Capítulo 9 Que tipo de monstro ele é?

Ponto de vista de Ira

— O que ele disse? — diz uma voz do fim do corredor.

— O comandante mandou se desfazer do corpo — informa outra voz com calma, como se não estivessem falando de um ser humano.

Observo em silêncio enquanto arrastam para fora o homem que tinha gritado mais cedo.

O rosto dele, embora pálido e inconsciente, está contraído de dor. Com certeza não teve uma boa morte.

O som da porta da cela dele se fechando ecoa pelo corredor.

— De verdade, o comandante precisa fazer alguma coisa a respeito disso. Seja lá que veneno esteja matando gente aleatoriamente é forte demais — diz uma voz, bem antes de dois homens de mantos brancos passarem.

— Você não acha estranho… que todo mês alguém novo morre? — o outro homem sussurra, mas é tão ruim em sussurrar que eu ouço perfeitamente.

Olho na direção do fim do corredor, captando mais um passo. Uma mulher surge à vista.

O cabelo dela está desgrenhado, a mão esquerda numa tipoia, mas dá para ver que ela é uma das funcionárias da enfermaria.

Os olhos dela se movem e ela sustenta o meu olhar com uma pena profunda. Mas, tão rápido quanto, desvia o olhar. É nesse silêncio que o pensamento me atinge.

Eles provavelmente acham que eu sou o próximo corpo gelado que vão carregar para fora.

Recuo para um canto, apoiando a cabeça na parede enquanto o silêncio volta a se instalar nas celas. Os minutos seguintes passam como um borrão. Mas, infelizmente, isso não apaga a dor enlouquecedora na minha cabeça nem a dor pelo meu corpo inteiro.

Dessa vez eu não ouço ninguém se aproximando, então, quando a fechadura da minha cela estala ao abrir, eu me sobressalto, erguendo a cabeça do tijolo frio.

Uma guarda mulher empurra a porta devagar, os olhos fixos em mim.

— Levante. — É uma ordem, mas ela diz com tanta gentileza que eu chego a ponderar o quanto é importante para mim obedecer.

Três segundos depois, já estou de pé. Atrás dela há dois outros homens vestidos exatamente como ela.

Ela parece tão alta quanto eles. O cabelo preto está bem preso num coque. A pele, bronzeada e bem lustrosa; e, para além da beleza, eu sei que há uma força nela, igual à dos outros.

— Levem-na para fora — ela diz aos homens, e eu dou um passo para trás.

Para onde vocês estão me levando? Por que vocês não podem simplesmente me deixar em paz?!

Os homens avançam marchando. Um pega minha mão enquanto o outro empurra minhas costas. Eu não luto, principalmente porque não tenho forças para isso. Então deixo que me conduzam para fora da cela.

Mas então eu cambaleio.

A mulher se move antes que eu atinja o chão, a mão quente se fechando ao redor do meu braço — firme, mas não agressiva.

— Calma — ela diz, baixinho.

Quando saímos da prisão e entramos no sol, eu inspiro fundo, saboreando o calor.

Então caminhamos, pelo que parece uma eternidade. Meus pés descalços doem contra o piso úmido, mas os guardas não dão sinal de que vão parar tão cedo.

— P-para onde vocês estão me levando? — gaguejo, olhando por cima do ombro para os homens que vêm atrás de nós.

— Seu nome? — ela pergunta, ignorando a minha pergunta.

— Ira — murmuro.

Ela faz um leve aceno, quase para si mesma.

Eu tropeço numa lajota quebrada e, num instante, ela desliza um braço ao redor da minha cintura para me firmar.

Caramba, ela é esguia, mas mais forte do que parece.

— Você tentou esfaquear o comandante — ela afirma, os olhos presos a algo ao longe.

— Eu não ia deixar ele encostar em mim — digo, com sinceridade.

Ela me encara, não uma vez, mas devagar, de cima a baixo. “Ele já deixou gente apodrecer na cela por muito menos. Considere-se com sorte por ele estar mandando você para os alojamentos dos serviçais.”

Minha cabeça se vira num solavanco na direção dela. “Alojamentos dos serviçais?”

“De que cidade você é?” ela pergunta, virando uma esquina.

Então você pode me fazer perguntas, mas eu não. Entendi.

“Velmora”, eu digo.

“Hmm”, ela murmura enquanto entramos em um pátio vasto. “E quantos anos você tem?”

“Vinte.” Mal termino de dizer a palavra quando avisto para onde estamos indo. Na mesma hora, eu paro de andar.

Meu corpo trava quando meus olhos se fixam nas fileiras de guerreiros em formação.

Merda, e se eles pretendem me usar como bode expiatório?

Um grito excruciante de um homem, acompanhado de um grunhido nauseante, toma o ar.

“Ande, Ira”, a mulher ordena num tom baixo. “Seu dever é com o Comandante Ruel. A partir de hoje, você vai fazer o que ele mandar. Vai servi-lo até que ele tenha alguma utilidade para você.” O tom dela é definitivo, mas eu não obedeço, achando quase impossível desviar o olhar da cena grotesca à minha frente.

Músculos grossos se contraem sob a camisa encharcada quando o punho dele se choca contra o rosto ensanguentado do homem — de novo e de novo.

Ele só para quando o homem fica inconsciente; então ergue a cabeça, o cabelo escuro caindo sobre os olhos, os nós dos dedos manchados de sangue.

Ninguém interfere. Nenhum som. Como se ninguém mais ousasse respirar.

Ele parece indiferente, como se espancar pessoas até elas desmaiarem fosse só um passatempo comum. Não está ofegante, não parece com raiva… só neutro. Na verdade, ele parece entediado.

Que tipo de monstro ele é?

O olhar dele varre o lugar e então me encontra.

O medo se arrasta dentro do meu peito, mas, com sorte, eu não precisaria de mais de um soco dele para apagar, então mal sentiria a dor do que quer que venha a seguir.

Os olhos dele se estreitam, mas ele não parece surpreso em me ver. Como se já soubesse que eu estava sendo trazida até ele como um cachorro quebrado.

Ele inclina a cabeça de leve, sussurrando algo para o homem que me arrastou para fora do quarto dele ontem à noite.

O homem, um pouco mais esguio, assente; o cabelo comprido pega a luz do sol antes que ele se aproxime do homem inconsciente.

O Comandante Ruel não olha para trás. Não; mantém aqueles olhos mortais em mim e começa a caminhar com calma na nossa direção.

Para minha surpresa, ele passa por nós sem dizer uma palavra.

“Siga”, a mulher ao meu lado insiste.

Minhas pernas obedecem antes da minha mente e, pouco depois, estamos indo em direção a duas cabanas minúsculas.

Todos por quem passamos fazem continência ou cumprimentam, mas o desgraçado arrogante não responde uma palavra. Nem sequer reconhece a presença deles.

Eu encaro as costas dele, desejando que ele escorregue, caia e se veja à mercê dos fantasmas daqueles que ele arrancou deste mundo.

Ele para diante de uma das cabanas, bem em frente a uma grande porta de madeira. Sem esforço, empurra-a e abre. O cômodo parece um escritório muito desorganizado, cheio de tralha.

Entramos com ele e então ele se vira, o olhar se fixando nos guardas.

“Deixem-nos.”

Eu dou um passo rápido para trás, mas a guarda coloca uma mão nas minhas costas, impedindo que eu corra.

Ela faz uma pequena reverência e sai, fechando a porta com um estalo. Deixando só nós dois.

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