Capítulo 6 Uma fraqueza que não podemos suportar
Ponto de vista de Ruel
“Ela é sua, Comandante Ruel.” Scarface resmunga, baixando os olhos com incerteza.
Por um segundo, eu só encaro ele, sem que as palavras façam sentido.
Ela é sua.
As palavras ecoam na minha cabeça, e eu cerro a mandíbula com tanta força que chega a doer.
“Repete o que você acabou de dizer, Scarface.” Minha voz desce de tom, a irritação dentro de mim vazando.
Scarface se remexe, desconfortável, ajustando a postura. “Ela é… sua, Comandante.” O pomo de Adão sobe e desce quando ele engole em seco.
Elric olha de um para o outro, as sobrancelhas erguidas. “Que porra você quer dizer com isso?” ele pergunta, fixando o olhar em Scarface.
O oficial não responde de imediato, como se estivesse organizando os pensamentos; então, um segundo depois, fala. “Bem…”, começa, arrastado.
“Quem te mandou fazer isso?” eu corto, minha paciência virando pó.
Elric ergue as duas mãos na hora. “Não olha pra mim. Eu entrei aqui com você.” diz, se afastando de Scarface como se tivesse percebido que eu ainda tenho controle sobre o meu lobo.
“Eu sei”, eu rosno, voltando o olhar fulminante para Scarface. “Fala logo.”
“Hoje de manhã… alguns guardas reais chegaram. Eles trouxeram seis mulheres pra base. Quando eu perguntei, disseram que eram presentes do próprio Rei Alfa.” Ele diz, enfiando a mão no bolso.
“Eles também me entregaram uma carta pra você. E um bilhete pra mim.” Ele tira um papel bem dobrado.
“Um bilhete”, eu repito, indo até ele a passos firmes.
“Sim, senhor. É endereçado a qualquer um dos seus oficiais. E como o senhor Elric não estava aqui, achei que devia fazer como foi instruído.” Ele me entrega o papel leve.
“O que diz?” Elric pergunta, se aproximando, mas eu não respondo; minhas sobrancelhas se contraem enquanto leio as palavras escritas ali.
O tom calmo de Scarface preenche o ar vazio. “Dizia pra escolher uma entre as mulheres. Um corpo de prazer… pra você, Comandante Ruel. O Rei Alfa achou que, talvez… as batalhas estivessem começando a te desgastar.”
A caligrafia é forte, preguiçosa, arrogante.
Chegou ao meu conhecimento que a batalha anterior realmente cobrou seu preço do seu Comandante, já que ele está começando a esquecer o seu lugar na hierarquia da matilha.
Estou enviando a ele um consolo. Ele pode fazer com ela o que bem entender. Escolha, dentre as mulheres que meus homens levarão até você, aquela que mais agradará o seu Comandante. Confio que seu gosto permaneça refinado.
Eu encaro o selo real, o peito subindo e descendo de tanta fúria.
“Corpo de prazer?” Elric franze a testa, enojado. “É isso que o Rei Alfa acha que vai resolver?”
Scarface assente de leve. “Sim, senhor.”
Eu inspiro, os dedos se fechando num punho. “E você achou que isso era uma boa ideia?” eu rosno.
Ele balança a cabeça rápido. “Não, Comandante, eu… eu não tive escolha. Foi uma ordem do Rei Alfa.”
“Que merda doentia é essa?” Elric murmura, quase inaudível. “Porra, eu queria queimar esse maldito bilhete antes mesmo de ler.”
Scarface, percebendo a minha raiva, recua, mas eu viro de costas pra ele, meus olhos caindo sobre a dama silenciosa, que ainda está nos fuzilando.
“Você escolheu ela. Por quê?” eu pergunto, o pulso martelando de raiva.
“Na verdade, todos nós concordamos que ela parecia a mais jovem. E, ah…” A voz dele baixa. “A mais bonita.”
Ele soa idiota. Não que eu não consiga ver a beleza de que ele está falando, mas nós não já vimos gente ainda mais bonita cair pra morte por causa da displicência do Rei Alfa?
Ele está falando como se não soubesse do que é que a gente vem reclamando. Meses de pedidos e reclamações e… isso… uma mulher, é o que ele manda.
Isso é outro teste, para ver se sou leal o bastante?
Elric se aproxima de mim, claramente pronto para agir se eu perder o controle. Não o culpo por esperar que eu estoure, mas não vou. Isso, por mais que me enoja, não foi ideia do Scarface.
—Scarface —digo em voz baixa.
—Senhor?
—Saia —ordeno.
Ele assente e recua imediatamente.
—Não é culpa dele, você sabe —murmura Elric quando a porta se fecha atrás do Scarface.
A jovem parece alguém que mal se alimenta. Isso me faz pensar de onde exatamente os guardas reais a tiraram.
Fico sem me mexer por um bom tempo. Então puxo a faca de bolso presa à minha coxa e caminho na direção dela.
Os olhos dela se arregalam. —Fica longe de mim! —ela grita, a voz trêmula, mas com uma ousadia surpreendente.
Eu a ignoro, diminuindo a distância entre nós e descendo a lâmina sobre ela.
—Não! —ela berra.
Com um corte limpo, as cordas se soltam, mas antes que eu possa recuar, ela agarra a faca pelo fio.
O fedor metálico de sangue me ataca quando o sangue jorra instantaneamente da palma dela, vermelho-vivo contra a pele pálida.
—Mas que… —Não consigo terminar, porque ela gira o pulso, vira a faca e vai direto para a minha garganta.
Acontece rápido… tão rápido que mal tenho tempo de pensar.
Mas meu corpo se move com agilidade, rebatendo a faca para longe. Ela bate e desliza pelo chão, manchada de sangue.
Agarrando-a pelos ombros, eu a jogo contra a parede, e um arquejo doloroso escapa dos pulmões dela.
Olhos azuis ardem intensos, cheios de medo e fúria. A respiração dela treme enquanto ela se debate, o peito macio subindo e descendo contra o meu.
—Que porra tem de errado com v…? —Eu nem consigo terminar, porque naquele instante eu a respiro.
O cheiro, como cem cavalos em disparada, me atinge —floral, doce e quente. Ele queima pela minha garganta, entra nos meus pulmões, no meu sangue.
Meus joelhos fraquejam, sutilmente, mas o bastante para meu pulso falhar. Meu lobo desperta tão de repente que quase me arranca de dentro uma palavra que eu nunca pensei que ouviria em um milhão de anos.
PARCEIRA.
A palavra explode dentro do meu crânio, e por um momento me deixa tonto.
Parceira! ele rosna de novo. Desta vez é mais alto, certo… assustador.
Eu cambaleio, apoiando as palmas na parede ao lado dela, lutando para me firmar.
—Tira de cima de mim! —ela grita, lágrimas se acumulando nos olhos apavorados.
Eu me afasto, a respiração áspera, o coração martelando como se eu tivesse acabado de lutar a pior batalha da minha vida.
—Ruel? —A voz de Elric ecoa atrás de mim.
Eu recuo ainda mais cambaleando, com a sensação de que minha cabeça vai explodir a qualquer segundo de tão exigente que é a voz do meu lobo.
—Elric! —cuspo entre os dentes, as mãos cerradas em punho enquanto luto para manter meu lobo contido.
—Comandante? —Elric responde, e eu gemo.
Porra… se ele está me chamando pelo título, então consegue sentir que meu lobo está à flor da pele.
—Coloque-a numa cela —forço as palavras, dando mais um passo para longe deles.
Krist rosna em protesto, o tom grave e faminto vibrando pelo meu peito.
—Senhor, ela…
—Agora! —eu rosno. —Tira ela daqui!
O cheiro floral não vai embora. Ele se agarra a mim como calor, queimando sob a minha pele, tornando quase impossível domar a fera dentro de mim.
Elric, sem dizer mais nada, a agarra e sai do meu quarto depressa.
Parceira. Nossa. Nossa!
—Não! Essa é uma fraqueza que a gente não pode se dar ao luxo de ter, então para com essa porra —rosno de volta, lutando para recuperar o fôlego.
