continuava sério e sombrio. Mercedes colocou uma mecha solta de cabelo atrás da orelha e corou. "O-obrigada", ela gaguejou, timidamente. "Cuidado onde pisa. Não queremos que você caia e quebre o pescoço. Você precisa voltar inteira, mas tenho a sensação de que isso vai se provar uma tarefa difícil."

Mercedes lançou-lhe um olhar feio. "Você não gosta muito de mim, gosta?", perguntou, cruzando os braços e fazendo seus seios se erguerem ainda mais. O olhar de Felix caiu sobre seu decote, mas ele desviou os olhos rapidamente e tornou a encará-la. "Quando foi que você percebeu isso?", disse ele, com sarcasmo. Felix estava tendo uma reação estranha. Aquilo estava acontecendo com ele pela primeira vez, e ele estava se esforçando muito para lutar contra aquilo, mas era difícil. O que o confundia era que aquilo deveria acontecer com sua companheira, mas estava acontecendo com uma humana. A atração que sentia por ela era mais forte do que qualquer coisa que já havia sentido.

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