Capítulo 7 Arrependimento e medo

Ponto de vista de Ira

Solto um sibilo quando o chão úmido da cela intensifica o frio que já vai afundando nos meus ossos. As trancas da porta estalam no lugar e eu me arrasto devagar para um canto, os lábios tremendo enquanto, enfim, começo a processar o que estou sentindo.

Trago os joelhos até o peito, e o sangue na minha mão mancha minhas pernas. Mesmo assim, envolvo as pernas com os braços, esperando em silêncio que isso me impeça de tremer.

Não impede.

Meus olhos se fecham, e a primeira imagem que vejo é Oren chutando o homem que o carregava, Anna chorando enquanto torciam a mão dela. Os gritos, as vozes apavoradas…

Um soluço escapa da minha garganta. Eu me abraço com mais força quando uma rajada pesada de vento passa zunindo pela cela.

“Merda! Parece que vai cair uma chuva forte hoje à noite.”

“Ei! Tranca as portas para as tochas não apagarem.”

Mais gritos enchem o corredor, mas a dor no meu peito… a sensação de fracasso, de perder a única família que eu já tive… cresce até se tornar incapacitante.

“Me desculpem… me desculpem mesmo”, eu grito, os ombros sacudindo enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto.

“Eu devia ter lutado mais. Eu… eu não devia t…ter dormido nunca. Eu falhei com vocês, eu falhei com vocês…” As palavras escapam dos meus lábios repetidas vezes enquanto eu continuo me estapeando no rosto.

A dor se espalha pela minha bochecha esquerda, mas eu não paro.

Não paro porque eu sei que causei isso.

Nós nunca devíamos ter saído de casa. Eu nem sei se eles ainda estão vivos.

“PORRA!!!” eu berro, com a garganta ameaçando se rasgar.

Pela oitava vez, minha mão fica suspensa no ar, tremendo. Eu a faço descer de novo, batendo na minha bochecha, mas não acerta com força suficiente.

“Por favor, me perdoem”, minha voz falha, e eu pressiono uma mão contra os lábios, balançando a cabeça enquanto mais lágrimas transbordam.

E se eu nunca mais os vir?

E se eles passarem por mais traumas do que eu temia antes de fugir?

O som do trovão engole o silêncio. Erguo o rosto na direção do pequeno buraco quadrado na parede. Uma luz cinzenta se infiltra por ele e, então, como se o mundo chorasse comigo, a chuva começa a cair.

Começa como uma garoa, suave contra as pedras, e então, em poucos minutos, vira uma tempestade furiosa.

O som enche a cela, abafando meu coração aos tropeços. Surpreendentemente, isso me acalma, aliviando um pouco a dor no peito ao me dar um som em que focar além dos meus pensamentos.

Devagar, arrasto a mão pelo rosto, enxugando as lágrimas quentes. E, ao fechar os olhos, aperto bem os lábios trêmulos.

Eu não ouso dormir de novo, porque sei que, no momento em que eu dormir, vou acordar com algo pior.

Depois de algumas horas, o sol nasce no céu. É nesse instante que ouço passos suaves se aproximando da minha cela.

Eu me ponho de pé depressa, com a respiração presa na garganta.

Então eu enrijeço, captando o som de mais duas pessoas. O resquício de escuridão no corredor é enxotado pela luz intensa de uma lanterna.

Uma senhora baixa e pequena entra no meu campo de visão. Os olhos dela me encontram imediatamente, e a expressão despenca quando ela me avalia.

Um dos guardas que a escoltaram até a minha cela destranca a porta com cuidado e, em seguida, a mantém aberta para ela.

O outro entra com ela, os olhos vigilantes sem vacilar nem por um segundo.

A mulher pousa a lamparina e traz o balde na mão, mais para perto. Seus passos são suaves… suaves demais para serem uma ameaça.

Seus longos cabelos castanhos varrem o chão quando ela cai de joelhos, preparando tudo — uma toalha, uma garrafa de água e um pequeno rolo de ataduras.

— Você precisa se sentar para que eu possa limpar seus ferimentos — a voz calma, de fada, quebra o silêncio.

Faço o que ela manda, baixando-me com cuidado de joelhos diante dela. Lanço um olhar rápido para o homem nos vigiando, mas ele não diz uma palavra; só continua encarando.

— Fique quieta — ela diz, baixinho, espremendo um pouco de água da toalha que havia molhado no balde. — Vou limpar você — acrescenta, com um tom de desculpa.

Com um olhar duro, acompanho cada movimento, tentando decifrar se ela é confiável ou não.

— Eu não vou te machucar — ela sussurra, encostando o pano frio nas minhas costas.

Mordo os lábios para não soltar um chiado de dor.

— Meu nome é Sia — ela fala de novo.

Não respondo, porque não devo a ela informação nenhuma sobre mim.

Ela mergulha o pano na água, torce e então começa a limpar meu rosto. Seus dedos são macios contra a minha pele. Quase tão macios quanto a voz.

— Você tem sorte — ela murmura, depois de um tempo. Só ouço porque ela diz tão perto do meu ouvido. — Ninguém tenta ferir o comandante Ruel e sobrevive.

Eu pisco, e as palavras dela reviram meu estômago quando lembro do quanto ele me arremessou contra a parede ontem à noite.

Eu devo ter quebrado um osso, no mínimo.

— Você não devia tentar isso de novo — ela diz com calma, mas eu me afasto dela.

— Você não manda em mim — rosno, atraindo a atenção do homem dentro da cela conosco.

— Você ainda não percebeu, mas ninguém cruza com ele e sai andando. Nem homens, nem soldados e, com certeza, nem criados.

Fecho as mãos no colo. As cordas deixaram marcas de queimadura nos meus pulsos, e isso também dói.

— Escute, não tem como escapar deste lugar — ela continua, torcendo o pano outra vez. — Não lute contra eles. Não tente ser esperta. Só faça o que mandarem.

Ergo o olhar para ela por entre as mechas do meu cabelo molhado.

— E se eu não fizer?

Os olhos dela se suavizam.

— Então eles vão te quebrar até você fazer.

Quando termina, ela põe o balde de lado e tira um pedaço de tecido dobrado de uma pequena bolsa. É um vestido mais grosso. E bem limpo também.

— Vista isto — ela diz, baixinho. — É mais quente. O comandante não quer ninguém congelando antes do interrogatório.

Sem discutir, visto o vestido devagar, o tecido áspero roçando minha pele dolorida.

Quando termino, fico sentada ali, sem jeito, sem saber o que fazer em seguida.

Sia hesita e então sai, levando as coisas com ela.

Eu continuo imóvel, com os olhos ardendo de lágrimas novas ao imaginar os rostos de Anna e Oren.

Se eles estiverem vivos, eu vou encontrá-los e salvá-los. Não me importa o que eu tenha que fazer.

— AHHHH!! — Um grito agudo explode de repente da cela mais abaixo no corredor, atravessando meu coração com pavor.

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