Capítulo 3 Eu nunca deveria ter saído
Ponto de vista de Ira
O som que faz quando acerta a cabeça dele é nauseante, mas isso não me impede de esmagar a cabeça dele com ainda mais força uma segunda vez.
Ele cambaleia, xingando alto, com uma mão pressionada contra o corte sangrando na têmpora.
— Sua vadia do caralho! — ele urra, avançando em minha direção com os dentes amarelos à mostra.
Felisha ri quando eu tento acertar a terceira vez, mas ele agarra o bastão, torcendo-o até arrancá-lo das minhas mãos antes de me golpear.
Uma dor aguda atravessa meu ombro, e eu acabo me chocando contra uma mesa.
Anna grita de novo. E, desta vez, eu ouço também os soluços de Oren. É quando avisto o menino de sete anos tremendo debaixo da cama.
O homem levanta o bastão para me atingir uma segunda vez, mas eu rolo para o lado, tateando às cegas por qualquer coisa.
Mergulho para debaixo da cama, meus dedos apalpando apressados à procura da arma que eu sei que está lá.
Meus dedos se fecham em torno da faca longa de cozinha no chão, e eu a aponto para ele sem perder tempo.
— Chegue mais perto — rosno, me pondo de pé com dificuldade — e eu abro sua barriga!
Ele congela, os olhos alternando entre o meu rosto e a lâmina.
A Deusa sabe que eu não vou hesitar em proteger a única família que eu consegui construir na terra.
— Vadia maluca — ele cospe, apontando para mim com a mão trêmula. — Você vai se arrepender!
— CAI FORA!!! — eu grito, dando um passo à frente. — Antes que eu mude de ideia.
Ele recua, segurando a cabeça sangrando e resmungando pragas enquanto cambaleia para fora pela porta.
Espero até ouvir a porta bater com força antes de me virar. Meu olhar duro encontra Felisha... A mulher que eu um dia pensei ser minha heroína depois que me salvou da floresta naquela noite.
Anna corre para os meus braços, soluçando.
— Ira...
— Eu estou aqui. Eu estou aqui — sussurro, apertando-a com força. Meu ombro lateja onde aquele desgraçado me acertou, mas eu não ligo.
— Sua porca miserável! É melhor você rezar para a deusa da lua por ter roubado o bastante para pagar a bagunça que você criou hoje à noite — Felisha sibila.
— Como você pôde?! — eu grito, me levantando e colocando Anna com cuidado atrás de mim. — Ela é só uma criança!
Felisha ri por um segundo, então seus olhos endurecem. — Eu também era só uma criança. É assim que você vira mulher. Mas você não saberia, porque é ingênua demais — ela cospe.
— Vai se foder, e essa mentalidade doentia também!
TAPA!!
A força provoca uma vibração ardida no lado esquerdo do meu rosto.
— Você estragou tudo! — os lábios dela se retorcem. — Você tem ideia de quanto aquele homem estava pagando?!
— Vale mesmo o corpo dela?! — pergunto, piscando furiosamente para conter as lágrimas.
— Ela podia ter cooperado! Você acha que eu gosto disso? Você acha que alimentar vocês todos sai de graça?
Dou um passo à frente, meu sangue fervendo. — Sou eu que trago todo o dinheiro, então não fica aí falando como se você tivesse feito alguma coisa!
TAPA!!
— Eu mantenho um teto sobre a sua cabeça! — ela berra, apontando para mim. — E é assim que você me agradece?
Eu solto a faca e enfio a mão no meu manto. — Toma! Isso dá sete pans — digo, entregando a ela metade do dinheiro que consegui.
Oren e Anna ofegam, arregalando os olhos quando Felisha arranca da minha mão a bolsa pesada.
Ela conta rápido, os lábios se mexendo em silêncio. Mas então abre um sorriso malicioso. “Ora, veja só. Minha ladrãzinha foi bem esta noite”, diz, enfiando o dinheiro no sutiã antes de apontar para mim.
“Da próxima vez”, acrescenta com frieza, “não me faça perder a paciência. Vocês vão passar fome hoje por me tirarem do sério. Eu volto antes do amanhecer.”
Ela nos lança um último olhar fulminante antes de sair feito um vendaval.
A porta bate com força atrás dela, só para tornar a se abrir, balançando nas dobradiças quebradas.
Suspiro, deixando a cabeça cair de cansaço.
Anna começa a chorar de novo, e eu reparo como ela puxa para cima a parte rasgada do vestido, com as mãos tremendo.
Se eu tivesse chegado um pouco mais tarde do que cheguei…? Deusa do céu.
“Venham, Anna, Oren.” Eu os chamo com as mãos abertas. Anna se aconchega nos meus braços, soluçando contra meu ombro machucado, mas eu deixo.
“Desculpa”, murmuro no ouvido dela enquanto esfrego as costas. “Eu devia ter vindo antes. Eu nunca devia ter ido embora.”
Oren rasteja para fora debaixo da cama, o rosto marcado de lágrimas.
“E..ela f..foi em..embora?”, ele sussurra.
“Sim”, digo baixo, ajoelhando ao lado dele. “Ela foi.”
Anna se afasta, mas o olhar triste de Oren continua fixo no meu ombro, na marca vermelha que se forma sob o tecido rasgado. “Você tá m..machucado.”
“Não dói tanto assim”, resmungo, segurando um gemido.
Anna fungue, pegando a mão de Oren. “Ele queria levar o Oren”, diz ela, com a voz trêmula. “Mas eu disse que não. Eu disse que ele não podia encostar no meu irmão. A Felisha disse que eu podia pagar com o meu corpo em vez disso. Mas ele… ele ficou tão bravo. Acho que ele queria me matar.”
Oren começa a chorar de novo, limpando o nariz com a manga. “Por que ela é assim? P..por que ela n..nos odeia t..tanto?”
Eu puxo os dois para perto, apertando-os com força. “Não importa o porquê”, sussurro. “A gente não pode mais ficar aqui.”
Anna levanta a cabeça, os olhos arregalados. “O quê?”
Mas eu não respondo, correndo para o quarto da Felisha com uma lamparina.
Um cheiro pútrido impregna o cômodo abarrotado, mas não deixo isso me desanimar de revirar as coisas dela em busca de qualquer item valioso.
A luz da lamparina no quarto dela brilha fraca sobre várias garrafas vazias, um par de joias quebradas. As mesmas que eu me lembro de ter roubado dois anos atrás.
Se ainda está aqui, então não vale porra nenhuma.
Empurro a gaveta e encontro moedas, um frasquinho de tinta vermelha, uma adaga e algo dobrado com cuidado sob um pequeno copo de bronze.
Enfio as moedas depressa no bolso e guardo a adaga e a tinta dentro do meu manto, com cuidado.
Quando levanto o copo, franzo a testa ao ver um papel lacrado de vermelho.
Embora o lacre esteja rompido, ainda consigo distinguir o contorno de um lobo uivando.
Parece… droga, parece coisa da realeza.
Minha respiração acelera quando eu o desdobro.
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O Rei Alfa solicita que você garanta que a bruxa suspeita permaneça dentro de suas paredes até que os homens dele cheguem.
Se for encontrada prova de que você capturou alguém que porta cabelos brancos antinaturais, você será recompensada com um lugar na Casa da Alcateia. E a vira-lata será eliminada.
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Meus dedos tremem ao reler as palavras.
Cabelos brancos antinaturais…
E..eu?
