Capítulo 2 Naquela manhã

Ponto de vista de Ira

— Tortas doces de maçã, saindo direto do depósito! — grita uma mulher, equilibrando uma cesta no quadril.

O cheiro faz meu estômago roncar de fome. É uma punição doce — ter comida bem debaixo do meu nariz e ainda assim não poder provar nem um pedaço.

Puxo o capuz mais para baixo, certificando-me de que ele esconda a maior parte do meu rosto e meu cabelo recém-tingido de vermelho.

Enquanto faço uma nota mental para implorar a Felisha por mais tinta de cabelo, a mistura de perfume e suor arranha minha garganta, mas eu a ignoro enquanto meus olhos cansados varrem o mar de gente.

— Ele mata os inimigos assim que os vê. — Uma voz masculina e envelhecida atravessa uma das lojas à minha esquerda. — Sem misericórdia — acrescenta.

— Quem é ele? — pergunta um garotinho.

— Comandante Ruel, a arma mais mortal do Rei Alfa.

Com a lentidão com que a multidão se move, sou obrigada a ouvir mais da conversa deles.

— Então por que o Rei Alfa o manteve nos arredores da alcateia? — o menino pergunta, a mãozinha agarrada à perna do homem.

Meus olhos param no velho, observando como a brisa suave brinca com sua barba, que, surpreendentemente, é tão comprida quanto meu cabelo na altura dos ombros.

— Porque ele não confia em mais ninguém para exterminar os desgarrados — ouço o homem dizer enquanto enfio a mão com cuidado no bolso de uma mulher ao meu lado.

Quando não encontro nada ali, me viro e vejo o velho erguendo o fantoche em suas mãos. Ele sorri para as poucas crianças que seguem ao lado das mães.

Esse único gesto convence algumas pessoas a realmente dar atenção aos brinquedos dele, deixando a passagem ainda mais congestionada.

Ótimo.

— Mas nem todo desgarrado é mau. Você não acha que o Rei Alfa é só malvado?

Imediatamente, todos os adultos ao redor ficam tensos, os olhos arregalados para a criança. A pequena distração me ajuda a encontrar outro alvo.

— E o Comandante Ruel — continua a criança, alheia a tudo, em tom ousado. — Eles são lobisomens maus. Mamãe disse que é errado machucar alguém. E... eu nunca fui machucado por uma bruxa nem por um sempyr, então...

O velho tampa a boca do menino com a mão, os olhos cheios de medo fixos em algum ponto atrás de mim.

É aí que eu os vejo.

Guardas reais. O que estão fazendo aqui?

— Os sempyrs estão extintos. O Rei Alfa matou todos eles anos atrás — ouço o velho murmurar, mas não escuto mais nada enquanto abro caminho com cuidado em direção ao grupo de homens ricos e despreocupados que bebem rum.

O suor escorre pelo meu pescoço, deslizando pelas minhas costas enquanto avanço pelo mercado barulhento. Minhas mãos estão úmidas; os nervos estão começando a me dominar.

Eu realmente não devia ter nada a ver com esses guardas reais.

Gente como eles só traz problema... nada mais.

Mesmo assim, sigo em direção a eles, os olhos fixos num homem gordo com um casaco vermelho caro, de botões dourados.

Ele deve ser rico... rico demais. Senão, por que deixaria a bolsa pendurada no cinto?

Meu coração dispara quando o homem de casaco vermelho agarra outro pela gola. De repente, todos eles se levantam, cada um tomando um lado diferente.

Eu me enfio no meio deles, usando a confusão a meu favor. Meu alvo lança um olhar fulminante ao oponente, o rosto vermelho de raiva, mas não me dou ao trabalho de ouvir o que quer que estejam dizendo; meus olhos ficam presos à pesada bolsa de moedas balançando em sua cintura.

Por favor, que valha a pena.

Com uma respiração funda, embora trêmula, minha mão escapa de dentro do manto.

O oponente dele espatifa uma das bebidas no chão, e meu alvo desfere um golpe. Finjo tropeçar, minhas mãos roçando de leve na lateral dele.

Com velocidade relâmpago, meus dedos longos e pálidos desfazem o nó. E, em menos de um segundo, a bolsa cai na palma da minha mão.

Num piscar de olhos, eu sumo e nem me atrevo a olhar para trás.

— EI! LADRA!

Meu estômago afunda quando vejo o homem de casaco vermelho correndo na minha direção com sua matilha de lobisomens reais.

E, claro, mais uma vez a minha sorte acabou. Mas eu morro antes de me deixar pegar.

Procurando rápido uma rota de fuga fácil, eu corro.

Puxando o capuz para baixo, me enfio mais fundo na multidão à minha frente.

Os feirantes explodem em gritos, dedos apontados para mim, pragas caindo sobre a minha cabeça enquanto eu esbarro nas pessoas, abrindo passagem à força entre rostos furiosos.

Mesmo quando saio da parte mais barulhenta do mercado, eles não param de me perseguir. E eu também não paro de correr atrás de segurança.

— PAREM ELA! — outro grita.

Me abaixo sob um estandarte pendurado, salto por cima de uma caixa de bebidas, escorrego entre os comerciantes… os lábios escurecidos pela fumaça se retorcendo em rosnados, mas nenhum tenta me segurar.

Talvez já tenham passado por algo parecido.

— Merda — eu sibilo, com os pulmões ardendo de exaustão e os joelhos doendo a cada salto.

Com o sol se pondo vem a pressa de uma brisa fresca, quase arrancando meu capuz, mas eu o seguro com firmeza com a mão.

De repente o vento muda de direção, soprando para um canto cheio de sacos de lixo e imundície.

Um sorriso se espalha no meu rosto.

Se não fosse ridículo, eu diria que o vento acabou de me dar uma saída.

Eu me enterro depressa nos sacos de lixo ao meu redor. O fedor quase me mata, mas eu aguento.

No silêncio, sinto o chão vibrar com as passadas pesadas dos meus perseguidores.

Se me pegarem, vão tirar tudo o que eu tenho. E eu sei que a Felisha não vai só me punir. As crianças também vão sofrer.

Ela provavelmente vai fazê-las passar fome por três dias de novo, até eu encontrar outro lugar lucrativo.

Mas, em poucos segundos, as vozes e os passos dos homens se confundem, se afastando até sumirem. Espero mais uns dois minutos antes de sair.

Meus joelhos doem, mas a escuridão que cresce ao meu redor me diz o quanto estou terrivelmente atrasada. Então, sem perder mais tempo, corro de novo, desta vez na direção do abrigo.

Mas o que me espera não é o que eu esperava.


— SOOOOCOOOORROOO!

Um grito agudo, apavorado, explode lá de dentro da casa, me encharcando de pavor na mesma hora.

Que porra está acontecendo? penso, disparando até a porta.

— Felisha, por favor! Não deixa ele… NÃO!

Anna…

Ela está torturando eles de novo?

Empurro a porta para abrir, mas quase tropeço quando ouço a voz da Felisha… as palavras dela.

— Deita, Anna! Você só vai piorar se lutar! Hoje você vai virar mulher!

Algo dentro de mim se parte.

— ANNA! — eu grito, avançando.

O som do grunhido de um homem me atinge antes mesmo de eu chegar ao quarto dos fundos. Chuto a porta mal parando em pé, ignorando o jeito que ela bate na parede com um estalo alto.

O homem se vira, sem camisa, o cinto meio desabotoado, os olhos selvagens de raiva e surpresa.

Não, não, não.

Meu coração martela quando vejo o corpo de dez anos da Anna tremendo na cama, a blusa rasgada na manga, lágrimas marcando as bochechas.

— Tira essas mãos imundas dela! — eu grito, lágrimas de alívio enchendo meus olhos quando percebo que o short jeans dela ainda está no lugar.

Felisha ri.

— Ignora a nóia, Gab. A garota é sua.

Ele se vira de novo para a Anna, com um sorriso.

Antes que ele consiga pôr as mãos podres nela outra vez, eu agarro o taco de madeira encostado ao lado da porta e balanço.

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