Capítulo 8 S*x percorre um longo caminho
Ponto de vista de Ruel
Ruel Xuaru,
Concentre-se nos desgarrados na fronteira Leste. Pare com suas reclamações desnecessárias. Você vai encontrar um presentinho que enviei na sua direção para aliviar essa sua tensão. Sexo ajuda bastante.
— Rei Alfa Andre
Aperto a carta na mão, sentindo as bordas grossas cravarem na palma.
Sexo.
É isso que ele acha que eu preciso? É isso que ele me manda, em vez de rações e remédios?
Um rosnado baixo reverbera no fundo do meu peito antes que eu consiga conter. Com mais força do que o necessário, arremesso o papel amassado, ficando ainda mais furioso quando ele atinge o chão sem sofrer um mísero dano.
Elric se recosta no poste perto da minha janela, uma abertura grande de onde dá para ver uma ampla extensão do espaço atrás dos dormitórios.
É o mesmo lugar de onde eu vi um dos meus homens desabar por intoxicação alimentar.
— Você vai quebrar os dentes rangendo assim. — Elric resmunga e só então percebo que ele fechou a janela e agora está me observando.
— Você acha isso engraçado? — rosno, apontando para o maldito pedaço de papel que eu tinha jogado no chão.
Elric solta o ar. — Eu nunca disse isso.
A mesa treme quando bato o punho nela. Água espirra de um copo cheio e uma bola grande de plástico, com o mapa de Vahl, quase rola para fora.
— Se acalma antes que você rache a mesa de novo. — ele acrescenta, indo se sentar na minha cama.
— Me acalmar? — Minha voz sobe. — Perdemos três homens... guerreiros em doze semanas, Elric. Três. Não em batalha — por intoxicação alimentar! Os suprimentos estão contaminados. A comida fede a mofo. A clínica está num estado lastimável. E ele escreve piadas sobre SEXO!
Praguejando, agarro a borda da mesa e viro tudo, fazendo o mapa, os papéis e o copo d’água despencarem no chão. O estrondo ecoa pelo quarto.
O suspiro de Elric chega ao meu ouvido, mas ele não diz nada. Nem quando eu arrebento a mesa uma segunda vez contra o chão, garantindo que ela se quebre em pedaços.
Respirando pesado, passo a mão pelos cabelos. Não quero perder o controle, mas ultimamente essa promessa tem sido tão difícil de cumprir.
— Você viu ela? O cabelo dela é falso pra caralho. Tingido… e pra quê? Quem tinge o cabelo sem tentar encobrir um segredo? Talvez ela seja uma ladra, talvez uma porra de uma desgarrada. E ele achou que ela… — paro, as palavras me deixando ainda mais puto. — “Aliviaria minha tensão.”
A boca de Elric se contrai.
— Ele está tentando me humilhar e colocar os homens contra mim? — eu fervilho. — Porque é exatamente o que essa merda parece.
Mas isso não faz sentido. Eu o servi a minha vida inteira.
Elric sustenta meu olhar, me analisando. — Tem mais alguma coisa na sua cabeça.
Eu me jogo na beirada da cama, com os olhos presos na água se espalhando pelo chão.
— Nós servimos ao rei por mais de dez anos das nossas vidas. Não tem como ele simplesmente nos ignorar num momento tão crucial.
Elric bufa, balançando a cabeça. — Eu sabia que você ia dizer algo assim quando se acalmasse. É como se, quando você está com raiva, aceitasse a verdade; mas quando relaxa, tenta se enganar.
Franzo a testa para as palavras dele. — Se o Rei Alfa está mesmo zombando das nossas necessidades, então estamos fodidos. Pra ele fazer isso, a gente deve ter dado um motivo. Mas nós sustentamos o Leste sozinhos. Nós protegemos essa matilha, o povo, o trono dele. No mínimo, ele nos deve um ouvido.
Elric se inclina, recolhendo o copo e a bola-mapa molhada. — Deixa eu adivinhar: você acha que outra carta vai fazê-lo mudar de ideia?
“Se tivessem deixado a gente entrar na casa da alcateia ontem, eu teria obrigado ele a escutar.”
Ele me encara. “Ruel…”
“O quê?”
Ele larga os papéis na mesinha de cabeceira, balançando a cabeça. “Por que você continua fingindo que não é ele? Você acha que é a Gestrid que está escrevendo as cartas? Que foi a Gestrid que mandou cortarem nossos suprimentos não só pela metade, mas ainda por cima nos deram suprimentos vencidos?”
Meu maxilar endurece, mas Elric continua.
“Que foi a Gestrid que tirou de nós nossa melhor médica? Sério? Nós dois sabemos que aquela mulher não tem esse poder todo. Você não pode continuar defendendo ele quando ele está obviamente tentando eliminar todos nós… ou pelo menos nos frustrar até a gente se rebelar.”
Eu me levanto, os músculos dos meus ombros tremendo de tensão. “Não faz sentido”, digo entre dentes cerrados. “O rei alfa não é idiota. Ele sabe como esse sistema funciona. Ele sabe que a gente não consegue manter a fronteira se nossos soldados estiverem passando fome. Não tem como ele ter lido nossas cartas e achado que essa loucura vai resolver alguma coisa.”
“Mas ele leu. Você viu o selo dele. O seu rei alfa é um merdinha.” Elric sibila, tomado de ódio.
“Não fale assim do seu rei, Elric”, eu o repreendo.
“Ah, por favor, para de hipocrisia. Você estava reclamando há alguns minutos. Deixa de se agarrar à imagem falsa que o rei alfa Andre mostrou pra gente quando estava nos treinando. Pensa… A gente praticamente expurgou a alcateia inteira de todo vira-lata. Ele não precisa mais da gente. É óbvio que ele não está mais interessado no nosso bem-estar.”
“Chega.”
“Você não pode continuar fingindo.”
“Eu disse chega!” A ordem rasga de mim, no mesmo tom da fúria do meu lobo.
Elric joga as mãos para o alto. “Tá bom”, diz, depois de uma pausa. “Você quer acreditar que é o fantasma velado? Então é o fantasma velado. E agora?”
Eu passo a mão pelos cabelos, pensando. “Eu vou escrever de novo. Uma última vez.”
Ele assente. “E quando ele não responder? Ou mandar outra máquina de prazer disfarçada de uma dama linda traumatizada?”
Eu não respondo. Não dá tempo.
“Comandante Ruel!” vem uma batida forte na porta.
“Entre.”
O jovem entra, encharcado da chuva. Ele se curva. “Senhor. O prisioneiro que trancamos ontem à noite está morto.”
“O quê!” Meu coração falha por um segundo. “Q… quem?”, gaguejo, cada músculo do meu corpo ficando rígido ao pensar nela.
“Um dos renegados que pegamos. Parece que ele morreu de intoxicação alimentar. É esse o relatório dos agentes de saúde.”
Lanço um olhar para Elric, mas ele já está me observando com um olhar desconfiado.
“E a outra, a moça ruiva?”, pergunto ao jovem.
“Ela foi limpa e recebeu um vestido, como o senhor ordenou.”
“Diga ao Cortis para trazê-la até mim. E se livrem do renegado”, eu digo.
O homem bate continência antes de sair.
Elric me observa com atenção. “Você está bem?”
“Sim. Por quê?”, pergunto, franzindo a testa.
Ele me analisa por um instante, então inclina a cabeça. “A gente vai fingir que você não acabou de demonstrar compaixão por uma mulher que quase te esfaqueou.”
“Que merda você está falando?”
“Sério? Você ouve que um prisioneiro morreu de intoxicação alimentar e a primeira coisa que faz é garantir que a moça seja tirada de perigo. Quer dizer, o Kennedy, que gritou de volta com você mês passado, ainda está lá… você não pensou nele?”
“Eu tenho trabalho demais pra ficar aqui ouvindo suas bobagens”, resmungo, saindo a passos largos, o coração disparado enquanto tento afastar as palavras ácidas dele.
