Capítulo 5: Comandante Ruel

Ponto de vista de Ruel

O corredor se estende largo e comprido, atravessando uma centena de quartos.

— Está estranhamente silencioso hoje. — Elric resmunga, acompanhando meu passo sem esforço.

As solas firmes das minhas botas batem no chão num ritmo constante, e o som ecoa além do espaço bem iluminado.

Todos por quem passamos prestam continência, respeitosos, esperando um segundo até seguirmos adiante antes de continuarem seu caminho.

Assinto, reconhecendo a observação inicial de Elric.

Alguma coisa realmente parece estranha.

Ninguém fala quando eu passo. É quase como se mal estivessem respirando. Eu sei que sou o comandante deles, mas essa reação... Parece que fizeram alguma merda de novo. Ou, no mínimo, algo que pode dar muito certo ou dar muito errado para eles.

Eu saio da base por um dia e todo mundo está agindo como se tivesse enfiado a mão no pote de biscoitos.

Atrás de nós, Scarface vem perto, a cicatriz sob o queixo repuxando toda vez que ele engole em seco.

— Atualizações — exijo, seco, quando ele também entra no meu passo.

Passando uma mão rapidamente pelos cabelos loiros, ele se endireita.

— O Rei Alfa enviou mais homens. Desta vez, da Cidade de Velmora.

Assinto devagar, mantendo os olhos à frente.

— Mais alguma coisa?

Scarface hesita quando viramos a esquina.

— Tem... mais uma coisa, Comandante.

Elric solta um riso pelo nariz.

— Seja lá o que for, é bom explicar essas caras de culpa que a gente vem recebendo. — Ele mantém os olhos castanhos em Scarface antes de falar de novo. — Você está quase pronto pra se cagar todo.

— Scarface, a outra notícia? — interrompo, sem disposição para ouvir as teorias de Elric.

Scarface engole em seco, o olho esquerdo tremendo.

— O Rei Alfa mandou uma carta, senhor. Eu deixei... no seu quarto. Primeira gaveta.

Inclino um pouco a cabeça, permanecendo em silêncio por um instante.

Duas semanas... Foram duas semanas de espera. E, enfim, o Rei Alfa escolhe responder. Tomara que, desta vez, a carta tenha o que eu pedi.

Meu maxilar se contrai, e meu sangue acelera, bombeando mais rápido, em antecipação.

— Uma carta do próprio Rei? Não por mãos de outro? — pergunto, para ter certeza.

— Do Rei Alfa, Comandante Ruel. O selo dele ainda está intacto.

Assinto.

— Bom. Mantenha-a segura até eu precisar. Traga depois que verificarmos o corredor.

Elric esboça um sorriso fraco, mas até a diversão dele se apaga agora.

— Mesmo assim... isso não explica toda essa cautela. Hoje não é nosso aniversário, né? Quero dizer, não é como se a gente estivesse entrando numa armadilha... é?

Scarface se remexe, inquieto.

— Ah... tem mais uma coisa que eu preciso te contar.

Eu diminuo o passo, finalmente encontrando o olhar de Scarface quando chegamos à última porta. A porta preta brilha com o brasão de Vahl.

As tochas deste lado do corredor ardem mais baixas, dando ao lugar uma sensação sinistra — do jeito que eu gosto.

— E o que é que você precisa dizer? — pergunto.

Scarface abre a boca para falar, mas eu ergo um dedo; minhas narinas vibram quando eu capto um cheiro.

— Doçura não pertence ao meu corredor — sussurro para mim mesmo.

Elric gira a maçaneta.

Scarface avança. “Comandante Ruel”, ele começa com cuidado, mas então a porta se escancara antes que ele consiga terminar.

E eu paro.

O cheiro floral me atinge com mais força. É tão intenso que dá enjoo e, ao mesmo tempo, hipnotiza. De repente, meu quarto parece contaminado.

“Alguém borrifou alguma coisa aqui?”, pergunto, franzindo a testa.

Elric revira os olhos. “Sério? Este lugar sempre cheira a poeira. Você…”

Mas eu não ouço o que ele diz depois. Porque, exatamente naquele momento, eu vejo ela.

A cabeça dela se inclina levemente ao som das nossas vozes, as mãos pálidas e finas amarradas ao poste da minha cama.

Por uma fração de segundo, eu não ouço nem vejo nada além dela.

As gotinhas de água, levemente rosadas, que escorrem pelos fios vermelhos e encharcados do cabelo. Os pequenos vestígios que grudam nas laterais do rosto e no pescoço. O tecido muito transparente que ela está usando.

De verdade, não deixa nada para a imaginação.

O jeito como o material fino se cola aos quadris dela torna o propósito dessa encenação nauseantemente claro.

Alguém quis que ela parecesse uma oferenda.

Meu maxilar se contrai.

Elric fica imóvel ao meu lado, mas Scarface não se mexe nem um centímetro.

Quando ela ergue a cabeça por completo, sou recebido pelos olhos azuis e frios. Ainda assim, o olhar dela arde com uma raiva inegável.

As mãos dela tremem quando eu me aproximo, mas ela não baixa o olhar — como se me desafiasse a dar mais um passo.

As sardas na pele dela são o que mais se destaca, espalhadas com inocência pelo nariz.

A respiração dela fica pesada quando ela separa ainda mais os lábios rachados.

Meu olhar desce… Hematomas marcam os ombros e a clavícula, óbvios contra a pele pálida.

Um som vibra baixo no meu peito antes mesmo que eu o reconheça.

Luxúria, fome?... Não.

O que eu sinto agora só pode ser descrito como pura raiva.

Meu lobo se agita sob a minha pele, curioso e ansioso. Eu o empurro para baixo imediatamente. Não preciso dos instintos dele agora.

Isso não é, de forma alguma, uma tentação. É um insulto.

Alguém achou que eu sentiria prazer em ver uma mulher amarrada, quebrada, exposta como um maldito prêmio?!

Eu pareço algum cachorro enlouquecido no cio?

As cordas em volta dos pulsos dela estão visivelmente rasgando a carne.

Alguém teve a audácia de limpá-la, lavá-la, vesti-la assim e deixá-la para mim.

É nesse momento que eu percebo que todos eles têm um motivo justificável para temer a minha reação.

Eu me aproximo, o chão rangendo sob os meus sapatos. Ela se encolhe por instinto, mas os olhos nunca baixam. Como alguém acuado numa batalha, ela cobre o medo com ousadia.

Ou seria tolice?

Scarface pigarreia atrás de mim, a voz dele rompendo o silêncio. “Comandante Ruel…”

“Que porra é essa?”, eu repreendo, minha voz saindo áspera.

Scarface dá um passo para trás e Elric se coloca entre nós, os olhos indo da mulher acorrentada para mim.

A fúria sobe pela minha coluna, enchendo minha garganta às pressas enquanto eu encaro ela de novo. A zombaria que alguém achou que eu iria apreciar.

“Eu fiz uma pergunta, Scarface!”, eu trovejo, vendo o homem inspirar fundo.

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