Capítulo 4 Impossível escapar
Ponto de vista de Ira
A Felisha está me mantendo como isca?
Meu estômago fica gelado de repente. Coloco o papel exatamente do jeito que o encontrei e saio às pressas do quarto, com o coração martelando no peito.
— Temos que ir embora — digo, com firmeza.
— Vamos embora… por favor — a mãozinha de Oren agarra a minha.
Anna recua, limpando o rosto com a manga.
— Não podemos, Oren. A gente não tem dinheiro pra isso. A Felisha vai nos pegar e, quando pegar, vai ser pior do que agora.
Prendo o olhar no dela.
— Nada é pior do que viver com o monstro em que ela se transformou. Se eu tivesse me atrasado nem que fosse um minuto…
Anna balança a cabeça.
— Ela vai nos encontrar, Ira. E aí vai mandar aqueles homens te espancarem, como da última vez.
— Não, Anna. Ou você faz o que eu estou mandando, ou fica aqui sozinha — rosno, odiando o quanto minha voz sai dura, mas assustada demais para conseguir me acalmar.
Pego tudo o que é de valor, como o desenho em papel que Oren fez de nós três um ano depois de eu tê-los encontrado. Tem a palavra FAMÍLIA escrita nele, e nada me faz me sentir tão querida quanto aquilo.
Assim que pisamos do lado de fora, saímos correndo, só parando quando encontramos uma carruagem em movimento.
— Ira, já chegamos? — Oren sussurra, trinta minutos depois de subirmos na carruagem para longe de Velmora.
— Só mais um pouco — murmuro, afagando de leve a cabeça dele, na esperança de que, quando chegarmos a outra cidade, estejamos mais seguros. — Estamos quase longe o bastante.
O lugar mais seguro seria a Casa da Matilha Vahl. Mas aquilo não é para gente como eu.
Houve uma época — pelo menos é o que os mais velhos dizem — em que os lobisomens viviam em paz com outras raças sobrenaturais. Bruxas, bruxos e Sempyrs.
Embora quase ninguém fale dos últimos.
Dizem que os Sempyrs empunhavam magia negra… tão selvagem que ninguém conseguia controlar o mal que eles faziam com seus poderes. Então o Rei Alfa os expurgou da Matilha Vahl… exterminou todos os sempyrs da Matilha Vahl e das três cidades sob seu domínio.
Valmora, Valhez e Val-Gucan.
Mas eu sempre soube que havia mais nessa história, porque o Rei não matou apenas Sempyrs. Ele matou bruxas e bruxos também. Não poupou ninguém, garantindo que tanto os velhos quanto os jovens fossem eliminados.
Até mesmo híbridos foram condenados à morte.
E agora, só porque eu nasci com cabelo branco — algo que não tem nada a ver com bruxas ou bruxos — ele está mandando os homens dele me eliminar também.
Sem fazer perguntas e, com certeza, sem conceder misericórdia.
A carroça sacoleja adiante, as rodas esmagando o cascalho. Aperto as crianças contra mim, escutando o vento assobiar pela noite.
Anna se encosta em mim, a voz suave.
— Estamos seguros?
— Por enquanto — murmuro, rezando de verdade para conseguir manter todos nós a salvo.
A cabeça de Oren repousa no meu colo, a respiração se acalmando enquanto as pálpebras tremulam e se fecham.
Encosto a cabeça no couro que envolve a carroça para que ela balance menos, meus olhos indo até Anna, cujos olhos cautelosos acompanham o movimento de cada pessoa dentro da carroça.
Uma hora se passa e, então, com um suspiro, eu fecho os olhos.
Valira…
Acorde, criança.
Valira…
“IRA!!” O grito de Anna atravessa meu crânio.
Meus olhos se arregalam. No começo, não vejo nada além de branco, e meu corpo parece ter uma vaca inteira em cima dele.
“ME AJUDA!!” Anna grita de novo; a agonia no tom dela consegue me puxar de volta para a plena consciência.
Há poeira por toda parte. Eu pisco devagar, focando a carruagem destruída à distância, tombada na estrada.
Alguns homens de preto arrastam e espancam pessoas enquanto elas gritam e tentam escapar.
De repente, eu percebo um líquido quente escorrendo pela minha cabeça. Pelo cheiro metálico, dá para saber que é sangue… meu sangue.
Oren, Anna.
“Oren! Anna!” eu grito, lutando para me pôr de pé. O chão balança sob mim enquanto viro a cabeça de um lado para o outro, procurando as crianças.
“IRA!” Oren grita, e imediatamente eu os avisto.
“NÃO!” eu berro com todas as forças. “Soltem eles!”
Oren grita, seus punhinhos batendo com fúria nas costas de um homem que o está puxando em direção a outra carroça.
Eu mal consigo respirar por causa do tamborilar do meu coração enquanto manco para a frente.
“Tira essas mãos imundas dela!” eu grito de novo, empurrando um dos homens.
O homem se vira num giro, o peito arfando sob o colete de couro. “Sua merdinha!” ele xinga, e o punho dele acerta meu maxilar.
Eu cambaleio para trás, um grito de dor escapando dos meus lábios.
Antes que eu caia, ele me agarra de novo e, desta vez, me bate com mais força no rosto.
“Para!” Eu me debato enquanto minha visão explode em branco. “Para!”
Mas ele não para.
“Acha que pode responder?” ele rosna, me empurrando na terra; a bota de ferro dele desce com tudo no meu peito. “Vamos ver o quanto essa boca fica alta quando…”
“Chega, Ham”, outra voz interrompe.
O homem pausa os ataques.
O recém-chegado, que parece ter mais autoridade, franze a testa com nojo diante do meu corpo se contorcendo na sujeira e então faz um gesto na direção das grandes carroças escuras. “Carreguem eles. Estamos perdendo tempo.”
Anna é jogada dentro de uma, caindo sem ter como se segurar. Logo depois, Oren também é atirado na mesma carroça.
Eu me arrasto até ficar de joelhos, tossindo sangue. A dor na minha cabeça é lancinante, mas ainda consigo ouvir o choro deles quando os cavalos se agitam, se preparando para partir.
“NÃO!” Eu disparo na direção deles, tropeçando na terra. “Por favor!” eu soluço. “Por favor, me levem também. Não me deixem aqui!”
O homem de pé sobre mim ri. “Te deixar? Ah, não, querida. Você vem com a gente. Vai ser útil na base. O rei não disse que o comandante estava precisando de uma puta? Você parece perfeita pro serviço.”
Os outros dão risadinhas.
Eu mal escuto mais alguma coisa, meus olhos se fechando de exaustão.
E agora, eu estou amarrada à cama de um homem de quem parece impossível escapar.
