Capítulo 10 Pare de olhar, Ira
Ponto de vista de Ira
Ele passa por mim em silêncio, me lembrando os gatos e como eles são sutis.
Fico junto à porta, a maçaneta ao alcance, fingindo não perceber como a camisa dele gruda no corpo como se tivesse medo de soltar.
A camisa é praticamente inútil a essa altura, porque eu consigo ver muito bem cada músculo por baixo. Duro, sólido...
Sério. Quem precisa de um peito desse tamanho?
Ele se abaixa, tirando uma caixa do caminho. Os braços se contraem, as veias ficando mais salientes enquanto o tecido em volta dos bíceps estica, apertado, como se fosse rasgar.
Ridículo. Absolutamente desnecessário.
Ele põe a caixa no chão e começa a arregaçar as mangas devagar, até os antebraços. A pele dele parece quente, como se tivesse sido beijada pelo sol e...
Eu estou encarando.
Eu não devia estar encarando.
Quanto exercício ele faz pra ficar assim? Um monte de treinos desnecessários, aposto.
Agora ele não é só uma distração; é um perigo. Alto, forte...
Ele se vira e o último botão da camisa sofre contra o peito. Há um espacinho mínimo entre o tecido, por onde eu vejo um vislumbre de pele.
Para de encarar, Ira.
Ele puxa a outra manga mais para cima, como se soubesse exatamente o que está fazendo.
Pois a piada é com ele, porque isso... seja lá o que ele acha que é... não é impressionante e com certeza não dá medo.
Minhas unhas cravam nas palmas. É pra me lembrar de não recuar quando aqueles olhos cinzentos e frios se fixarem em mim. Mas falha miseravelmente.
Tem alguma coisa... tóxica no jeito como ele me olha.
Mudo o peso nos pés; o ar fica de repente pesado, e meu peito chega a doer um pouco.
Ruel fica ali, imóvel, e agora que eu consigo vê-lo tão de perto, sem o medo que vem com meus pulsos amarrados, noto como o cabelo dele é desigual.
Bem curto atrás e mais comprido na frente, como se tivesse sido cortado às pressas com uma tesoura sem ponta.
Uma cicatriz fina desce pelo lado esquerdo do pescoço dele, parando bem antes do ombro. Eu me pergunto como ele a conseguiu. Quantas lutas ele precisou sobreviver? E por que continua lutando, destruindo vidas inocentes?
O silêncio fica inquietante.
Ele não pisca, nem sequer respira alto. Só me observa, como se estivesse tentando ler cada maldito pensamento na minha cabeça.
“Nome”, a voz dele vibra com aquela profundidade familiar. O som faz arrepios surgirem na minha pele.
Eu cerro os punhos, mas por fim, quando ele não tira os olhos de mim, murmuro: “Ira.”
Uma daquelas sobrancelhas grossas se ergue levemente. Quase parece interesse, mas isso desaparece rápido.
Ruel assente uma vez. “E você sabe onde está, Ira?”
Eu encaro de volta. “No inferno, pelo visto.”
Algo tremula nos olhos dele. Diversão? Talvez irritação? Com certeza irritação.
“Perto o bastante”, ele diz baixo, e ainda assim não tira os olhos de mim.
“Me solta.” Eu digo, uma ousadia estranha empurrando minhas pernas para a frente.
O maxilar dele se contrai. “Só tem um jeito de fazer isso”, ele começa. “E se você pedir de novo, eu não vou me incomodar em enfiar uma espada no seu crânio.”
A calma com que ele diz aquilo... é isso que me apavora. Mas eu forço as próximas palavras mesmo assim.
“O que você quer comigo, afinal? Eu não sou espiã, não sou guerreira. E não vou ser seu brinquedo. Então ou você me deixa sair, ou me mata logo.”
“E pra onde você pretende ir?”, ele pergunta, os olhos endurecendo.
Anna e Oren.
“O Rei Alfa”, eu deixo escapar.
Ele inclina a cabeça, me estudando como se eu fosse um enigma estranho que ele está tentando decifrar. “Então é só isso que você vale”, ele diz, com uma ponta cortante no tom.
Eu franzo a testa. “O quê?”
Ele dá um passo mais perto. “Só mais uma garota barata tentando ser útil? Uma puta desesperada vinda das ruas?”
Meu coração despenca. “O que você acabou de dizer?” Minhas mãos ardem com a força com que minhas unhas agora cavam a palma.
Ele dá mais um passo e a presença maior dele me engole. “Me diz, Ira”, ele murmura. “Você estava esperando que o Rei Alfa te levasse pra cama dele em vez disso?”
Seu pedaço de merda idiota!
A raiva ferve o sangue nas minhas veias e, antes que eu perceba, eu avanço nele.
Mas ele é mais rápido.
Segurando meu pulso, ele me gira e me joga contra a mesa com tanta força que o ar foge dos meus pulmões num acesso de tosse dolorida.
A dor atravessa meu ombro, que já estava machucado. Eu me debato, mas ele nem se abala. Um braço me prende, pressionando meu rosto contra a superfície de madeira.
“Me solta!”, eu grito, os olhos arregalados, tentando parecer qualquer coisa menos o medo que sinto por dentro.
Ele não solta.
Eu enrijeço quando o hálito quente dele encosta na minha orelha. “Você ataca seu comandante de novo”, ele repreende, “e eu vou…”
“O quê?!” eu rosno, sem fôlego. “Me estuprar? Como o Rei Alfa queria que você fizesse? Você é só o cachorrinho obediente dele!”
Eu engulo em seco, sentindo as mãos dele ficarem imóveis.
Devagar, viro a cabeça o bastante para ver o rosto dele. A expressão é indecifrável, mas os olhos estão cheios de alguma coisa que eu não sei nomear.
De repente, o aperto dele se intensifica e então ele se move.
“Seu pervertido nojento!”, eu sibilo quando ele me gira e empurra minhas costas contra a mesa de novo. Desta vez, sou obrigada a encarar diretamente aqueles olhos escuros.
Merda, talvez eu devesse implorar!
“O… o que você está fazendo?”, eu gaguejo quando ele se inclina, o rosto pairando a centímetros do meu.
“Pervertido nojento?” Ele repete minhas palavras.
Eu lanço um olhar de ódio para ele. “Vocês todos são. Se escondem atrás do uniforme e das patentes, fingindo que estão salvando gente, mas tudo o que fazem é destruir vidas inocentes.”
Ele se aproxima mais, e o ar entre nós fica denso o suficiente para sufocar. O cheiro dele me atinge e, apesar do suor, só me lembra chuva.
“Cuidado, Ira”, ele diz baixo. “Você não está em posição de me testar.”
Meus olhos tremulam sem controle, minha mente miseravelmente presa em como meu nome soa poderoso nos lábios dele.
A respiração dele fica irregular por um instante, a raiva parecendo contenção.
“Eu devia ter sabido”, ele murmura, a voz falhando levemente. “Essa tintura barata no seu cabelo é um sinal claro de uma putinha desesperada fingindo ser algo que não é.”
Minha perna se move, chutando com força… bem no meio das pernas dele.
Ele não geme nem cai como eu espero. Ele apenas congela. O ar sai áspero, quase um rosnado, quando o quadril dá um tranco e a mão dele sobe num golpe, agarrando minha garganta.
Eu suspiro com a pressão e o calor contra a minha pele.
Meu coração martela, dolorido, enquanto eu luto para tirar a mão dele de mim.
Os lábios dele se entreabrem quando ele se inclina para perto e, inferno, parece que ele está sugando meu ar pela boca.
Aqueles olhos percorrem meu rosto, devagar, procurando, e então param na minha boca.
A porta range.
“Ruel, eu… ah.” A voz de um homem corta o momento.
Ruel se afasta num salto, e o ar frio bate no meu rosto quando eu cambaleio até a beirada da mesa, arfando por ar. Meu pulso ainda está disparado quando eu penso, que porra foi essa que acabou de acontecer agora?
