Capítulo 8
Nos dois dias seguintes, Felix tentou com todas as forças evitar Mercedes. Para ser sincero, não foi tão difícil assim, porque ela passava muito tempo ajudando na clínica, mas ele não podia correr nenhum risco. Com a esperança de encontrar sua companheira no horizonte, não achava sensato desenvolver sentimentos por alguém que não fosse sua parceira destinada. Isso não acabaria bem para ninguém envolvido. Mesmo assim, ele ainda estava preocupado com a atração misteriosa que sentia por ela. Os olhos verdes dela guardavam mais do que aparentavam, e ele sentia isso nos ossos. Era algo sem explicação, e ele nunca pensou que aquilo aconteceria. Era como se alguém o tivesse possuído para fazê-lo se sentir assim em relação a ela.
Mercedes ajudava Crystal com toda a dedicação que podia. Não havia muitos pacientes, porque uma das vantagens de ser sobrenatural é que você não fica doente com frequência como os seres humanos. Ela invejava isso, entre outras coisas, mas, pensando bem, ela mesma nunca ficava muito doente. Na verdade, nem conseguia se lembrar da última vez que tinha adoecido.
Só havia pacientes feridos e partos. Mercedes não tinha permissão para entrar na sala de parto. Com curiosidade, perguntou se bebês lobisomens nasciam como filhotes em vez de humanos, o que fez Crystal e algumas outras enfermeiras caírem na gargalhada. Para alguns, aquilo podia soar ofensivo, mas entenderam que ela simplesmente não sabia. A inocência dela era divertida até certo ponto.
Depois de trabalhar sem parar, Mercedes sempre fazia questão de acompanhar Crystal até o quarto e se oferecia para massagear os pés dela. Era o mínimo que podia fazer por sua amiga grávida, de quem ela não conseguia entender de onde vinha tanta energia para ficar de pé o dia todo.
— Crystal — chamou ela, pressionando os nós tensos dos pés dela para fazer o sangue circular de forma regular e suave. Crystal estava aproveitando seu tratamento gratuito, e aquilo a ajudava a relaxar e a aliviar a tensão nos pés.
— Mmh?
Mercedes não conseguiu entender se ela estava gemendo ou respondendo, mas decidiu prosseguir com a pergunta.
— Quanto tempo dura a gravidez de um lobisomem?
— Não muito. Se você estiver esperando um filhote Alfa, geralmente leva de três a quatro meses. Não é tão diferente de um Beta, então eu não estou tão adiantada assim. Mas, se for só um lobo comum, dura de cinco a seis meses. Varia conforme a vontade do bebê de vir ao mundo.
Mercedes absorveu toda a informação. Achou aquilo interessante, e não queria simplesmente viver ali como uma idiota ignorante que não sabia nada sobre as pessoas ao seu redor.
— Mmh — murmurou, assentindo com a cabeça.
Depois da massagem, elas conversaram por mais um tempo, até Jake voltar da patrulha na fronteira.
— Obrigado por cuidar dela, Mercedes. Às vezes ela pode dar trabalho — disse Jake, provocando Crystal, e ela lhe deu um soco brincalhão no braço. Mercedes via o amor dos dois nas pequenas coisas que faziam, fosse provocando um ao outro ou fingindo estar com raiva. Eles não precisavam dizer em voz alta para que ficasse claro.
— Não é problema nenhum. Fico feliz em fazer isso. — Ela sorriu.
Já estava pronta para deixar os dois pombinhos à vontade, mas Crystal a impediu.
— Você pode ficar, Mercedes. Tenho certeza de que Jake não se importa — disse ela, lançando um olhar para ele.
Jake balançou a cabeça.
— Quem se importaria com a companhia de duas mulheres bonitas?
Mercedes soltou uma risadinha diante da fofura dos dois, mas recusou educadamente o convite.
Ela se abraçou e caminhou até o quarto. Quando chegou lá, vestiu o pijama e pulou na cama. Ficou olhando para o teto, torcendo por um sono sem sonhos. Pensou em viver em outro lugar e fugir do passado, mas era verdade o que diziam: o passado vai atrás de você aonde quer que vá, desde que você não o enfrente.
Toda vez que fechava os olhos, via a cena daquela noite fatídica. Aquilo a assombrava e a atormentava. O pior era que ela nem sequer sabia o que tinha acontecido. Continuava tentando juntar as peças e entender tudo, mas nada se encaixava. O sono a evitou, e ela acabou saindo da cama para olhar pela janela. A noite estava fria, mas agradável. Ainda havia algumas pessoas acordadas, andando de um lado para o outro. Ela morava em um lugar grande, com muita gente, mas só se sentia à vontade com alguns poucos escolhidos.
Com a incerteza sobre quanto tempo ficaria ali, achou que talvez fosse melhor as coisas continuarem como estavam. Ela nem tinha certeza se Alexa, a bruxa, conseguiria apagar sua memória como deveria. Fez uma careta ao pensar em passar por aquela provação de novo. A dor excruciante que sentiu não era algo que quisesse sentir outra vez. Sua mente lutava contra a magia, como Alexa dissera naquele dia, e ela também tinha sentido isso.
No começo, achou que fosse sua própria vontade, que ela não queria esquecer a amiga que tinha encontrado, mas não era isso. Sentiu outra presença em sua cabeça, mas, por causa da dor em que estava, tudo parecia nebuloso. Ainda assim, no fundo, ela sabia que aquilo significava alguma coisa. Isso era algo que a vinha incomodando: vivenciar coisas que não conseguia explicar.
Seu fluxo de pensamentos foi interrompido quando ela vislumbrou Felix. Ele se aproximava da casa e não a viu à janela. Mas ela ficou por um momento admirando-o. Não o via desde o encontro entre os dois, por causa do tempo que passara na clínica. Mesmo sem poder vê-lo tanto assim, sua mente sempre acabava voltando para ele de vez em quando. Deduziu que ele não gostava muito dela, mas ela gostava dele. Dia após dia, percebeu que estava desenvolvendo sentimentos por ele sem que ele fizesse nada. Absolutamente nenhum esforço para fazer seu coração disparar só com a visão dele.
Tudo o que ele precisava fazer era parecer másculo, bruto e absurdamente gostoso. Benditos genes de lobisomem por criarem um exemplar tão bonito e magnífico. Gostasse ela ou não, sentir-se atraída por ele era inevitável. Outro dia, chegou até a perguntar a Crystal se havia alguém na vida dele, como ela e Jake tinham um ao outro. Por sorte, Crystal não percebeu nada e lhe disse, casualmente, que ele não tinha ninguém. Ela achou difícil de acreditar, porque ele era bonito demais para estar sozinho.
Depois de vê-lo, um sorriso se espalhou por seu rosto. Todas as suas preocupações foram levadas embora pela presença dele. Havia simplesmente algo nele que a fazia se sentir melhor instantaneamente. Mais uma coisa que ela não conseguia definir direito, porque eles mal conversavam, e ele sempre parecia não suportá-la. Ela deveria se sentir assustada quando estava perto dele, mas nunca se sentira mais segura com ninguém. A atração que sentia por ele era um mistério que ela ainda precisava desvendar. Esperava que mais cedo do que tarde.
